American Horror Biography: Tate Langdon

O tema do filme “A Morte Tem Cara de Anjo” assoviado. A pintura facial de caveira. A rosa tingida de preto. O dedo contra a têmpora numa simulação de revólver. Por bem ou por mal, cenas protagonizadas por Tate Langdon se tornaram para nove entre dez fãs o símbolo da primeira temporada de “American Horror Story”, ou da própria série. A questão é: a nossa interpretação sobre o personagem é certeira, ou fomos seduzidos até cair na tentação de romantizá-lo por influência de frases adocicadas direcionadas à Violet (Taissa Farmiga), pela forma como atuação competente do, então, quase novato Evan Peters nos desarmou e pela aparência juvenil do ator?

Esses são motivos o suficiente para ele se tornar o segundo analisado na série de artigos “American Horror Biography”. A intenção é periodicamente lançar um olhar aprofundado sobre os protagonistas e coadjuvantes mais icônicos do seriado.

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TATE LANGDON

“Vivemos em um mundo imundo. É a droga de um mundo imundo e sinceramente eu sinto que estou ajudando-os a escapar da merda, do mijo e do vômito que correm pelas ruas”
Quando lançamos o primeiro olhar sobre Tate vemos um adolescente com fantasias homicidas e desprezo pela imundice do mundo. Suas falas sobre a sujeira espalhada pelas ruas ecoam frases de Travis Bickle, o protagonista de “Taxi Driver”, o que significa que o jovem tem seus ídolos da ficção. Por ser problemático, ele é um paciente do terapeuta Ben Harmon (Dylan McDermott) e desenvolve logo interesse pela filha do psicólogo, Violet. Mesmo que ele utilize palavras para jogar com as pessoas, os indícios de quem Tate se mostra ser estão apresentados desde suas aparições iniciais.

Os sinais não se resumem ao comportamento instável e desafiador. A aparência dele também está cheia de dicas. Tate se veste como um jovem grunge dos anos 90. A mensagem do visual anacrônico é a seguinte: “Ele não pertence à atualidade, está paralisado no tempo. Público, o rapaz é um dos fantasmas que assombram a mansão.” A primeira impressão resulta em dúvidas: as fantasias correspondem a atos praticados? Em caso positivo, ele tem lembrança disso? Mas ele se mostra tão doce e protetor com Violet, como pode ser cruel? Qual das faces é a verdadeira?

HERÓI BYRONIANO?

“Eu gosto de pássaros também. Porque eles pode voar para longe quando as coisas ficam muito loucas, acho.”

A ficção frequentemente recorre a um arquétipo de personagem classificado como herói byroniano. Trata-se de uma pessoa inteligente, introspectiva, autodestrutiva, cheia de conflitos internos, contrária à sociedade, misteriosa, com capacidade de seduzir e carisma, moralmente questionável, rebelde. Apesar disso, ele é um tanto romântico e até chega a demonstrar pelo menos uma pessoa. Como o nome indica, o arquétipo é baseado no poeta Lorde Byron – na obra e na personalidade do escritor.

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O herói byroniano é um primo próximo do anti-herói e por ser complexo ele intriga muito mais do que um protagonista benevolente. Ele tem características superficiais em comum com Tate. O personagem de Evan Peters foi escrito para causar efeitos parecidos com o do arquétipo e encantar o público. Inclusive, os principais personagens que originalmente se encaixam na categoria foram escritos no século 19, mais precisamente no período em que a literatura romântica flertava com a arte gótica, sombria como o Tate. Mas seria ele, de fato, um herói byroniano?

COLUMBINE

“Eu olhava para o oceano e pensava… ‘Ei, otário, colégio não conta para porra nenhuma.’ Kurt Cobain, Quentin Tarantino, Brando, De Niro, Pacino, todos eles abandonaram os estudos. Eu… eu odiava o colégio.”
Manhã de 20 de abril de 1999. Os estudantes Dylan Klebold e Eric Harris entram na Columbine High School, onde estudam. Ambos trajam sobretudos pretos. Em poucos minutos, sacam um arsenal composto por espingardas e semiautomática. As armas são miradas aleatoriamente em quem cruza seu trajeto. Eles caminham pelos corredores, chegam à biblioteca. Por onde passam, deixam rastros de morte. Ao todo, matam 13 pessoas e ferem mais de duas dezenas. Alunos e professores são atingidos no peito, cabeça, abdômen.“Você acredita em Deus?”, um dos atiradores chega a perguntar a uma estudante. O massacre resulta em ação de uma equipe da SWAT, que invade o local. Depois de fazerem vítimas e causar terror, Dylan e Eric se suicidam.

Uma manhã de 1994. O estudante Tate Langdon entra na Westfield High, onde estudava. Ele traja sobretudo preto. Em poucos minutos, saca um arsenal de armas, que são miradas aleatoriamente em quem cruza seu trajeto. Ele caminha por corredores, invade a biblioteca. Por onde passa, deixa rastro de morte. Ao todo, mata 15 pessoas, atingidos no peito, cabeça, abdômen. “Você acredita em Deus?”, o atirador chega a perguntar a uma estudante. O massacra resulta em ação de uma equipe da SWAT que invade a residência dos Langdon. Depois de fazer vítimas e causar terror, Tate incita a equipe a matá-lo. Seus gestos que imitam mais uma vez Travis Bickle.

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O grande crime de Tate foi inspirado no massacre de Columbine, um grande trauma da história recente dos Estados Unidos. Dificilmente um herói, mesmo que byroniano, (ou até mesmo um anti-herói) seria baseado nos autores de mortes tão dolorosas para a memória do país. Mais do que assombrações, os atos de Tate no episódio constituem um verdadeiro horror americano.

PERSONALIDADE ANTISSOCIAL

“Eu não quero machucá-lo, mas vou ter que matá-lo.”

O massacre estudantil seguido de suicídio não foi o único ato de violência de Tate. Friamente, um pouco antes do tiroteio, ele incendiou o namorado de sua mãe. Depois da morte, o garoto matou dois moradores da residência. A razão do crime é o fato de eles formarem um casal gay em crise e por isso não serem capazes de gerar um bebê ou adotar tão cedo. Tate queria dar uma criança à sempre triste Nora, um fantasma com quem simpatiza desde quando era um garoto pequeno. Sim, um motivo fútil. Além de tudo, ele não se limitou a eliminar os dois e sodomizou um dos rapazes com um atiçador de lareira, manifestando homofobia (Um parêntese, o produtor do seriado é gay. Com isso em mente, qual será a opinião dele sobre homofobia?).

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Ainda com intenção de produzir um bebê, ele veste uma roupa de fetiche preta de borracha que oculta seu rosto e deixa Vivien Harmon (Connie Britton) acreditar que quem se aproxima do quarto é o marido. Enganar alguém para praticar um ato sexual constitui estupro.

Tate é frio, sem qualquer empatia pelos seres humanos a quem vitimiza. Ele despreza as normas sociais, é egoísta, manipula, mente sobre não se lembrar da vida passada, é carismático, não tem limites para alcançar seus objetivos. Enquanto as características superficiais do personagem remetem ao herói byroniano, as essenciais correspondem a outro arquétipo comum na ficção, principalmente no terror e no suspense. Tate se enquadra no perfil do típico psicopata ou sociopata do cinema. Os dois termos são sinônimos populares do transtorno de personalidade social. Se um espectador fosse preencher um teste de assinalar sintomas da pertubação mental os comparando com o comportamento de Tate, marcaria quase todas as opções.

NEGLIGÊNCIA FAMILIAR

“Constance: As visitas ao bom médico estão ajudando você?
Tate: É. Estamos chegando à raiz do meu problema. A verdade é que eu odeio minha mãe.”

Tate tem outro ponto em comum com o arquétipo de sociopata. Ele vive em um lar de negligência familiar. O rapaz era o único entre quatro filhos a ser considerado perfeito por Constance (Jessica Lange). Addie (Jamie Brewer) tinha Síndrome de Down, Beauregard (Sam Kinsey) nasceu com má-formação, e, como um comentário de Ryan Murphy no DVD da temporada, o quarto irmão seria um rapaz albino. Apesar de manifestar uma leve preferência pelo garoto, ela não se mostrava tão presente durante sua formação.

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A razão pela qual ele desenvolveu uma forma de vínculo com Nora é porque quando era criança ele se sentia solitário, mais protegido pela fantasma do que pela própria mãe. Constance sempre esteve mais preocupada com si mesma e com seu marido ou amantes. O filho cresceu com essa percepção. Além de considerar a mãe uma “boqueteira” (palavras do próprio), ele nutre rancor por ela por acreditar que Constance foi a causa do afastamento do pai.

A predileção de Constance por Tate se resumia nas expectativas de que o filho exibisse a perfeição que ela atribuía a ele. Por sua vez, o garoto estava  disposto a frustrá-la. O massacre na escola e a autodestruição que o seguiu foram calculados como um ataque vingativo. Tate fez questão de provocar a própria morte na frente da mãe.

Apesar dos conflitos, os dois têm a mesma facilidade em matar sem exibir qualquer consideração pela vítima. Constance elimina o esposo traidor, a empregada que acreditava ser a amante dele. Ela não tem problemas em ocultar o cadáver de uma no jardim e o moer o corpo do outro para utilizá-lo como alimento para cachorro. Manipuladora, a mãe de Tate também convence um novo parceiro – Larry (Denis O’Hare) – a sufocar Beauregard por sua má-formação. Não seria exagero dizer que Tate herdou o gene assassino da mãe e o transferiu para o filho, Michael.

AMOR?

“Feche seus olhos e se lembre que tudo vai ficar bem. Eu amo você.”

“Mas tudo isso foi antes da Violet e ele a ama.” Quase posso ouvir as fãs pronunciarem esta defesa. Tate, de fato, tem um apego muito grande por Violet. Há gestos de proteção nas demonstrações de afeto do rapaz, mas há manipulações e fixação. Inicialmente, ele a usa como ferramenta para provocar Ben. Posteriormente, a garota se torna o objetivo principal da existência de Tate, não como um objeto de amor, mas como o alvo que ele, um sociopata carente de atenção, quer alcançar.

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O rapaz mente o tempo todo para a garota. Ele a induz a acreditar que é vivo, depois a faz crer que não sabe que está morto, finge não conhecer os estudantes que matou e esconde o fato de ter estuprado sua mãe. Não podemos esquecer que como um bom psicopata, Tate emula os sentimentos alheios. Da mesma forma que ele imita frases e atos de Travis Bickle, ele é capaz de copiar manifestações de amor vistas em filmes.

O próprio Travis, personagem de Robert De Niro em quem Tate demonstra se inspirar, apaixona-se por uma mulher chamada Betsy que ele trata como superior a toda a escória que é a humanidade. Ela é sua luz, assim como Violet é a luz de Tate.

Mas mais do que amor, o sentimento que o garoto sente pela garota é obsessão. A questão é que o personagem de Evan Peters tem um talento para manipular. O roteiro não se limita a deixá-lo conduzir Violet com falsidade à ideia de que existe uma identificação entre os dois. O público é manipulado junto com ela a enxergar seu romantismo.

VILANIA

“Violet: Eu achava que você era como eu, que você se sentia atraído pela escuridão. Mas, Tate, você é a escuridão.” 

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Tate é o grande monstro da primeira temporada, embora o rosto bonito e angelical de Evan Peters distraia o espectador. O rosto por trás da máscara de borracha (mistério principal da história) é o dele. Ele é o mais ameaçador de todos os fantasmas, capaz de matar e estuprar. No passado, cometeu um crime semelhante a uma matança que marcou a população americana. No presente, o personagem atormenta o protagonista, Ben, e é a causa da morte da heroína, Vivien. A mãe da família Harmon sofre um estupro, engravida, é desacreditada, tratada como louca e falece por complicações no parto. Tate é responsável direto ou indireto por todos os tormentos.

A aparência de par romântico é a epiderme. A impressão de herói byroniano é a derme. Já a hipoderme de Tate é seu papel como vilão da temporada. Na história dos Harmon, essa é a função que ele desempenha.

Se todos os outros indícios não bastam, a essência maligna dele é tão grande que seu filho expressa maldade e habilidades homicidas desde a primeira infância. Michael é previsto como o anticristo. O arco da gestação do filho de Tate e Vivien é inspirado em “Bebê de Rosemary”. No filme, quem engravida a heroína é o próprio demônio. Em, “Murder House” Tate é uma entidade sobrenatural menor que o Diabo, mas o caráter cruel do filho concebido por ele é outra evidência de que ele representa o grande mal da trama.

  • Kethy Antunes

    Caramba gente que análise maravilhosa!!
    Evan Peters foi brilhante nessa interpretação, por várias vezes eu cheguei a ter pena do personagem e até acreditei que ele não lembrava mesmo do que tinha acontecido (claro que o rosto bonito e angelical do ator ajudou bastante), mas a interpretação como um todo foi genial!

    • Mayko Alves Dos Santos

      qual temporada mesmo? não lembro disso na segunda temporada..