Amor Corrompido: A romantização de relacionamentos abusivos

Não existe história sem conflitos, antiheróis atraem por sua complexidade e alguns de melhores arcos de personagens envolvem queda com redenção. Essas são algumas verdades sobre a ficção, aplicando-se a tramas que envolvem relacionamentos amorosos. Como espectadores, gostamos do drama, do sofrimento. O problema nisso tudo é que parte do público desenvolveu uma tendência a romantizar relações abusivas e relativizar o comportamento do agressor – o aspecto mais assustador disso é que esse comportamento gera reflexos na realidade.

Não há como negar, o assunto ganhou relevância nas discussões esta semana com uma situação que todos acompanhamos em graus diferentes na televisão nacional. A questão não é se você é viciado em Big Brother Brasil desde a primeira edição, se você acha que a exposição do ser humano em reality shows é um tema de horror (como vimos na sexta temporada de American Horror Story) ou se você considera que seu gosto midiático é muito apurado para produtos da cultura de massa.

A realidade é que assistimos – ou fomos bombardeados por imagens e notícias em redes sociais – a cenas de um relacionamento abusivo no BBB 17. Como é comum nesse tipo de programa televisivo, os participantes Marcos Harter e Emilly Araújo formaram um casal. Essa relação culminou em agressão físico psicológica e, após repercussão entre o público, na expulsão do agressor. Um fato grave em tudo isso é que uma parcela dos espectadores ainda romantizam o relacionamento dos dois e/ou defendem o comportamento de Marcos, mesmo após as conclusões policiais.

E apesar de a vítima não carregar nenhuma parcela de culpa ao sofrer abuso, boa parte é condicionada a sofrer de auto-culpa. Auto-culpa inclui assumir responsabilidades pela ocorrência de um evento traumático, e isto é óbvio de se perceber por alguém alheio à situação, que a pessoa se culpando é na verdade a vítima. Psicólogos já caracterizaram este ato como uma forma de aumentar a percepção de evitabilidade de eventos futuros, indicando que vítimas de abuso podem tentar desafiar os sentimentos de desamparo e impotência assumindo a responsabilidade: esta percepção turva, onde a pessoa está no controle da situação, é algo que ajuda a lidar psicologicamente com o abuso. Claramente esta não é a situação desejada, mas explica o motivo de algumas vítimas não perceberem o que está acontecendo, e quando percebem, se culpam.

ABUSOS EM AMERICAN HORROR STORY

Você deve estar se perguntando qual a ligação disso com American Horror Story.  Qual a ligação? A nossa fandom está condicionada a romantizar relacionamentos abusivos de uma forma preocupante e talvez seja a hora de questionarmos o nosso comportamento. Talvez seja até tarde para isso.

Vamos rebobinar alguns anos o nosso contato com produtos televisivos. Para começar, desde que o seriado estreou em outubro de 2011, Tate Langdon (Evan Peters) e Violet Harmon (Taissa Farmiga) formam um dos casais favoritos dos fãs da série – talvez o predileto. Basta ler comentários em publicações no Facebook, tweets, fotos e gifs compartilhadas em Tumblr. A visão que o público tem dos dois adolescentes é de um casal trágico, quase shakespeareano. Eles são jovens, complexos, autodestrutivos, fazem companhia um para o outro em meio a isolamento social até que se tornam mutuamente dependentes. Fora isso, os dois se encaixam no padrão de beleza da sociedade ocidental contemporânea, trocam frases doces e demonstram paixão. Que adolescente introspectivo nunca idealizou uma relação amorosa no estilo “nós contra todo o mundo”?

REALIDADE

Mas é realmente assim? Tate mente para Violet a quase toda interação dos dois, ele estupra e ajuda a internarem a mãe dela, ele mata outras pessoas, comete crimes de ódio contra homossexuais, tem uma noção tão distorcida do amor que está pronto para assassinar um jovem para que Violet tenha companhia. Um dos efeitos desse relacionamento é que Violet se suicida por ter dificuldades de digerir algumas verdades que descobre sobre o namorado. Todos assistimos isso, mas a romantização do personagem de Evan Peters e do casal continua.

E se substituirmos os momentos fofos por este, com uma mensagem sublime?

Os dois personagens compartilham de um grande número de cenas juntos, e cada cena, especialmente as do começo da trama, são tão sombrias e poderosas que a atração fatal entre os dois é difícil de ignorar. Reações emocionalmente caóticas para conflitos na televisão ou em filmes podem levar espectadores a reagir de maneiras similares a conflitos pessoais. Um exemplo disso é de quando o pai de Violet, Ben Harmon (Dylan McDermott) começa a procurar por internatos para que ela foque mais nos estudos, o que a manteria longe de Tate. Nesta situação, o rapaz ataca o pai de Violet e tenta persuadi-la a cometer suicídio, para o que os dois permaneçam juntos para sempre. Enquanto pode-se dizer que Tate sabia que ela já havia falecido e queria fazê-la pensar que havia tomado esta decisão sozinha, ele mais uma vez procura uma maneira de mantê-la sempre ligada à ele.

Há um perigo em compreender de forma errônea a mensagem que a equipe criativa da série quis mostrar, adolescentes ou adultos com uma mentalidade mais vulnerável podem internalizar estes tipos de interações e afetar diretamente o modo como veem relacionamentos românticos.

COMPREENSÃO

Estas mesmas pessoas não compreendem que Violet nunca possuiu nenhuma liberdade de Tate enquanto estavam juntos. Sua habilidade de manipulação é mascarada pelo excessivo cuidado e o “amor” que tem por ela, que na verdade é um dos instrumentos que ele usa para a pressionar a ser mais consensual. Toda esta situação mascarada é o sonho adolescente onde todo o resto ao redor e sinais negativos não importam se o “amor” está ali. Tate Langdon não foi escrito para ser o vizinho grunge romântico, e sim uma pessoa assustadora, um monstro, assim como o relacionamento dele com Violet não deve ser uma meta (goals) para ninguém.

Um outro sinal de que a intenção dos roteiristas era mostrar relacionamentos abusivos na temporada é a escolha de tema musical utilizado nos teasers de Murder House: a canção “Tainted Love” numa versão gravada por Hannah Peel. A música é um ícone sonoro para romances tóxicos e começa com versos que dizem “Às vezes eu sinto que preciso fugir. Eu tenho que escapar da dor que você transporta para meu coração. O nosso amor parece não ir a lugar nenhum e eu perdi minha luz, por isso me debato e me reviro, não consigo dormir à noite.” Outro indício de que Tate era o vilão da temporada e uma influência negativa para Violet é o final punitivo dele, onde ela finalmente percebe todo o dano que ele causou à ela e sua família e o deixa sozinho e isolado.

Embora seja o exemplo com a maior fanbase, Tate e Violet não formam o único casal problemático considerado inspirador por frações dos espectadores de American Horror Story. Uma busca por grupos de discussão e sites de compartilhamento revela pessoas que fantasiam sobre Dr. Thredson (Zachary Quinto) e Lana Winters (Sarah Paulson) embora o relacionamento dos dois personagens em Asylum seja de captor e prisioneira, estuprador e vítima.

Em Freak Show, temos Dandy Mott (Finn Wittrock) e Bette Tatler (Sarah Paulson), que parte do fandom até recusa acreditar que existe um “ship”. A relação de Dandy com a gêmea não passa de pura conquista e desejo de dominar, sendo que o mesmo pagou um valor alto para Elsa Mars (Jessica Lange) para que as artistas siamesas fossem morar com ele em sua mansão.

Na temporada mais recente, Roanoke, as cenas da reconstrução da história de Edward Philippe Mott (Evan Peters novamente) mostra interações passionais entre ele e Guinness (Henderson Wade), seu amante e escravo. Mais uma vez os atores que interpretam o casal são atraentes e a maior parte de suas cenas são visualmente bonitas, porém o relacionamento dos dois é baseado no abuso. Uma vez contrariado, Edward humilha Guinness, mostra que sua visão o rebaixa a uma mera posse, um objeto sexual, apesar de qualquer possibilidade de amor envolvido. Não, isso não é um relacionamento para se desejar imitar.

FORA DE AMERICAN HORROR STORY

A romantização de casais tóxicos não se limita a Big Brother Brasil e American Horror Story. O mesmo acontece com Coringa e Arlequina, personagens do universo de quadrinhos da DC Comics, apesar de a história dos dois se basear em manipulação, tortura e agressão – e uma carreira de crime, é claro. Temos ainda quem diga desejar replicar o relacionamento de Lolita e Humbert, protagonistas do livro “Lolita” de Vladimir Nabokov, ainda que ela seja uma pré-adolescente e ele seja um homem de meia-idade pedófilo que se casa com a mãe dela querendo dopar as duas para ter relações sexuais com a garota (e que realiza o desejo quando se torna viúvo). A lista de romances abusivos se estende por várias outras obras: Jessica Jones, Crepúsculo, 50 Tons de Cinza…

O espectador pode argumentar: “American Horror Story é ficção, um produto do entretenimento, ainda mais, é um seriado de terror. Não posso gostar de personagens negativos?” Pode, é claro. Mas é preciso admitir que há um perigo em romantizar mesmo casos irreais de relacionamentos abusivos. A prática de arranjar desculpas para o agressor fictício ajuda na mentalização de justificativas e apologias para abusadores da realidade. Isso é perigoso, porque dificulta mais ainda a pessoa de reconhecer sinais de abuso quando ela os pratica, os presencia ou os sofre. Romances abusivos do entretenimento precisam parar de se tornar um ideal.

Por Rafaela Tavares, Gabriel Fernandes e Aline Ruth Schmidt