Review: Atos e consequências em ‘She gets revenge’, décimo episódio de ‘Hotel’

Nem sempre nossos infernos pessoais são originados da combinação de ocorrências aleatórias – e, leitor astrólogo amador, perdoe-me, mas confesso professar um certo ceticismo quanto à influência das constelações e posições planetárias nas tragédias de cada um. Atos têm consequências, sejam operados por terceiros ou pela própria pessoa. Às vezes você se envolve com o amante de sua patroa violenta e a garganta dele é cortada na sua frente. Há quem selecione porcamente o parceiro em planos de vingança e termine emparedada em corredores a prova de som, presa atrás de uma porta de aço. Em outros casos, a má escolha é em relação à noiva: o homem se casa com uma vampira obcecada e se torna refeição.

Sabe esses tapas corriqueiros que a vida dá na nossa cara, vestindo luvas metálicas enfeitadas com unhas pontiagudas? Num dia, você espezinha a concierge de seu hotel e rasga o belo pescoço do primeiro amor de alguém, no outro, as duas pessoas arrebentam a porta de sua suíte cheia de bons LPs e decoração neon só para descarregar a munição de quatro pistolas em você e seu ex, não ao som do costumeiro Bauhaus ou New Order, mas com a voz do rapper Drake ao fundo.

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Não se pode dizer que no cosmos de “American Horror Story” há muito de gratuito. Os personagens acumulam uma espécie de karma ruim por suas ações e, geralmente, o efeito cobrado pelas entidades roteiristas fica para a vida na temporada atual, não em uma reencarnação futura. A remuneração do destino surge na forma de balas, os tiros que você dá na cabeça de seus rivais praticamente voltam para você. E foi com exatamente uma cena sobre essas reviravoltas irônicas que terminou “She gets revenge” (Ela consegue vingança/Ela recebe vingança).

CHOQUE
Há quem tenha chamado Ryan Murphy e Brad Falchuk de previsíveis demais com a revelação de que John Lowe era o Assassino dos Dez Mandamentos, e aquela trama provavelmente nunca foi construída para surpreender. Mas duvido que qualquer um tenha previsto que no antipenúltimo episódio da temporada veríamos a personagem essencial de ‘Hotel’ Condessa (Lady Gaga) ser fuzilada por Iris (Kathy Bates) e Liz Taylor (Denis O’Hare) numa cena que poderia ter sido retirada de “Pulp Fiction”, com a trilha sonora mais improvável. Admita, quando querem, eles sabem surpreender e ser ousados.


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Seria difícil prever até porque no episódio anterior, Elizabeth parecia mais próxima de seu auge. Ela havia reencontrado Valentino (Finn Wittrock) e instantaneamente os dois retomaram seu romance. Ela havia se livrado de uma inimiga e executado um promissor golpe do baú. Mas quando o espectador respira e pensa um pouco depois daquele cliffhanger, a proprietária do Hotel Cortez plantou as sementes que evoluíram no ataque surpresa.

Condessa arrancou de Iris e Liz os grandes amores de suas vidas e as subestimava como serventes insignificantes. Sua existência era uma constante ameaça para as duas. Quantas vezes nos últimos episódios Liz e Iris não indicaram temer serem mortas por Elizabeth? Quando elas chegam ao limite e perdem esse medo, uma missão suicida de eliminar sua patroa se torna totalmente válida. E, no caso de Iris, mesmo que isso envolva atirar em seu filho Donovan (Matt Bomer) não houve tanta hesitação, depois da sucessão de rejeições que ela viveu.

Tenho cá minhas dúvidas sobre quem é “She” do título do episódio e de qual o real sentido de “gets”. Seria Liz ou Iris que finalmente conseguem se vingar? Ou será que “gets” tem o significado de receber e se refere ao fato de que a Condessa foi alvo de uma retribuição violenta despertada por seus atos anteriores.

HUMOR E DRAMA
Mas “She gets revenge” não se limitou a sua cena final, ainda que ela seja impactante. Suas sequências foram um carrossel de emoções distintas. Para começar, foi o episódio onde o humor atingiu o ápice em uma temporada onde fora algumas falas e umas situações de sadismo cômico, houve uma aridez de situações engraçadas. Claro, é de “American Horror Story” que estamos falando. A comicidade aqui ganha nuances de humor negro e nonsense. Há um prazer causador de remorso em rir com a expressão de Ramona (Angela Bassett) ao chamar as crianças de tira-gostos, nas falas maldosas de Donovan para Valentino, e na própria cena final. Por outro lado, algumas situações causam risos mistos de perplexidade como ver a alegria de uma fantasma como Evers (Mare Winningham) ao ganhar uma lavadora, assistir Donovan se acabando de dançar enquanto espera a morte, ou presenciar o vídeo tributo de Iris saturado de natureza, corações e animaizinhos.

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O uso maior do humor provoca uma leve mudança no tom da temporada. Contudo, a carga dramática e o suspense se mantiveram. A cena inicial, com o casal de idoso se matando numa espécie de eutanásia romântica, já comove, ainda acrescente um quê de grotesco com as marcas de sangue e massa cinzenta deixadas por suas balas. Mas os pontos mais tocantes são as interações entre Liz Taylor e seu filho abandonado. Seus diálogos, atuações e até os enquadramentos das cenas são sensíveis. De uma situação agridoce, as conversas evoluem para uma conexão recuperada, para um perdão e finalmente para dar à personagem de Denis um motivo para viver.

Como em momentos anteriores da temporada onde as Liz, Iris e Evers ganharam foco, o décimo episódio realça como as três são agradáveis de se assistir. São as três personagens mais simpáticas. Mesmo com sua amoralidade diante dos crimes (e capacidade de cometê-los, no caso de Iris), ainda é possível torcer, sentir empatia pelo trio. E as atuações de Kathy, Denis e Mare contribuem para riqueza das personagens. A força das atuações ficam mais evidentes no caso da última atriz. Liz e Iris são personagens complexas e dramáticas. Evers poderia ser simplesmente caricata, porém graças a sua intérprete competente, ela se torna humana. É uma pena que (até o momento. Pelo menos) Denis e Mare não tenham sido devidamente reconhecidos com indicações em premiações.

TENSÃO
Enquanto as três personagens fazem rir e emocionam, outras personagens criam clima de apreensão. O paralelismo das execuções de Natacha (Alexandra Daddario) e Valentino, a descoberta do corpo do amante por Elizabeth, o desenrolar da história das crianças vampiras e toda a subtrama de Alex (Chloë Sevigny), John (Wes Bentley) e Sally (Sarah Paulson) contribuem para provocar a tensão. O casal Lowe parece ter alcançado uma felicidade.

Contudo sua tranquilidade remete à situação da Condessa um episódio antes de perder seu amante, sua herança e ficar vulnerável o suficiente para ser atacada. A reconciliação dos dois é poluída pela forte omissão de John de sua verdadeira natureza como serial killer. Alex parece atraída por sua mudança de atitude, mas ela estaria pronta para abraçar o lado assassino do marido? Além disso, March, Sally e com isso o Hotel Cortez têm planos para John. Sobretudo, a personagem de Sarah Paulson com seu desespero e sua promessa de morte é um mau prenúncio para o casal. Os atos de John dificilmente ficarão isentos de consequências.

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Na etapa final de “Hotel”, um personagem até agora insípido se torna finalmente interessante nas cenas em que aparece. Sim, falo de Donovan. Anteriormente, houve pouco proveito do talento de Matt Bomer. Seu personagem se limitava a lamentar a falta da Condessa, ser desagradável com alguém, imaturo e passivo. Em “She gets revenge”, ele continua desagradável e imaturo, mas tomou as rédeas de seus atos. Foi ativo ao se vingar da Condessa matando seu amante e não se afugentou diante da possibilidade da morte. Sua resiliência e romantismo foram capazes até de esfriar a indiferença da Condessa. Para uma esteta egocêntrica como ela, a determinação de Donovan em morrer para poder amá-la em paz é uma beleza a ser apreciada, uma beleza criada por si mesma. A sintonia entre os dois e suas trocas de olhares intensas se iguala só à transmissão de parceria exibida pela dupla em sua primeira cena. E é justamente nesse momento em que os dois foram alvejados.

Temos algumas semanas até saber se aquelas balas atingiram os dois mortalmente, se algum deles deixou assuntos pendentes ou se vampiros podem se tornar fantasmas. Foi um bom gancho até a continuação da fase final da temporada.

  • Pablo Benk

    Esse episódio foi ótimo, pra mim o melhor da temporada, mas não entendo como teve a mais baixa audiência de todas temporadas, enfim, o povo não sabe oque ta perdendo!

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