E se American Horror Story ganhasse uma versão brasileira?

1974, São Paulo – Chamas se alastram pelo pisos acarpetados, lambem as paredes e envolvem as superfícies dos móveis de madeira. O fogo torna-se audível ao consumir matéria inanimada e orgânica, porém seu farfalhar é abafado pelos sons de gritos e sirenes. O elevador fica paralisado entre dois andares com treze pessoas que batem em suas portas, tentando forçar uma abertura. Outros moradores correm rumo às escadas, tropeçam. Os mais desesperados jogam-se do parapeito, enquanto curiosos e parentes transtornados observam da rua. Bombeiros conseguem salvar algumas pessoas, mas muitos são queimados. A única pessoa calma é uma adolescente. Ela caminha por um corredor enquanto cantarola “Clair de Lune”, solitária. Seu braço está ferido, mas ela ignora.

A espinha dorsal de todas as temporadas de “American Horror Story” sempre estará fincada  no mapa dos Estados Unidos. Vez ou outra podemos ter um vislumbre do passado de algum personagem na Europa (como aconteceu com Arden e Elsa), porém essa ambientação estrangeira se resumirá a cenas breves. O Brasil não será o cenário das tramas do seriados, estamos mais que conscientes disso, mas isso não muda o fato de que alguns lugares, acontecimentos e lendas locais se encaixariam com o padrão das situações que inspiram a série. Se você acredita que o nosso país é uma ambientação inválida para o terror, podemos tentar mudar essa opinião.

O Residencial Paianeiras é um local célebre na memória do paulistano não por seu estilo arquitetônico. Quando ainda era chamado Edifício Catarina foi palco de um incêndio que matou quase 200 moradores. Atualmente restaurado, o prédio tem sua tranquilidade interrompida por curiosos atraídos pelo rumor de que o local é mal assombrado. Seus habitantes vivem rotinas comuns até o condomínio vertical voltar a receber atenção da mídia.

Uma criança é encontrada morta em sua frente. O que parecia ser uma fatalidade, lança suspeita sobre os seus pais, moradores do prédio. A presença de jornalistas e policiais começa a incomodar outros habitantes. Mas nada se compara aos transtornos provocados pelas manifestações espirituais estranhas que parecem influenciar o comportamento de quem vive em seus apartamentos, e às aparições que começam a atormentá-los. O que muitos ignoram é que as duas tragédias não foram isoladas, tampouco as primeiras a acontecerem no lugar. O mesmo território que abriga a construção, já ocultou corpos acimentados, um crime familiar na década de 1940 e até mesmo concentrou um pelourinho, onde escravos eram torturados. Além dos horrores reais e sobrenaturais, uma das temáticas centrais da trama é a questão de identidade.

INSPIRAÇÃO

Em “American Horror Story” solos manchados por crueis derramamentos de sangue se tornam amaldiçoados, tornando-se ponto magnético dos fantasmas de pessoas que ali morrem. É o que aconteceu com a casa construída pelos Montgomery e com o Hotel Cortez. Se o Edifício Joelma – inspiração para o prédio da nossa pseudo-temporada – estivesse no universo do seriado, certamente seria um desses lugares. A lenda é que o local onde foi construído o prédio paulistano inaugurado em 1971 foi um pelourinho, ou seja, um ponto onde escravos sofriam castigos brutais, no século 19. Alguns não resistiam e morriam.

Em 1948, o lugar concentrou outra história cruel, conhecida como “O Crime do Poço”. Lá estava localizada a casa onde o professor de química orgânica Paulo Ferreira de Camargo matou sua mãe e duas irmãs. Ele escondeu os corpos em um poço do quintal. Quando a polícia tentou investigar o desaparecimento das mulheres, ele se matou com um tiro. Em 1969, a Joelma S/A, Importadora, Comercial e Construtora começou a construir um prédio no terreno onde ficava a casa. O então batizado Edifício Joelma sofreu um incêndio em fevereiro de 1974, no qual 191 pessoas morreram. Restaurado e renomeado Praça da Bandeira, o prédio ganhou fama de mal assombrado, com relatos de aparições e gritos.

PERSONAGENS PRINCIPAIS

Já que é para brincarmos com a ideia, vamos brincar por completo. Tentamos imaginar personagem e o elenco perfeito para esta primeira temporada de “Conto de Horror Brasileiro”.

6

Maria Teresa Vaz Leme (Renata Sorrah): É uma das mais antigas moradoras do edifício. Sobreviveu ao incêndio quando tinha 16 anos, mas quis continuar no prédio mesmo depois de perder familiares e vizinhos. Maria Teresa diz acreditar que a tragédia criou vínculos entrelaçados na própria história e que renasceu naquele lugar. Atualmente é uma viúva excêntrica, misteriosa que parece conhecer muito sobre a essência do local onde mora. Apesar disso, revela fatos parcialmente, gosta de enigmas e tem uma tendência a mentir. É sofisticada e ama promover festas, as quais são frequentadas por convidados… incomuns. Parece ter uma personalidade oscilante, o que faz os vizinhos e sua diarista acreditarem que ela é bipolar. Um de seus prazeres é seduzir homens mais jovens. Tem uma inimizade com a vizinha do apartamento abaixo de seu, por considerá-la falsa moralista e irritá-la com os ruídos de suas festas. Revelação: Na verdade, desde a década de 1970 seu corpo é possuído pelo próprio irmão, antigo morador de residência que ficava no terreno durante década de 1940. Spoiler 2: Ela, depois de possessa, quem causou o incêndio.

3

Arthur Vaz Leme (Marco Pigossi): Filho de Maria Teresa Vaz, arquiteto. Tem uma personalidade madura para seus 26 anos, como se seu corpo ocultasse uma experiência de outras épocas. Vive em conflitos com sua mãe, mas possui uma contraditória cumplicidade com ela. Às vezes a chantageia para conseguir o que deseja e é chantageado por ela. Revelação: A relação complexas dos dois é tumultuada pelo fato de Arthur desde a adolescência agir não como si mesmo, mas ter o corpo dominado por um dos espíritos dos mortos no incêndio, que culpa Maria Teresa por sua morte. Também parece ter um entendimento incomum sobre as manifestações sobrenaturais do edifício. É bastante comunicativo e mais revelador do que sua mãe, para o desespero da mulher. Adora contar histórias e é um aspirante a escritor. Às vezes é melancólico. É homossexual assumido e tem pouca paciência para o conservadorismo falso dos outros moradores. Diz ser apaixonado pelo filho dos vizinhos do andar debaixo, mas é hostilizado por ele na frente dos outros.
10
Érica Fantin (Letícia Sabatella):
A primeiro olhar, Érica é uma mulher recém casada cheia de expectativas sobre a vida em um novo apartamento. Diz ser professora e tem um sotaque que revela ter crescido interior do estado. Muda-se para o edifício no dia do crime do quarto andar. A presença da mídia e da polícia a deixa transtornada e começa a causar atrito entre ela e seu esposo. A tragédia a faz recordar acontecimentos macabros de seu próprio passado. Em sua primeira semana no prédio já começa a observar aparições estranhas, sons de chibatadas, a sentir cheiro de carne queimada. Apesar de insistir para se mudar, não consegue convencer seu marido. Tem uma relação de dependência doentia com ele.

1

Cássio Fantin (Selton Mello): Esposo de Érica. Quem o conhece acredita estar em contato com um homem encantador, com um belo sorriso e um humor envolvente. Porém, no contato íntimo, quando contrariado ele pode ser brutal. Embora diga ser um advogado interessado em a trabalhar em um escritório na capital, ele esconde um passado criminoso. Mesmo sendo inteligente, depois de conversas longas demonstra contradições, por isso evita contato com outras pessoas além do superficial. Tenta orientar sua esposa a fazer o mesmo – Spoiler: já que os dois são golpistas que assumiram identidade de outras pessoas que assassinaram e precisam esconder seus crimes. Em pouco tempo, sua personalidade violenta é intensificada pela energia maligna do prédio e ele passa a encarnar diferentes pessoas, assustando sua mulher.

8

Mariana Soares (Cris Vianna): Baiana que se mudou para a capital paulista na busca de uma oportunidade de vida melhor. Apesar de detestar seu trabalho como diarista (que não era o que tinha em mente quando deixou o interior do estado natal), não gosta de admitir para sua mãe com quem tem uma relação turbulenta mesmo à distância. Trabalha em apartamentos diferentes do prédio a cada dia da semana, o que incluía o 404, de onde uma garota chamada Maria Valentina foi atirada. Era apegada à menina e tentava defendê-la quando começou a ver que ela sofria agressões, por identificar essa situação com sua própria infância. Acredita que a menina merece justiça e tentará o possível para colaborar para a descoberta dos culpados. Devota a Iansã, consegue perceber a presença maligna no edifício e o passado trágico do prédio. É corajosa, curiosa, tem personalidade explosiva e ousada e resolve desvendar o passado do edifício.

2

Renan Marcus (Thiago Fragoso): Repórter encarregado de cobrir o caso do assassinato da menina, por ser acostumado a cobrir casos policiais. É ambicioso. Trabalha em um jornal pequeno, mas tenta chamar atenção de veículos de comunicação proeminentes com seus furos. Vai até o prédio para entrevistar moradores sobre a família envolvida na morte, por desejar apresentar em seus textos informações além das entregues pela polícia. Mesmo enfrentando uma má recepção, é persistente. É ateu e cético, mas sua descrença começa a ser desafiada no momento em que o jornalista tem contato com manifestações espirituais no edifício. Cria uma estranha ligação com o lugar. Torna-se obcecado pelo caso, negligencia outros assuntos que deveria cobrir e coloca seu trabalho em risco. É constantemente assediado por Maria Teresa e sente-se envolvido por Érica, o que resulta em brigas com Cássio.

9

“Seu” Moreira (Mauro Mendonça): Tenta se mostrar um homem respeitável. Por ter sido um dos empresários da companhia responsável pela construção do prédio e conhecê-lo bem, há três eleições consecutivas é escolhido síndico do condomínio. Perdeu muito dinheiro no passado, mas tenta esconder a decadência. Tem um segredo sobre o período de construção. Revelação: Ele ocultou um corpo no local, utilizando cimento. Enfrenta uma gestão difícil como síndico, com moradores sentindo-se perturbado pela presença da mídia e insistentes sobre aparições de fantasmas. Sua vida familiar também passa por turbulências.

4

Renata Moreira Assunção (Patricia Pillar): Esposa de Seu Moreira. Mulher madura que rejeita o passado como atriz nos anos 1989 e 1990. Sente vergonha da época em que era considerada um símbolo sexual e de suas fotos em revistas adultas (por isso Maria Teresa aproveita para jogar esse histórico na sua cara). Converteu-se ao cristianismo. É uma católica carismática obcecada pela religião. Considera-se purificada pela conversão. É conservadora e detesta a extravagância da vizinha do apartamento superior assim como abomina a homossexualidade de Arthur. Era amiga do casal acusado de matar a filha, mas atualmente os critica para criar uma impressão de afastamento. Ao ser confrontada com espíritos, quer exorcizar a própria filha e o prédio.

5

Amanda Moreira Assunção (Nathalia Dill): Filha de Moreira e Renata. Estudante de Psicologia. Inicialmente é delicada e se mostra incomodada com a personalidade às vezes desagradável de seus pais, embora não ouse enfrentá-los. Gosta muito de crianças e fica abatida com a morte da vizinha do apartamento acima. Sua atitude dócil começa a vacilar, dando lugar a agressividade e hipersexualidade, fazendo seus pais desconfiarem de que ela esteja se envolvendo com drogas ou desenvolvendo um transtorno mental. Na verdade, ela começa a ser possuída por espíritos das vítimas do incêndio, o que provoca também uma deterioração física. Sua vida é ameaçada.

7

Vinícius Assunção (Chay Suede): Filho mais velho de Renata. Religioso por influência da mãe. Não consegue aceitar a própria atração pelo vizinho do andar superior, alterna hostilidade e demonstrações de desejo no seu tratamento a ele. Acredita que tudo que acontece com sua família e com os outros moradores é punição divina. Deseja entrar para um seminário para se salvar.

Participações especiais:
Família Ribeiro de Souza – Pais: Henrique e Natália (Cauã Reymond e Mariana Ximenes), Filha: Maria Valentina – Sua tragédia atrai a atenção da mídia para o edifício. Aparentavam ser uma família comum, discreta. O bom comportamento em público do casal de pediatras escondia característica como uma mentalidade racista que não conseguiam transmitir em sua filha. Com a permanência no prédio, eles praticam maus tratos contra a criança de forma crescente. Investigações sobre a morte da menina lançam suspeitas sobre os pais, que sustentam ter perdido a memória da noite em que tudo ocorreu como se tivessem sido possuídos.

ROTEIRO E DIREÇÃO

“American Horror Story” é uma criação de Ryan Murphy e Brad Falchuk. Uma versão brasileira do seriado estaria bem se caísse nas mãos de João Emanuel Carneiro (“A Favorita”, “Avenida Brasil” e “A Regra do Jogo”) e Marcos Bernstein (“Zuzu Angel”, “Somos Tão Jovens”). Não só os dois são conhecidos por trabalhos competentes, como funcionam bem como dupla já que trabalharam como roteiristas de “Central do Brasil” e criaram o seriado “A Cura”. Essa série transmitida pela Rede Globo tinha tramas misteriosas, às vezes perturbadoras, que misturavam passado e presente como ocorre com “American Horror Story”.

Também ajuda o fato que com sua experiência com teledramaturgia, Carneiro ser conhecido por criar ótimos ganchos entre um capítulo e outro, além de não ter medo de criar reviravoltas. Quem se lembra de quando a aparentemente adorável Flora se revelou a grande vilã de “A Favorita”? A direção ficaria com Luiz Fernando Carvalho, acostumado a produzir fotografias diferenciadas e apostar em estéticas pouco convencionais. Ele está por trás de projetos como “Hoje é Dia de Maria”, “Capitu”, “Meu Pedacinho de Chão” e “Os Maias” (que teve entre seus roteiristas ninguém menos que Carneiro).

CONCLUSÃO

Como avisado no início do texto, esse artigo é uma brincadeira com a possibilidade de se produzir um projeto nos moldes de “American Horror Story”. A intenção principal é minar um pouquinho o nosso complexo de vira-lata (que leva alguns de nós brasileiros a rejeitarmos produções, atores, roteiristas e diretores brasileiros, ou nossa cultura como um todo). Apesar de o gênero ser pouco explorado no país, seria sim possível escrever terror ambientado em território nacional. Temos repertório para isso (infelizmente, na forma de tragédias reais, felizmente, na forma de criatividade e folclore). Para provar isso, na nossa pseudo-série nos inspiramos em fatos reais, como Murphy e Falchuk fazem com “American Horror Story”, mas em hipótese alguma desejamos desrespeitar as vítimas dos acontecimentos verdadeiros. Trata-se só de um exercício de imaginação. E vocês, leitores, qual tema utilizariam se fossem escrever um “Conto de Horror Brasileiro”? Quem escalaria em seu elenco?

POST ELABORADO EM CONJUNTO POR RAFAELA TAVARES E GABRIEL FERNANDES. O texto acima foi produzido pela equipe do site American Horror Story Brasil. Reproduções em outras páginas são bem-vindas desde que acompanhadas por crédito.

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