Leia a nossa review do 2° episódio de American Horror Story: Hotel, “Chutes and Ladders”

“Você acha que existe esperanças agora? Você acha que Deus irá lhe proteger da cabeça deste martelo?”

Quando Jack Torrance se aventura pelo quarto 237 do Hotel Overlook, o antagonista de o “O Iluminado” testemunha uma mulher sedutora se transformar em uma idosa em decomposição digna de alguém que permaneceu por muito tempo mergulhada em uma banheira após se suicidar. A imagem de uma fantasma depravada, nua e apodrecida para Stanley Kubrick era suficientemente chocante em 1980, quando ele lançou a adaptação cinematográfica do romance de Stephen King. Mas para Ryan Murphy e Brad Falchuck em 2015 talvez fosse algo… pouco agressivo. Tanto que quando John Lowe (Wes Bentley) puxa a cortina da banheira do igualmente amaldiçoado quarto 64 o que seu movimento revela não é uma assombração e sim um casal de espíritos putrefatos pelados e em plena cópula.

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A referência degenerada ao longa metragem clássico do terror psicológico traduz o clima da quinta-temporada de “American Horror Story”, da trajetória do detetive em meio a testes à sua sanidade pelo Hotel Cortez. Personagem e espectador são transportados a um purgatório povoado por seres em cenas de devassidão e morte. Com “Chutes and Ladders”, (Rampas e escadas) o seriado continua a reproduzir elementos do já citado filme de 1980 sobre um hotel mal-assombrado e ao culto “Fome de Viver”, centrado em vampiros. Quem assiste ainda é obrigado a conviver com um bando de condenados cheios de dependências, participantes passivos e ativos de gestos de violência. Enquanto isso prosseguem as carícias aos nossos ouvidos com uma trilha sonora composta por ótimas canções dos anos 1970 e 1980.

Até agora a narrativa de “Hotel” é consistente. Há um sentido de continuação visível a partir de onde deixamos os personagens no final da premiere. Sally mantém sua bipolaridade entre o sadismo e a melancolia, enquanto Sarah Paulson apresenta novamente uma atuação primordial. John dá sequência a suas investigações sobre a ligação entre o hotel e novamente é atormentado pela perda de seu passado. Iris (Kathy Bates) e Liz (Denis O’Hare) também estão presas à rotina de trabalho – o tedioso trabalho de ocultar rastros dos assassinatos alheios, lidar com hóspedes desagradáveis e alimentar os hábitos, digamos que exóticos, de sua patroa.

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DESFILE

O que precisamos mesmo é falar sobre as novidades do episódio. Confesso que não sou uma apaixonada pela alta costura. Aprecio boas roupas, mas me aborreceria se tivesse de assistir um desfile de moda por muito tempo. Por isso meu espírito estava preparado para contar os minutos para as outras cenas quando Will Drake iniciou seu espetáculo fashion. Então vimos uma exibição de Finn Wittrock. Não vou nem mencionar seu magnetismo sexual – ops, já o fiz – mas todos os olhos (meus dois e o de todos os personagens) estava pregados no modelo Tristan Duffy quando ele provou a todos que não tem vocação nenhuma para essa carreira. Quando ele pisou na passarela não era um cabide elegante a peças de uma coleção, era um rockstar quebrando coisas, exibindo sinais de uso de drogas e interagindo sensualmente com a platéia. O ator mais uma vez é convincente em um personagem arrogante, infantil (ainda que de forma bem diferente do quase assexuado Dandy Mott), porém interessante.

O personagem marca uma ruptura. Lembram da cumplicidade entre a Condessa (Lady Gaga) e Donovan (Matt Bomer)? Tudo fachada. Elizabeth já estava saturada de seu amante, menos aventureiro e mais caseiro e já se sentia pronta para caçar sozinha. Havia espaço para que ela descartasse o parceiro antigo e o substituísse por um mais agressivo e erótico. Logo praticaram sexo selvagem e trocaram confidências sobre como ela tem mais de 100 anos e adorou dar uma de Bianca Jagger, passeando a cavalo pela discoteca Studio 54 nos anos 1970. Eis que “Hotel” finalmente nos apresenta um momento pouco verossímil. Não estou falando do sobrenatural, estou falando do anormal. Quem iria dispensar Matt Bomer em sã consciência, mesmo que ele preferisse uma maratona de “House of Cards” a algo mais divertido como cortar pescoços bonitos? Só perdoo a Condessa porque a interpretação de Lady Gaga (que foi competente, mas não perfeita no primeiro episódio) deu um salto no segundo episódio, e ela já soa mais natural e confiante quando pronuncia suas falas.

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Apesar disso, Tristan e Elizabeth não foram minhas passagens favoritas. Nem quando o personagem de Finn Wittrock trouxe um momento deliciosamente contemporâneo em meio a tanto anacronismo na cena em que usou como isca para sua primeira presa um aplicativo de encontrou e recebeu um hipster lumbersexual. O momento sonho dentro de sonho de John no quarto 64 garantiu uma tensão e bons elementos de terror (Olá, Demônio do Vício!) chegou perto, mas ainda sim não foi o ápice do episódio para mim. E o momento em que Sally exibiu uma gargalhada agonizante, com dentes quebrados e ensaguentados quase empatou com minhas passagens prediletas, mas não estão lá.

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ORIGEM

Não sei vocês, mas quando Iris começou a contar sobre a origem do Cortez fui dominada por uma doce nostalgia e pelas memórias de quando algum personagem iniciava um relato a respeito da origem da casa na primeira temporada. “Hotel” se demonstrou mais uma vez uma prima ainda mais pervertida e macabra de “Murder House”. E então chegamos ao que para mim foi o destaque de “Chutes and Ladders”. O Cortez tem sua própria mitologia que inclui quartos malignos, fantasmas e um horário maldito entre as 2h25 e as 3h da madrugada e descobrimos o porquê. Inspiradas em filmes antigos, as cenas ganham um filtro monocromático para sermos devidamente apresentados ao fundador do hotel James Patrick March (Evan Peters). O sangue agora era deliciosamente preto e mais abundante. Ao que parece o Cortez foi arquitetado não só pra deslumbrar hóspedes com um estilo art-déco impecável, o hotel contém passagens planejadas para que seu primeiro dono pudesse ocultar corpos, história inspirada no homicida riquíssimo e real H.H. Holmes. Sally e Donovan se chapavam com heroína, a Condessa é dependente de sangue e aprecia cocaína, Iris é obcecada por seu filho, a resistência de John a bebidas indica um ex-alcoólatra abstinente e Tristan é viciado em metanfetamina. Mr. March não amava, não bebia, não cheirava ou injetava, sua droga era matar. E isso premiou o telespectador com cenas brutais, com falas sombrias, mas divertidas e situações beirando o humor negro que se tornarão certamente icônicas para os fãs do seriado.

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Evan Peters finalmente está interpretando um personagem adulto. Depois de dois anos em que seus personagens foram ótimos soníferos, é um alívio vê-lo como o maior serial killer da história, um personagem insano e cruel. E o ator demonstrou uma maturidade de interpretação inédita entre as suas participações nos cinco anos da série. Sua voz jovem, quase adolescente, não é a mesma. Já ouviu gravações dos anos 1920, 1930 e 1940? Já assistiu filmes norte-americano do período imediatamente posterior ao cinema mudo? Pois é. Peters soa exatamente como os homens daquela época.

Seu James March tem uma alma gêmea e não é sua misteriosa esposa, que pelo cabelo, voz, e insensibilidade pela dor dos outros é a Condessa. Ele forma uma dupla perfeita com a camareira Mrs. Evers. Mare Winningham, não sei se um dia você irá interpretar uma mulher benevolente em American Horror Story. Já te odiei duas vezes, mas agora mesmo que você seja doentia, estou te adorando como Mrs. Evers. Que atuação primorosa e que personagem prazerosa de se assistir (para quem ama terror, pelo menos)! Comparado ao assistir Mare como a mãe estupradora de Peters em Coven, as interações entre o magnata assassino e sua leal cúmplice são até simpáticas. Não sei se é saudável apreciar um duo cujos atos se resumem em arrebentar, disparar balas, cortar seguido de ajudar a ocultar e lavar lençóis, mas que foi saboroso ver esses dois, foi.

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Aparentemente March tem ligação com a Condessa e segundo a teoria de John, sua arte da matança inspirou o atual serial killer dos Dez Mandamentos. Freak Show sofria de uma sensação de falta de conexão (ou conexão um tanto forçada) entre as tramas de Dandy e Twisty e a do circo de aberrações. Pelo menos por enquanto, tudo parece bem interligado em Hotel e isso é confortante.

“Chutes and Ladders” foi um segundo capítulo intenso, iniciou lento e ganhou ritmo. O apelo da fotografia permanece forte como na estreia. Mas a história tomou o primeiro plano no episódio de duas horas e começou a se desdobrar, criou mais dúvidas e deu pano para bordarmos mais teorias.

  • henriquehaddefinir

    Uau, que review maravilhosa. A altura dessa delícia que foi o segundo episódio, um dos grandes momentos da história do show.

    • Rafaela Tavares

      Muito obrigada pelo comentário, Henrique, é uma grande felicidade ler isso, especialmente vindo de um reviewer como você! E concordo sobre o episódio de ontem ser um dos grandes momentos do show.

  • jean

    Um episódio fantástico merece um review fantástica. O quinto ano começou ótimo e será um prazer acompanhar com um material tão completo. Parabéns pela análise e que a temporada continue no nível altíssimo do segundo episódio.

    • Rafaela Tavares

      Muito obrigada pelo retorno. Vamos unir nossos bons fluídos para que a temporada se mantenha sólida, amém.

  • Daniel Melo

    Caramba, ótima review.

    • Rafaela Tavares

      Muito obrigada!

  • Exclente review!!!

    • Rafaela Tavares

      Obrigada, Marcela!

  • Rafaela Tavares

    E o que eu tenho a ver com isso?

    • Rafaela Tavares

      Fake, pare (de ser antiético) e tentar fazer o conflito entre sites acontecer, isso nunca vai pegar.

      • Rafaela Tavares

        Eu adoro de escrever, amo de filmes e de seriados (AHS entre eles). Comecei a escrever reviews, por isso. Se você faltou das aulas de Inglês do colegial que pelo seu comportamento de attention whore adolescente obviamente frequenta, review equivale a resenha. Claramente você também faltou às aulas de Redação, porque resenha não é escrita com o intuito de explicar e é sim um texto opinativo. Resumindo, essa review é uma forma de eu escrever minhas impressões, algo que faço por prazer. Não escrevo com a pretensão de explicar nada, de competir com o trabalho de site algum. É um passatempo, não ganho para isso e não vejo ninguém como concorrência. Minha participação no site se resume a meu interesse pela série e meu carinho pelos outros integrantes da equipe, a quem considero ótimos amigos. Não tenho nada além de respeito por outros reviewers, então vá procurar outra pessoa para pegar no pé. Até porque a internet é enorme, as pessoas podem ler reviews diferentes de páginas diferentes, boa sorte e maturidade para todos. E pare com isso, que você está envergonhando a si mesmo. Ou pelo menos pare de ser covarde, deixe de se esconder atrás de um perfil, faça como a Aline e eu e mostre quem você é. Obviamente até você sabe que está fazendo um papel ridículo e tem vergonha de se queimar assinando o próprio nome.

  • Que nível, ein? Chegamos a este ponto?

  • Isis Reis

    Essa review tá maravilhosa!

  • Alex

    MELHORES REVIEWS ❤❤❤

    • Rafaela Tavares

      Obrigada, lindo!

  • Jacqueline Oliveira

    Eu tenho um leve problema com crianças em filmes ou seriados, porque, muita das vezes, elas carregam aquela mesma expressão de ” estou vendo espíritos andando pela casa”. Contudo, esse jovenzinho Drácula me fez regressar o pé atrás de mais um desentendimento com as kids. Não sei se foi só comigo, mas sua interpretação me pareceu sobrenaturalmente natural. O.O Aquela carinha que ele fez quando sua irmã entra no quarto de jogos me lembrou muuuito Heath Ledger em The Joker. Foi frio; um verdadeiro ser que está consciente do que se sucede a sua volta mas que está sob o efeito da crueldade… AI MEU FORNINHO *-*

    Quando percebi que o papel de nosso Evan seria o de um adulto, confesso que a primeiro momento não gostei da ideia. Durante os 5 anos, como você bem falou, ele vem fazendo seus papeis de menino – incluindo seus papeis em outros trabalhos – mas, devo admitir, ele foi sublime e agora estou ainda mais apaixonada por esse ser humano <3

    Bom, eu queria muuuuuito falar sobre como o Holden me surpreendeu hauauhau mas enfim, adorei o seu review *—-*

    • Rafaela Tavares

      Também estava apreensiva com a entrada das crianças na série, mas eles me deixaram bem satisfeita (tanto a Scarlett como o Holden). Ele é uma mistura de sinistro com adorável e ela é bem natural.

      Sim, o Evan está amadurecendo e isso é ótimo. Muita gente acusava ele de sempre fazer o angustiado e o par romântico, mas dessa vez ele provou o quanto é versátil.

      Muito obrigada pelo comentário.

  • Aloisio Kreischer

    Review maravilhosa, como sempre! Tenho orgulho de estar na mesma equipe que você Rafa!

    • Aloisio Kreischer

      São Cristóvão é um lugar tão bonito não é?

      • RobertsBitch

        Não sei lindo, nunca fui la.

  • Aloisio Kreischer

    A que ponto chega o ser humano… Você deve realmente ser bem desocupado a ponto de perder o seu tempo vindo aqui denegrir o trabalho dela. Se você acha tudo o que fazemos tão ruim então nos esqueça, mantenha distância, finja que morremos, garanto que não faras falta alguma! Espero só que um dia quando for mais maduro possa enxergar que ser humano infantil e infeliz você era.

  • David Fonseca de Oliveira

    Rafaela Tavares voce viu as fotos que vazaram das gravaçoes da Condessa em frente a Murder House?

  • Douglas Ibanez

    Gostei bastante do episódio e concordo: as cenas do Mr. March foram as melhores. Sua relação com a lavadeira é gostosa de assistir, mesmo que doentia. Ambos têm carisma e isso conta muito! Sally tem algo que é encantador… talvez seja essa bipolaridade e a atuação de Sarah. Por mais que seus personagens tenham sido todos bons, este para mim é o melhor desde Lana Banana. Gaga de fato evoluiu e a cena do término com Donovan foi legal, mas claro que ainda há o que melhorar.

    Como você disse, as histórias estão ligadas e com promessas de algo maior e mais desenvolvido. Só espero que não mude, como aconteceu em Coven que foi ótimo a princípio, mas perdeu o ritmo e as conexões no meio da temporada.

  • Bruno

    Uma ótima review, no tom certo, sem aquele excesso de humor que vi em outras por aí, parecendo que é uma série de comédia. E sem “endeusar” a Lady Gaga. Ela até que está bem, mas Kathy Bates e Sarah Paulson (especialmente nesse segundo episódio) estão bem melhores, afinal, são atrizes de renome. Parabéns!

  • Evan Psicótico

    ÓTIMA REVIEW E AS TEORIAS MELHORES IMPOSSÍVEIS,NO AGUARDE DOS PRÓXIMOS EPISÓDIOS.

  • Elias Fields

    Está simplesmente ótima eu adorei!