Review: O banquete macabro de ‘Devil’s Night’, quarto episódio de Hotel

Dia 31 de outubro. As fronteiras entre os reinos dos vivos e os mortos se dissipam. Para os espíritos é possível caminhar entre os vivos, ou assim acreditavam os celtas. Mas a regra não se limita ao folclore dessa antigo tribo europeia, ela se aplica também à mitologia de “American Horror Story”. Halloween é o dia da saidinha dos fantasmas encarcerados ao local em que desencarnaram.

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Locais normais receberiam falecidos saudosos de seus familiares ou amigos. Porém, estamos falando do Hotel Cortez, um prédio cujo coração é “mais negro que o às de espadas”, construído cheio de passagens secretas, rampas e escadas como um matadouro de hóspedes. O cenário da quinta-temporada não poderia ser o palco de um Halloween tradicional. O mais adequado é que o prédio seja o endereço do banquete mais macabro de Los Angeles, uma festa onde os convidados poderiam estar ser assunto do programa “American’s Most Wanted”, caso esse programa televisivo não estivesse extinto e nem os convidados estivessem mortos.

Sim, em 31 de outubro o Cortez não abriga só seus fantasmas e vampiros costumeiros. O hotel é sede de “Devil’s Night” (Noite do Diabo) – título do quarto episódio e nome da reunião entre assassinos em série célebres. Provavelmente, as crianças de “A fantástica fábrica de chocolate” se sentiram menos contente ao encontrar o convite dourado do que esses maníacos fantasmas ao perceberem a proximidade dessa data. E foi com a mesma ansiedade que os espectadores da série aguardaram este episódio: primeiro porque Halloween é sinônimo de um dos grandes momentos do ano para “American Horror Story”, e segundo (mas não menos importante) porque esperávamos a participação da Lily Rabe na temporada (mais sobre ela adiante).

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O resultado foi proporcional à expectativa. “Devil’s Night” parece ser composto da mesma matéria que os pesadelos. Provavelmente uma mente sob grande tensão e alucinógenos seria capaz de se imaginar, durante o sono REM, em um ambiente surreal como um elegante quarto de hotel algemada a uma cadeira enquanto homicidas infames dançam “Sweet Jane”, perfuram belas cabeças com brocas e brindam a como sua fama os tornam ótimos exemplos de sucesso. É o caso do atormentado detetive John Lowe (Wes Bentley). Como se sentiria um homem da lei a estar na companhia de alguns dos assassinos mais sanguinários de seu país? Perguntem a ele.

Em termo de narrativa, o banquete não trouxe soluções para tramas já apresentadas, mas serviu para nos deliciar com as atuações de seus participantes, para aprofundar a confusão de John, e para confirmar o Hotel Cortez e seu fundador James March (Evan Peters, novamente excelente no papel) como entidades amaldiçoadas que influenciam de forma sinistra seus hóspedes. Da mesma forma como o antigo dono do hotel tentou apresentar Tristan Duffy (Finn Wittrock) a sua vocação, ele foi padrinho desses famosos serial killers.

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Se você não é nem um investigador policial, nem costuma ligar sua TV ao canal ID (Investigação Discovery) e nem é fascinado por história de assassinos, talvez você não reconheceu de cara os convidados. Não seja por isso. O primeiro a aparecer em cena foi Richard Ramirez, apelidado pela mídia de Perseguidor Noturno. Interessado em satanismo, ele invadia casas e atacava pessoas. Matou assim pelo menos 13 vítimas. Morreu em 2013 na prisão de San Quentin, onde aguardava sua execução, o que possibilitou sua visita. Na série, ele foi vivido por um rosto conhecido, o ator Anthony Ruivivar, que interpretou Miguel Ramos no último episódio de “Murder House” – o pai da família que compra a mansão e é afugentado pelos fantasmas. Agora, ele é que é uma assombração. O jogo sempre vira em “American Horror Story”, hein?

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Outro nome familiar dos fãs do seriado é a sempre fantástica Lily Rabe, seja qual for sua identidade, socialite mimada, freira inocente, demônio provocante, hippie. Agora na pele de uma personagem real, ela mais uma vez desenvolve uma interpretação convincente. Não só a maquiagem a deixa parecida com Aileen Wuornos, a atriz incorporou os trejeitos, os tiques, a entonação e o olhar vidrado da prostituta de Michigan que matou sete homens. Seu método era baseado em tiros. Aileen morreu em 2002, ao ser executada na Florida com injeção letal. Antes de morrer, ela pediu que seu funeral fosse celebrado ao som da canção “Carnival” de Natalie Merchant – a mesma música que toca na primeira cena de Wuornos no episódio.

Digam se não foi divertido assistir John Carroll Lynch no papel John Wayne Gacy, não só porque o ator é ótimo, mas também porque ele foi intérprete de outro palhaço assassino conhecido pelos fãs do seriado – o Twisty de “Freak Show”. Em “Devil’s Night”. Gacy só aparece em uma cena com a maquiagem no rosto. Contudo, na vida real se vestia como Pogo, o que lhe garantiu o apelido de Palhaço Assassino. Entre 1972 e 1978, ele violentou e matou pelo menos 33 pessoas, entre meninos adolescentes e jovem rapazes. Ele fazia suas vítimas geralmente por estrangulamento e enterrou alguns deles debaixo de sua casa, o que garantiu sua captura – e um puxão de orelha do mentor James March. Foi executado em 1994.

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Seth Gabel é novato no seriado, mas sua performance como o introspectivo e mortal Jeffrey Dahmer deve ficar impressa na memória dos fãs de “American Horror Story”. Como sua rejeição à salada indica, o serial killer de Milwaykee era canibal. Ele foi condenado pelo estupro, assassinato e mutilação de 17. Assim como Gacy, sua preferência era por homens e garotos. Não é à toa que ele recebeu um tratamento especial de March, seus atos eram brutais e chegavam a envolver também canibalismo. Ele cumpria prisão perpétua quando foi morto com pancadas de uma barra de metal na cabeça, em 1994.

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Eles ainda foram acompanhados pelo serial killer do Zodíaco. A série faz uma brincadeira divertida com o fato de a identidade deste homicida nunca ter sido descoberta. Ele aparece com o corpo oculto com o disfarce usado pelo real assassino, segundo uma testemunha, não abre a boca e assina a lista de presença com a mesma forma como poderia com as cartas com as quais provocava a imprensa e a polícia: “Eu sou o Zodíaco” (e foi assim que assinou o seu nome no caderno de entradas da recepção).

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Os convidados de March não foram os únicos serial killers reais presentes no episódio. Tivemos a oportunidade de descobrir a origem da obsessão da Sra. Evers (Mare Winningham) por lençóis. Essa foi a fantasia pouco caprichada com qual ela vestiu seu filho no Halloween em que ele foi raptado. A mãe havia desviado sua atenção do garoto para bater-papo. Por esse descuido, a criança foi vítima de Northcott, um pedófilo e assassino real ativo durante os anos 1920. O lençol ensanguentado foi a única parte encontrada do menino quando a polícia chegou ao rancho de seu sequestrador. Se até o momento a personagem de Mare foi motivo de um entretenimento macabro com todo o humor negro que a rodeia, em “Devil’s Night” a atriz realizou uma atuação comovente como mãe arrependida. Evers ganhou profundidade e se tornou um paralelo de John, outro pai que perdeu o filho por se distrair.

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A negligência de John foi o tema de uma inesperada conversa entre sua (futura ex) esposa Alex (Chloë Sevigny) e a vampira que roubou seu filho, Condessa Elizabeth (Lady Gaga). Da mesma forma que o marido mergulha em uma série de situações altamente destrutivas para um policial, Alex aceita tomar um caminho especialmente contraditório para uma profissional da saúde. Ao reencontrar Holden (Lennon Henry), medir sua temperatura inumana, testemunhar o ataque do garoto ao cachorro da família para matar sua sede de sangue, a pediatra é levada a acreditar que a única forma de recuperar seu filho preferido é se tornar uma vampira como ela. Alex se submete à hipótese de uma eternidade de servidão a Elizabeth para ser contaminada pelo vírus sanguíneo que aflige seu bebê. A obsessão da médica pelo filho atinge o ápice. Ela rejeita a vida normal. Ela sequer cogita consultar o pai do garoto. É triste o modo como Alex exclui John mais uma vez, quando o único esforço que ela poderia fazer para comunicá-lo de que reencontrou a criança era dar alguns passos pelo corredor até seu quarto. A médica também não demonstrou pensar nas consequências que a própria transformação teria para a filha preterida Scarlett (Shree Crook). Independentemente de julgamento moral, ver as habilidades dramáticas de Sevigny ao confrontar Elizabeth e ao aceitar seu novo destino foi uma experiência muito agradável para o telespectador.

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Enquanto Alex se afasta mais ainda de John, ele se aproxima cada vez mais de Sally (Sarah Paulson) que se proclama sua protetora. Podemos confiar nisso? O nosso herói assegura a própria salvação ou a própria condenação ao estar ao lado da fantasma? Podemos chamá-lo de “nosso herói” mesmo enquanto ele se deixa engolir pelo lado sombrio do Hotel? Aliás, neste episódio a trama dele foi provavelmente a mais intrigante e produziu mais perguntas. De que forma John atraiu a atenção de March? Ele tem natureza homicida como os outros convidados do banquete? March quer convertê-lo como fez com os outros serial killers? E como depois de descobrir o anacronismo da história de Evers e estar exposto à verdadeira Aileen Wuornos, o detetive continua tão cético?

Assistir “Hotel” tem sido divertido pela forma como os episódios esclarecem dúvidas e criam outras, possibilitando interpretações e teorias. Há algumas temporadas não sentia isso com o seriado, e é revigorante voltar a ter essa experiência. E se o Demônio do Vício fosse visitar o quarto de um de nós aficionados por séries (Batam na madeira três vezes!) seria por nosso vício por especulações.

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Post Scriptum: Quase concluí a review, mas não poderia deixar de comentar: Quão fabulosa é a Liz Taylor? Não há uma frase sarcástica ou inteligente pronunciada pela boca de Denis O’Hare este ano que não soe deliciosa para meus ouvidos. Que transformação e quanto mistério! Mal posso esperar para conhecer a origem dessa personagem que já é ambígua e interessante.

  • Thiago Oliveira

    Gente e o Will Drake, tirou folga no Halloween?
    Acredito que John e a ex esposa estão sendo disputados pela Condessa e March, eles querem aliados, além do grau de parentesco que devem ter.
    Quem será a avô de Scar, alguém chuta?

    LoL

    • Rafaela Tavares

      Depois de ser provocado e deixado na mão duas vezes por duas pessoas diferentes, eu também tiraria folga daquele hotel se fosse o Will Drake. :p
      Brincadeiras a parte, gostei da sua percepção de como o interesso do March pelo John se compara ao da Condessa pela Alex. A Elizabeth já conseguiu converter a Alex. Será que o March consegue o mesmo com o John?

      • Thiago Oliveira

        Seria interessante, no final Alex ficar no lugar da Condessa e John assumidamente como o maior Serial Killer, superando March. Estamos vendo as fraquezas e o crescimento dos dois, apostaria minhas fichas nisso.

        ^^

    • Rafaela Tavares

      Quem você acha que é o avô da Scar?

      • Thiago Oliveira

        Na vdd, quis dizer avó. ^^

    • Ênio Gonçalves

      Essa só foi a primeira parte, no próximo episódio que é a continuação do Devil’s Night, o Will Drake va fazer um Sarau no Hotel…

      • Thiago Oliveira

        LoL

  • Tony Hart

    O jeff foi preso em 91 e morto e 94, não que eu saiba muito sobre…

  • Rafael Rossi Amaral

    O assassino Northcott não foi o que aparece no filme A Troca, com a Angelina Jolie?

    • Rafaela Tavares

      É ele mesmo! Ótimo filme, aliás.

  • Arthur Ferreira

    Talvez John seja o autor dos crimes dos dez mandamentos que estão ocorrendo desde o primeiro episódio.

  • Pois é, a única solução da Alex poder ficar com seu filho era ela se tornar vampira também. Até agora, ela fez a escolha certa. Mas ainda acho um erro ela não ter contado para o seu futuro ex marido ou quase ex marido.. Na hora quando vi a cena de que ela voltou lá para o Hotel pra ficar com seu filho e entregar a sua vida a Condessa, me lembrei dele. Esse seria o erro dela…

  • Evan Psicótico

    Depois de ter lido essa review sublime.,pois é as especulações aumentam cada vez mais,porém ao mesmo tempo nos deixa saciado com as respostas a perguntas que ficam em episódios,porém respondidas em outros. Sem sombra de dúvida que a Alex faria qualquer coisa para estar perto do Holden que é a pessoa que ela mais ama,será que depois dessa reunião o John ficará insano?Qual será o objetivo da Sally com a aproximação com o john? O que nos resta é ficar por dentro desse HoTEL e assistir todo esse show de insanidade e loucura.

  • Douglas Ibanez

    Ótima review! Liz Taylor é uma das melhores construções da série. Ambígua, sarcástica e phyníssima. Quero muito saber mais sobre ela. Não gosto da atitude de Alex em deixar se tornar vampira assim tão facilmente. O filho dela foi sequestrado e bebe sangue. O mínimo que poderia fazer era tentar uma discussão com John, poxa. Ela fala o quanto Holden é especial para ele, mas agora isso chegou à loucura. Sua atuação com a Condessa foi INCRÍVEL! <3 E Sally… ela é um brilho aos meus olhos. Que personagem! Adoro ela e adoro a Sarah Paulson a interpretando. Há uma profundidade em seu texto e olhar que poucos tem. Um mistério que seduz, mesmo sendo tão problemático. Há muito mais de Sally pela frente.

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