Review: O quebra-cabeça de ‘Ten Commandments Killer”, oitavo episódio de ‘Hotel’

Você já montou um quebra-cabeça? Não espere nenhum espanto a respeito do que será formado no final, quando cada peça estiver no lugar correto. Seja uma fotografia, seja uma pintura, a imagem sempre é exibida escancaradamente na embalagem. Desde o começo quem o compra sabe aquilo que verá ao juntar centenas ou milhares de pedaços. A beleza não está em surpresas – elas sequer existem. Quer sobressaltos? Vá jogar pula pirata. Aqui o prazer é compassado, definido pelo processo de descobrir os encaixes, perceber que cada fragmento foi cortado nos formatos perfeitos, saber que se teve a capacidade de juntar aquilo que estava embaralhado, e saborear o alívio ao perceber que nada falta e tampouco foi perdido.

Desde o primeiro episódio de “Hotel” o telespectador assiste a um quebra-cabeça ser montado e “Ten Commandments Killer” (Assassino dos Dez Mandamentos) evidencia isso. Não houve um plot twist atordoante: John Lowe (Wes Bentley) é o serial killer que ele mesmo perseguia e qualquer fã imune a deficit de concentração já havia descoberto. Sim, foi óbvio. Só que a graça dessa trama não é “Quem”, mas “Por quê” e “Como”. A intenção dos roteiristas provavelmente jamais foi surpreender, caso contrário não teriam plantado tantas provocações ao longo da temporada ou revelado a identidade do assassino no início do oitavo episódio.

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Vamos ser francos, quando foi que “American Horror Story” se importou com mind-fucks? Tate é o Rubberman… Óbvio. Você honestamente achou espantoso que o Thredson fosse o Bloody Face mesmo depois do tratamento de conversão perturbador que ele deu a Lana ou da forma como manipulou o Kit?

O problema do seriado é que ao contrário do que aconteceu na situação de “Asylum” nem sempre o desenrolar das tramas de Ryan Murphy é consistente ou satisfatório. E sinceramente? Não foi o caso do desenrolar da identidade do Assassino dos Dez Mandamentos para felicidade de quem sabe apreciar. Pelo contrário, cada detalhe foi bem costurado e demonstra que houve planejamento na quinta temporada, pelo menos para o que foi mostrado até agora. Repito: o prazer de ver a história ser montada foi compassado, definido por perceber que cada fragmento foi cortado nos formatos perfeitos.

DESENVOLVIMENTO

As respostas têm bons encaixes, nada foi aleatório. James March (Evan Peters) não assessora homicidas por esporte, ele buscava um sucessor para sua obra não terminada. John não foi convidado para o banquete da Noite do Diabo por causa da boa educação do anfitrião, o investigado era um serial killer como os outros com quem dividiu a mesa. Wren (Jessica Belkin) teve um motivo para ajudar o assassino, ela foi incitada a proteger o amante de Sally (Sarah Paulson) de morrer fora do hotel. A Condessa (Lady Gaga) não sequestrou Holden (Lennon Henry) à toa, ela atendeu um pedido do ex-esposo para tirar as esperanças de John para que o detetive finalmente aceitasse sua índole fatal. Quando o relógio marca 2h25 da madrugada se vive uma hora maldita na mitologia do Cortez porque foi nesse horário que seu fundador se matou. Iris (Kathy Bates) não cumprimentou John como “senhor policial” pela postura do detetive, ele já esteve antes naquele hall e muitas vezes.

Até o nome e sobrenome do Assassino dos Dez Mandamentos versão 2015 dificilmente foi escolhido a rumo por Ryan Murphy. É uma provável referência a um filme clássico sobre assassinatos de inspiração bíblicas. O autor dos crimes de “Se7en – Os sete crimes capitais” (1995) é apelidado de John Doe. Troque uma consoante foneticamente e você terá “John Lowe”.

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Se7en – Os sete crimes capitais (1995)

Além disso, não podemos esquecer que o arco do personagem de Wes Bentley em “Hotel” também remete a outra grande influência cinematográfica da temporada. Sua desordem mental como efeito colateral do contato com alma sombria do Cortez homenageia a progressiva decadência psicológica de Jack Torrance intensificada quando o personagem principal de “O Iluminado” (1980) passa a viver no Overlook em “O Iluminado”. Os dois até têm cenas de diálogos com fantasmas em um balcão de bar.

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O Iluminado (1980)

E [como bem lembrou meu amigo Gabriel Fernandes] no momento em que Sally exclama “É você, John! Sempre foi você”, ela está repetindo uma revelação chave de “Candyman” (1992) em que é demonstrado como uma pessoa que estava investigando crimes foi impulsionada a cometê-los por uma entidade. Até as inspirações cinematográficas são peças bem encaixadas no quebra-cabeça desta trama.

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Candyman (1992)

Por meio da confissão do detetive a seu parceiro, observamos cada detalhe de sua formação, as investidas de March para moldá-lo até que ele esteja pronto para coletar os novos troféus para sua composição interrompida. Há cinco anos, a resolução de um caso infeliz investigado deixou John Lowe com uma puta necessidade de beber. Isso o atraiu para o bar de Los Angeles onde ele soube que preparam o melhor martini, o do Hotel Cortez. Lá, sua aura negra e sua percepção em relação à morte fizeram James March perceber que aquela criatura em conflito interno por um autocontrole forçado é o cúmplice que ele sempre procurou. Se alguém poderia seguir os passos de idealizado do hotel não seria Gacy, Ramirez ou Dahmer. O par perfeito de seu bromance homicida se chama John Lowe.

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Wes Bentley sustenta bem com sua atuação tanto a confusão como a claridade recém-conquistada por seu personagem. Contudo, as duas interpretações de destaque de “Ten Commandments” são de Peters e Paulson. Mais uma vez é delicioso assistir March transpirar um carisma perturbador, cheio de humor negro e monstruosidade. Alguém não riu com seu acesso de raiva infantil enquanto ele exclamava que só tinha direito a uma noite com a ex mulher? Em “Hotel”, Evan prova que seu forte como ator é dar vida a vilões e se John é logisticamente uma ferramenta para pôr em prática os planos, James é o autor cerebral dos assassinatos, cuja temática reflete o ódio do criador do Cortez à religiosidade.

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Por sua vez, Sarah conseguiu fazer com que matássemos um pouco a saudade de sua personagem desequilibrada, ausente há alguns episódios. Sua interpretação é visceral e expressa nos gestos e olhares sua “necessidade comparável a um poço sem fundo”. Porém, a carência da personagem não é limitada ao aspecto sexual como a descrição do narrador pode dar a entender, ao contrário, é mais sentimental e, apesar de todo seu egoísmo, é comovente sua dependência amorosa a John. O episódio explicou também a natureza da relação dos dois e do verdadeiro significado das falas ambíguas de Sally em cenas anteriores.

PERSONA E SOMBRA

Outro elemento satisfatório no desenvolvimento do episódio é como a transformação de John ecoa a contraposição entre “persona” e “sombra”, um tema presente na história de outros protagonistas de “Hotel” – citados anteriormente em um monólogo de Elizabeth. Os dois são conceitos explorados pelos estudos da psicologia analítica de Carl Jung. Persona é a máscara, nossos aspectos ideais, as características da nossa personalidade que exibimos para o mundo. A obsessão por controle da qual John sofre o faz se agarrar à sua persona.

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Por outro lado, sombra são os elementos primitivos que tentamos reprimir, ocultar em nosso inconsciente, projetar em outras pessoas. Lowe fugia da própria “sombra” por temer sua própria violência e essa fuga provavelmente o levou à profissão de investigador criminal. Ele precisava de assassinos em quem pudesse projetar sua brutalidade ocultada e assim pensar que se diferencia deles. Tanto ele negava sua identidade homicida que ao perceber a natureza assassina concretizada, ele preferiu o suicídio – sem sucesso.

Uma mistura da amnésia provocada pela mística do hotel e pela tentativa de John a se prender à sua persona produziu sua confusão mental e negação dos acontecimentos passados de cinco anos. Porém, ao final do oitavo episódio, o detetive aceita sua sombra. Isso aparentemente lhe traz tranquilidade – ou será que é um passo inconsciente para a destruição? Afinal, um dos mandamentos restantes é “Tu não cometerás assassinato”. Será que John Lowe reserva para si mesmo o título de sua própria última vítima, assim como John Doe fez em “Se7en”?

  • Ficou fodástico! O melhor episódio da temporada

  • guilherme silva

    alguem tem o link pra ver na net, n to achando

  • Isabella Oliveira

    “Afinal, um dos mandamentos restantes é “Tu não cometerás assassinato”. Será que John Lowe reserva para si mesmo o título de sua própria última vítima, assim como John Doe fez em “Se7en”?” Mas ele não assassinou o detetive parceiro dele, após descobrir que ele tava com a Alex?

    • Rafaela Tavares

      Sim, o John matou o parceiro, mas mandamento que ele atribui ao Hahn foi “não cobiçarás a mulher do próximo”. Ainda sobram dois, um orienta sobre não fazer esculturas para si e o outro é o “Tu não cometerás assassinato”. O John como quem comete assassinado pode se tornar sua própria vítima, se punindo por desrespeitar o mandamento com suicídio (ou manipulando alguém a matá-lo).