REVIEW: A celebração do gore em ‘Chapter 7’, sétimo episódio de ‘Roanoke’

Eu só queria estar na TV.” A câmera registra as palavras da atriz Agnes Mary Winstead. São as últimas que a personagem de Kathy Bates pronuncia. A frase é uma definição para ela, mas representa também a necessidade por visibilidade sentida por muitos integrantes da sociedade moderna. O que as pessoas são capazes de fazer para aparecer na televisão?

Algumas renunciam à privacidade, aceitam passar dias em reclusão com outros seres humanos enquanto cada gesto do grupo é gravado. Pode haver hostilidade, pode haver exposição em excesso, podem haver uma auto-ridicularização. Na realidade do mundo ocidental, essas pessoas são recompensadas com alguns meses de fama, prêmios – caso se mantiverem muito tempo no ar, cachês por participação em propagandas, amor e ódio do público. Em “American Horror Story”, elas são punidas com violência.

GORE
A sexta temporada da série é uma celebração do gore, subgênero de cinema também chamado de “splatter” que explora a vulnerabilidade do corpo humano, que objeto de mutilações. Se você tem estômago – e até uma atração – para lidar com a tortura física de personagens humanos, sente e aproveite. O formato da narrativa foi trocado de “mocumentário” para filmagens de um reality show, porém “Chapter 7” (“Capítulo 7”) dá continuidade ao apelo para a brutalidade de episódios anteriores e até o aprofunda.

Como anunciado no final do episódio anterior, os participantes de “Retorno a Roanoke” vão morrer um a um, o que abre mais espaço para sequências de “torture porn”. E isso não será uma exclusividade dos personagens hospedados no casarão. As mortes se estendem também à equipe por trás das câmeras, o que inclui a mente por trás da criação do reality show.

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Horas antes, o produtor Sidney James (Cheyenne Jackson) estava tão bem-humorado com a ideia de ter nas mãos mais um sucesso televisivo que fazia piadas. Ele até chegou a imitar a voz do paranormal Cricket (Leslie Jordan), uma das vítimas das mortes em Roanoke dois anos antes. O produtor nem esperava que teria um fim parecido com o do médium: um corte de cutelo na barriga, seguido por estripação. Em “American Horror Story”, karma existe.

Com toda a equipe técnica morta, os participantes do reality show ficam mais vulneráveis. É como se uma entidade punidora chamada Roteiro apontasse o dedo para eles e risse: “Vocês não queriam ficar isolados e ser alvos de gravações? Que tal agora?”. O terror às vezes é um gênero moralista, como os casaizinhos que praticam a luxúria em slashers bem sabem. Para Ryan Murphy e Brad Falchuk, a sede por fama parece ser um pecado capital.

FAMA
A primeira vez que uma personagem de “American Horror Story” foi motivada a um gesto extremo pela ambição, ela terminou trancafiada em um hospício sem ter transtornos mentais. Na segunda vez, a mesma personagem acabou na mira do revólver de seu próprio filho rejeitado. Lana Winters (Sarah Paulson), de “Asylum”, sobreviveu ao seu gosto pelo sucesso, mas não sem sequelas. Outra que teve a obsessão pela fama respondida com sofrimento foi Elsa Mars (Jessica Lange), de “Freak Show”. Ela conseguiu ser uma estrela televisiva, mas terminou solitária e desiludida.

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Agnes Mary Winstead, de “Roanoke”, também conseguiu roubar cena em “Retorno a Roanoke”. Quando as filmagens de tudo que aconteceu durante a Lua Sangrenta forem recuperadas duvido que quem assistí-la, no universo da série, não fique assombrado com seu comportamento diante das câmeras. Os melhores intérpretes de “American Horror Story” têm direito a monólogos. Não poderia ser diferente com Kathy Bates que faz por merecer. A atriz alterna raiva, insanidade e culpa com maestria.

Sua Açougueira era cruel, sua Agnes é homicida e ainda assim é uma figura triste. Kathy desenvolve todas camadas da personalidade de sua personalidade, o que a torna mais humana. Chega a ser doloroso vê-la ser morta pela Açougueira real (Susan Berger), porque isso pode significar nos despedirmos da interpretação de Bates no seriado.

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DESCONTROLE
Não seria exagero dizer que o episódio foi de Agnes. No entanto, seria injusto afirmar que Kathy foi a única atriz de destaque ali. Como em outras temporadas, Lily Rabe foi excelente. Por quase metade de Roanoke, sua Shelby foi contida. As emoções que ela demonstrava eram sutis, contribuindo para a criação de uma aura de delicadeza em torno da personagem. Porém, o sétimo capítulo mostra o momento em que Shelby perde o controle e a boa notícia é que ela também é interpretada por uma atriz capaz de transmitir nuances muito diferentes.

Por que os Miller toparam voltar ao casarão de Roanoke depois do pesadelo que viveram ali? Lee (Adina Porter) precisava provar a própria inocência. Shelby queria se reaproximar do marido. Matt (André Holland) desejava Scáthach, a bruxa com vários séculos de existência com quem teve relações sexuais hipnotizado.

Isso é o suficiente para arrancar uma reação de sua esposa bem contrária ao caráter passivo que ela demonstrou até então – e é também uma desculpa para mais uma cena gore. A professora de ioga mata o marido com golpes seguidos com uma barra de ferro. Matt termina com a cabeça destruída e Lily Rabe faz sua melhor atuação da temporada ao encarnar uma Shelby desesperada.

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Sua única companhia agora é Dominic (Cuba Gooding Jr.), que arma situações para se tornar o vilão da história e com isso ser o destaque do programa, uma ideia não tão boa quando lembramos do karma de quem é louco por fama no seriado. Contudo, até o momento ele continua ileso. Vamos aguardar…

VERDADE
Paralelamente, as atrizes Audrey (Sarah Paulson) e Monet (Angela Bassett) passam por situações difíceis ao serem confrontadas com a realidade por trás do que os Miller contaram sobre sua estadia em Roanoke. A maior parte da participação dessas personagens é mostrada em filmagens amadoras pela floresta no melhor estilo “A Bruxa de Blair” (1999). O aspecto found footage contribui para criar uma sensação de que seu sofrimento é real e perturbar mais o telespectador.

Um tema que ecoa pela temporada é a natureza da verdade. Tudo que sabemos sobre a história passou por filtros de narradores. A imagem que temos dos espíritos, por exemplo, é uma mistura da versão descrita pelos Miller com as liberdades que a produção do documentário possa ter tomado ao retratá-los.

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Os fantasmas reais são bem mais assustadores. A estética deles exibe uma sujeira que podemos associar à morte e seus movimentos são mais agressivos. Lembram-se do Edward Mott vivido por Evan Peters que depois de morto era inofensivo? Ou os Miller mentiram sobre ele os ter salvado, ou durante esses dois anos o humor dele piorou muito. Talvez a característica mais perturbadora dos fantasmas reais de Roanoke é que, pelo menos até agora, eles não verbalizam nada. A fala humaniza, adianta intenções.

O verdadeiro Edward Mott não conversa elegantemente, ele grita de forma inumana. A verdadeira Scáthach produz sons ferais. As verdadeiras enfermeiras não têm diálogos loucos, elas matam em silêncio. O mesmo é válido para a verdadeira Açougueira que se parece muito mais com uma fantasma inglesa do século 16 com seu penteado e roupas à moda elizabetana. Essa mudez colabora para que os espíritos desta temporada sejam mais inquietantes do que os de “Murder House” e “Hotel”.

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CANIBALISMO
Se o retrato dos fantasmas mostrado pelo documentário diverge da realidade, Shelby e Matt descreveram fielmente os Polk. A versão real da família de caipiras malignos é igualmente ameaçadora e também parece ter saído do filme “Massacre da Serra Elétrica” (1974).

A recepção que eles fazem para Lee, Audrey e Monet lembra seus atos dois anos antes. Elas são capturadas, Lee perde pelo menos pedaços da perna que são servidos pela matriarca Polk (Robin Weigert) a Audrey e Monet. Como se fazer um bom gore e revirar o estômago do espectador sem uma cena de canibalismo? Afinal, o horror da ideia de humanos ingerirem carne de seres da mesma espécie assombra o subgênero splatter há décadas e exemplo disso é “Holocausto Canibal” (1980), um clássico que assim como a primeira metade de Roanoke brinca com a ideia de um documentário.

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A aparição dos Polk traz aos fãs de “American Horror Story” um brinde. Um dos atores favoritos da fandom, Finn Wittrock volta como um dos filhos da família caipira, irreconhecível em uma maquiagem que oculta sua boa aparência. Um dos aspectos que mais me agradam nesta temporada é como atores que na última vez que vimos em “American Horror Story” eram glamourosos, aqui estão sujos, com visual que favorecem pouco sua beleza.

Lady Gaga foi de Condessa para Scáthach fictícia, Frances Conroy de Gloria Mott para Mama Polk. Finn foi o modelo Tristan em “Hotel”, capaz de seduzir a Condessa e Liz Taylor (Denis O’Hare), aqui ele tem aspecto rústico que combina pele maltratada, dentes tortos e ar perturbado. As poucas cenas em que ele aparece munido de uma câmera causam curiosidade sobre seu personagem. (Também fico feliz em ver que fugiram do clichê que seria escalarem o ator para viver a versão real do antepassado de seu Dandy, Edward Mott.)

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Se o episódio anterior teve cenas mais calmas ou até cômicas que serviram como intervalo e introdução ao novo formato, “Chapter 7” não ofereceu alívio para retomada de fôlego. Cenas tensas seguiram cenas tensas em um episódio que não deve muito aos melhores filmes do subgênero gore. Temos ainda três capítulos até o final da temporada, mas mesmo sem saber se a conclusão é gratificante, os fãs de “American Horror Story” podem ficar contentes com um fato: o seriado realmente retornou ao horror sombrio que fazia falta desde o final da segunda temporada.