Review: A monstruosidade infantil em ‘Room 33’, sexto episódio de ‘Hotel’

Bebês operam efeitos na biologia de adultos. Sua sucção durante a amamentação estimula a liberação de ocitocina na mulher, hormônio ligado a bem-estar físico e emocional, o que fortalece o vínculo entre mãe e filho. A aparência do humano em seus primeiros meses de vida reúne características chamadas Kindchenschema (padrão infantil), denominação utilizada pelo etólogo austríaco K. Lorenz. Sua teoria é de que o crânio arredondado, as bochechas redondas, o nariz pequeno e os olhos grandes desencadeiam uma reação de encantamento. No nosso imaginário convencionou-se associar bebês a um estado de Tabula Rasa. A primeira infância nos parece o único momento em que somos uma “folha em branco” moralmente, concentramos a extrema pureza, uma inocência anterior a qualquer corrupção.

Relacionar esses pequenos seres humanos à monstruosidade parece perverter a natureza. Essa é a provável razão pela qual a presença desses ‘anjinhos” em filmes de terror tem gosto tão desagradável. Eles não precisam ser cobertos pelo alcance da câmera por longos minutos. Às vezes nem os vemos, como em “Bebê de Rosemary”, mas os infantes diabólicos nos perturbam até mais do que alguns vilões de dois metros de altura. Em “American Horror Story” mesmo, essas sensações de temor provocado por um bebê monstro que pouco aparece foram provocadas pela participação do Infantata (Ben Woolf), filho remontado dos Montgomery com uma necessidade de matar. Quando assisti a primeira temporada, confesso que cada vez em que um personagem descia até o porão, eu sentia um misto de tensão e curiosidade mórbida, porque isso podia significar um zoom no Thaddeus.

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O seriado explora novamente essas sensações na quinta temporada, com “Room 33” (Quarto 33). Lembra-se de quando Iris (Kathy Bates) resmungou cansada que ainda teria que alimentar “aquela coisa” que habitava esse espaço? Seu ocupante se chama Bartholomew. Como descrevê-lo? Um feto vampiro assassino gerado em uma gestação acelerada de três semanas, sobrevivente a uma tentativa de aborto e animalesco ao ponto de atacar mortalmente como instinto de defesa? O bebê mal formado não é um simples hóspede. Ele é filho de Elizabeth (Lady Gaga).

MURDER HOUSE

A introdução ao personagem serviu para revigorar o parentesco entre “Hotel” e “Murder House”. Nas duas temporadas, uma propriedade é apresentada a um azarado novo dono pela corretora de imóveis Marcy (Christine Estabrook). Nos cenários principais de ambas as histórias, quem morre sem resolver assuntos pendentes é condenado a uma existência eterna como fantasma. Nos dois anos, uma família já abalada é destruída – como tiro de misericórdia – pelos efeitos negativos de um ambiente amaldiçoado. E agora as origens dos bebês monstruosos das duas temporadas estão enraizadas ao mesmo local, o porão de uma mansão construída em 1922, em Los Angeles.

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Algum motivo levou Elizabeth a optar pelo aborto – o diálogo indica que a necessidade de ocultar a gravidez sobrenatural de seu marido. Para isso, ela recorreu aos serviços do médico viciado (outro ponto em comum com os personagens de “Hotel”) em éter, Charles Montgomery (Matt Ross). Nada mais natural. Como vimos na primeira temporada, ele era o cirurgião das estrelas, já ela comenta que já chegou a trabalhar em filmes. Mas o feto retirado não morre, ao contrário, respira e como a criatura de “It’s Alive” ataca, Alterado pela droga, Charles nem mesmo se abala quando sua assistente é morta pelo recém-nascido, ele simplesmente o entrega para sua mãe. “É um menino”. Charles, confesso que senti falta de sua personalidade absurda, quase tanto quanto de sua esposa Nora (Lily Rabe – que volta a “Hotel” mais uma vez, só que não em movimento e sim em foto).

Bartholomew nasce em 1926. Se você não assistiu o primeiro ano de “American Horror Story” ou não se atentou à data, foi o mesmo ano em que o filho de Charles e Nora, Thaddeus foi sequestrado, desmembrado por um homem, remontado e reanimado pelo pai, até se tornar Infantata e motivar sua mãe a matar o esposo antes de suicidar.

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AFEIÇÃO

A criança monstro serve para reparar um provável ponto no qual a quinta temporada não havia sido convincente. Os outros personagens dão a entender que Elizabeth ama seus filhos, mas até agora havíamos tido poucas provas de seu instinto maternal. As crianças que adotou parecem servir mais como filtro de sangue poluído do que como objetivo de afeto para a Condessa. Com Bartholomew é diferente. Décadas depois da tentativa de aborto, a mãe faz visitas especiais ao quarto 33, onde dorme seu bebê. O ato parece tão importante que ela sempre veste roupas longas com ar especial para vê-lo. Quando descobre que ele correu risco, ela se emociona genuinamente. E Sim, Elizabeth é capaz de estabelecer laços genuínos com algum de seus vampirinhos. Resta agora oportunidades para provar que o mesmo é válido para seus irmãos adotivos, pois cada vez que Ramona Royale (Angela Bassett) menciona que planeja destruí-la matando as crianças, isso me soa uma vingança pouco eficaz.

Quando Bartholomew é alvo de uma fracassada ação da ex-atriz de filme B, a trama do episódio proporciona a Alex (Chloë Sevigny) – sua salvadora – uma possibilidade de ganhar a gratidão da Condessa.

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AMOR

Se o episódio mostrou uma cena bizarra de nascimento durante um flashback, ele nos proporcionou assistir a um assassinato de um personagem que parecia importante. Vimos uma nova faceta de Liz Taylor, A personagem interpretada por Denis O’Hare não é apenas uma diva culta e sarcástica, ela não está isenta de sensibilidade amorosa. Pela primeira vez, ela se apaixona. Além de atender John Lowe (Wes Bentley) durante suas idas ao bar e ajudar Iris a achar seu eixo, e colaborar nas buscas por Bartholomew quando o bebê-monstro desaparece, a transgênero viveu um início de romance com Tristan (Finn Wittrock). Os dois parecem sentir amor. Para ela, o rapaz é mais do que um objeto sexual, como todos o tratam. E ele a valoriza como a garota heterossexual como a qual, Liz se identifica na essência.

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Sempre sensata, a bartender dessa vez é ingênua e acha que a Condessa abriria mão de seu affair se fosse convencida de que o modelo é sua única chance de amor. Mas já vimos que a Condessa não lida bem com a traição. Ela tem uma percepção quase sinestésica dos sentimentos, os saboreia. O gosto de ser passada para trás é o único que ela não aprecia. Resultado: o pescoço de Tristan é cortado. A Condessa mais uma vez exibe sua dualidade no mesmo episódio. Demonstra carinho pelo filho e frieza total ao golpear o amante com a lâmina da luva. Será que Finn nos deixa prematuramente? Ao que trailer, fotos de bastidores e entrevista com Ryan Murphy indicam, não. O papel muda, mas o ator permanece.

A tragédia romântica deu á personalidade de Liz mais uma camada. A personagem é multidimensional, carismática e mais uma vez belamente interpretada. Resta dúvidas de como ela irá reagir em relação a Elizabeth. Será mais alguém procurando derrotar a Condessa? Será a pessoa mais próxima a conseguir isso? No episódio anterior, Liz Taylor foi mostrada lendo Voltaire – autor iluminista – logo em seguida Elizabeth surge fantasiada como uma nobre do século 18 com furos de dentada no pescoço (era uma versão irônica de Mina Harker ou era uma dama da França absolutista atacada por vampiros?). Talvez seja uma dica. Pensadores como Voltaire inspiraram uma revolução contra os nobres, o que incluiu a decapitação do rei e rainha franceses. Liz Taylor pode contribuir para o fim do reinado da Condessa?

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DESCONTROLE

Antes que a personagem de Lady Gaga entre em processo de decadência, alguém de um outro núcleo se desfaz mentalmente. Sim, estou falando de John. Ele que foi introduzido como um investigador competente em ler sinais em crimes, é expulso pelo ex-parceiro de uma cena de assassinato. Se no começo da temporada, vimos como um pai amoroso que tentava estar presente na vida da filha Scarlett (Shree Crooks), causa pânico na garota. O detetive é vítima do próprio ceticismo teimoso. Antes de admitir que está cercado por situações anômalas, como jantar com assassinos fantasmas, avistar o filho vampiro, trombar com trabalhadores e hóspedes mortos pelos corredores do Hotel Cortez, ele se deixa crer que está enlouquecendo. Provavelmente sua sanidade está comprometida, mas as visões não delírios. Sua ex-mulher resolve contribuir para que John fique mais comprometido. Transtornada com a possibilidade de John prejudicar sua eternidade ao lado do primogênito, ela manipula duas fantasmas perdidas – as suecas do primeiro episódio – a “foder com a mente” de John. Inicialmente ele cai e resolve fugir do Hotel. Mas ao ser confrontado com os aspectos sobrenaturais (leia-se Bartholomew), John começa a perceber que as situações que viveu não foram alucinações. É difícil não sentir pena dele. O detetive está bem-intencionado. Ele ama realmente seus filhos e ex-esposa. Tenha dupla personalidade ou não, John deseja sim desvendar os crimes do Dez Mandamentos. Mas Alex não só é indiferente, como se torna nociva a ele, Scarlett o teme, Holden (Lennon Henry) o assombra, a polícia o rejeita e o Hotel Cortez o atormenta.

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O episódio teve tramas paralelas bem costuradas pela presença do ocupante do quarto 33. Denis O’Hare mais uma vez se destacou, Wes Bentley mostra que sua atuação fica mais interessante conforme John perde o controle, e Lady Gaga aprimora suas habilidades como atriz. Os roteiristas foram espertos em dar cenas com poucos diálogos, baseadas na sensualidade e atração visual para ela no início, e progressivamente oferecer oportunidades emocionais para sua personagem, em gravações para episódios em que a cantora acumula mais horas de experiência como atriz.

Depois de seis episódios, o único ponto que me incomoda negativamente na temporada é a forma como hóspedes são constantemente mortos no Hotel Cortez, sem que os crimes da Condessa, das assombrações ou outros vampiros chamem atenção da polícia. Sim, a insegurança contribuiu para estabelecer o prédio como um local maldito, mas nenhum parente denuncia o desaparecimento dessas pessoas? Ninguém informa a investigação de que essa gente toda fez reservas ali? São décadas de homicídios. Essa situação me provoca questionamentos sobre a possibilidade de o Hotel Cortez ter poderes de ocultação, transitar por dimensões diferente, ou de os roteiristas simplesmente não se importarem com a plausibilidade. Aguardamos o desdobramento, Ryan Murphy e Brad Falchuk. Fora isso, ‘Hotel’ tem oferecido uma boa estadia para mim, brindada ainda com uma boa fotografia e trilha sonora deliciosa – sejam canções dos anos 70 e 80, seja a música instrumental que parece ter saído de um filme de John Carpenter ou Dario Argento.

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  • Evan Psicótico

    Esse episódio nos trouxe mais desdobramentos porém todos bem construídos e muitas atuações lindíssimas,foi tensão,loucura,amor,”mentes sendo fodidas”…isso tudo em único episódio como não amar…

  • Douglas Ibanez

    Eu gostei do episódio. Gosto do desenvolvimento dos personagens que essa temporada vem trazendo, o que senti falta nas duas últimas. Espero que continue assim. Quero mais da Sally e do Demônio do Vício também, sinto muita falta de ambos!

  • Eduardo Lira

    Miga, o que foi essa sacada ~visão do futuro~ genial na referência à Voltaire com o fim da Condessa ali hein gente? Me explica! Tu é metida com bruxaria? rsrs Adorando as reviews!