Review: A Noite das Bruxas de ‘Forbidden Fruit’, 3º episódio de ‘Apocalypse’

Em 1966, Anton LaVey fundou a Igreja de Satã, nos Estados Unidos, transformando o culto ao demônio em uma instituição, de fato. Na sua Bíblia, ele estabeleceu feriados para sua religião. Uma das datas adotadas naquele satanismo formalizado é 31 de Outubro, Dia das Bruxas. Isso significa que o Halloween é um dia de Satã? Alguns supersticiosos acreditam que sim. O que a data representa para Michael Landgon (Cody Fern), o nosso Anticristo? O terceiro episódio de “Apocalypse“, “Forbidden Fruit” (Fruto Proibido) talvez dê sinais de uma resposta?

Michael se apropria da festa como uma oportunidade. Ainda que inicialmente não vemos os fios de comando, sãos seus dedos que manipulam as marionetes para execução de atos bíblicos. Mais uma vez, o Diabo oferece o fruto proibido para a humanidade. Embora a fruta consumida por Adão e Eva nunca seja nomeada, a arte europeia ocidental sempre a retratou como uma maçã.

PLANO
Sem se revelar, Michael se assegurou que um baú recheado de maçãs fosse entregue no Posto Avançado 3. Seu plano tinha, porém, um apelo de contos de fadas. A ideia é que as frutas acabassem envenenadas. Nada mais justo que ele jogasse a isca para Venable (Sarah Paulson) e Mead (Kathy Bates), perfeitas vilãs saídas de uma animação da Disney.

Elas não sabiam quem plantou a semente da ideia, achavam que era uma concepção original: servir as maçãs em uma festa de Halloween com veneno para todos os moradores do Posto Avançado, incluindo Michael, eliminar concorrência e chegar sozinhas ao Santuário.

Venable é megalomaníaca, sádica e sabe que Langdon já deixou claro que se depender da escolha dele, ela não será salva. Mead – como vimos no bizarro final do episódio anterior – é um robô. Se Sarah Paulson já teve a chance de mostrar a vulnerabilidade do que parecia ser uma vilã implacável, esta foi a vez de Kathy Bates.

Sua Mead sabe que é uma máquina programada para atuar por códigos, chips e memórias falsas. Isso não a torna menos humana, pelo contrário. Ela está ciente de parte da natureza da própria realidade, como um anfitrião de “Westworld” após despertar. Essa consciência a faz nutrir uma relação com lembranças não vividas sobre se fantasiar de androide, ser apalpada no cinema, matar um terrorista como agente da Mossad e cuidar de um lindo bebê loiro – nesta memória, em especial, o rosto do bebê sempre lhe aparece como um borrão. Saber que não é humana a conduz a questionamentos existenciais. A atuação de Kathy sustenta tudo isso.

Coincidência ou não (mais provável que não), uma das memórias forjadas de Mead a mostra como espectadora de “O Bebê de Rosemary”, filme que serviu de inspiração para a origem de Michael, em “Murder House“. A cena que ela vê é justamente um trecho curto em que vemos o rosto do Diabo em sua aparência real – algo rápido como a passagem em que temos um relance do rosto e dos olhos verdadeiros de Michael.

Para a sorte delas, todos – menos Michael e Brock (Billy Eicher), que invadiu o Posto Avançado – mordem as maçãs envenenadas. Para o azar delas, isso era exatamente o que Langdon queria. O Demônio não suja as mãos, como ele bem lembra. Ele tem um histórico – de Adão e Eva, passando por Caim, o próprio Deus na história de Jó e toda uma humanidade moderna – de convencer os homens a executarem seus planos.

Michael finaliza seu plano comandando Mead a matar Venable (Um parêntese, se a personagem de Sarah já foi descartada, o significado disso é desperdício. Ela tinha grande potencial para ser desenvolvida!). A recusa e inevitabilidade estão impressas no olhar de Kathy quando isso acontece. Ele revela, então, que quando mandou construir Mead, cuidou para que ela tivesse traços da mulher mais importante de sua vida, que o entendia como ninguém. Será a avó, Constance Langdon (Jessica Lange)? A cena ainda não deixou claro, mas a história de “Murder House” nos induz a pensar que sim.

NATUREZA
Nesse momento, Michael está pleno. O mesmo não se pode dizer sobre o começo do episódio. Ele conduz novas entrevistas para brincar com o lado obscuro de suas vítimas. Não é só sobre a natureza de Mead que temos revelações. Descobrimos, por exemplo, que Dinah (Adina Porter) é egoísta, cruel e já conhece Michael, o que contradiz sua aparência pacata. Mas não é a ela quem eu me referia. Mallory (Billie Lourd) sente que há alguém preso no próprio interior, querendo se libertar, como uma dupla identidade sombria. Quando provocada, ela movimenta o ar do cômodo. Ao ser confrontada com a real aparência física demoníaca de Michael, ela quase incendia o lugar, dominando o fogo da lareira.

Mallory se compara à Fênix Negra, uma personagem dos quadrinhos dos X-Men, porque o roteiro da série faz referências a cultura pop e porque esse é o repertório dela. Mas, nós, que conhecemos a mitologia de American Horror Story sabemos que uma casta de personagens desse universo tem superpoderes, sem serem heroínas ou mutantes: as bruxas. Mallory é uma bruxa, sem ter conhecimento disso? Enxergar essa possibilidade é o suficiente para ameaçar o Anticristo e obrigá-lo a fazer um ritual em invocação do próprio pai. Michael achava ter eliminado todas as bruxas e se enganou, o que o ameaça. Temos a confirmação de que elas foram suas inimigas.

Quem não tem um lado secreto obscuro é Coco (Leslie Grossman), porque ela é uma caricatura fútil e superficial de uma influencer egoísta, que gosta de humilhar sua assistente e impressionar os espectadores com fantasias elaboradas. O que ela não sabe é que seu marido Brock (Billy Eichner) sobreviveu à bomba atômica, tornou-se uma espécie de guerreiro num cenário pós-apocalíptico que parece uma versão canibal de “Mad Max”, e a seguiu até o Posto Avançado. Sim, a relação deles não terminou quando Coco o abandonou para a morte. E, sim, a relação dos dois termina com ela recebendo uma facada na testa.

SURPRISE, BITCHES
A festa de Halloween parece ter sido concluída com todos os humanos mortos e Michael triunfal acompanhado por sua robô-cúmplice-inspirada-na-vovó. Eis que a música literalmente muda. O rádio do Posto Avançado 3 começa a tocar “She’s a Rainbow”, dos Rolling Stones, o que deve se tornar um ícone sonoro para fãs de American Horror Story. Não porque a canção entusiasmante da banda inglesa seja deliciosa de ouvir – e ela é, mas porque ela é trilha sonora para a cena pela qual todos estávamos esperando e que reveremos muitas vezes após o episódio acabar.

A câmera se distancia do Posto Avançado. Envolvida por uma escuridão noturna, a paisagem se resume a uma bruma esverdeada. A névoa é cortada por três silhuetas que apesar de encapadas têm formas femininas. O coração do espectador começa a palpitar em antecipação. Nós já sabemos quem são, mas precisamos da confirmação.

A tela finalmente revela seus rostos, elas são Myrtle Snow (Frances Conroy), Madison Montgomery (Emma Roberts) e Cordelia Goode (Sarah Paulson, deslumbrante como a Suprema). Três bruxas de Coven! Elas atravessam os corredores do Posto Avançado em busca de “irmãs”. Cordelia usa o feitiço Vitalum Vitalis em Mallory, Dinah e Coco e as ressuscita. O espectador se pergunta: “Elas eram bruxas, afinal?”, a primeira de várias interrogações. Madison se aproxima de Mallory e solta seu bordão: “Surpresa, vadia! Aposto que achou que não me veria mais.”.

É cafona repetir a frase de efeito clássica da terceira temporada? É! Mas American Horror Story sempre foi cafona e a utilização tem um efeito sentimental perfeito para fechar todos os sentimentos provocados pela chegada das bruxas.

Poucas cenas do seriado deram satisfação tão grande quanto essa. Talvez seria comparável a ver a repórter torturada Lana Winters (Sarah Paulson) fugir com a fita e mandar com um gesto seu raptor Thredson (Zachary Quinto) se foder em “Asylum”, ou a revelação de que a doce Cordelia era a bruxa mais poderosa de todas em “Coven”. Parte dos fãs até havia visto a caminhada das bruxas em teasers e trailers, mas o efeito não é minimizado.

Há uma vibração tão alegre quanto a melodia de “She’s a Rainbow”, nossa nostalgia é estimulada e acariciada. Imagino que mesmo quem não tem a terceira temporada como sua favorita será alcançado pelo efeito. A sequência reafirma que Ryan Murphy acertou ao decidir produzir uma temporada com a volta de duas temporadas populares.

Sim, ver Myrtle, Madison e Cordelia escancara que queiramos assumir ou não, sentimos saudades delas, sentimos saudades das bruxas. E, numa sensação bem pessoal minha de quem cresceu assistindo animações japonesas em que times de garotas mágicas de personalidades diversificadas se unem com seus poderes igualmente distintos para eliminar o mal, perceber que o clã lutará unido contra o Anticristo é uma satisfação de uma fantasia infantil. Levando em conta o alinhamento político de American Horror Story, em prol de minorias e das feministas, é uma versão mítica, bíblica, pop, glamorosa da imagem de mulheres juntando forças para derrubar o patriarcado. Amém, Cordelia, amém, Madison, amém, Myrtle!

Se algum satanista ou supersticioso proclamar que Halloween é um dia do Diabo, ou próprio Michael Langdon pensar isso, podemos dizer que não. Tampouco é simplesmente a data em que os mortos caminham pela terra, segundo a mitologia de “Murder House”. Halloween é e sempre será isso: o Dia das Bruxas. É com essa afirmação silenciosa que o terceiro episódio de “Apocalypse” termina.

Post Scriptum: Mallory é apenas uma bruxa que teve a memória da própria natureza apagada para proteger o plano de Cordelia? É uma feiticeira que ainda não havia descoberto os próprios poderes? Ou ela se tornou uma espécie de “recipiente” para guardar a alma de uma bruxa que conhecemos, o que justifica a frase de Madison? Ela é Zoe (Taissa Farmiga), ela é Fiona? Coco e Dinah são apenas Coco e Dinah? Ou as duas “guardam” Queenie (Gabourey Sidibe) e Misty Day (Lily Rabe)? “Apocalypse” vai ser sempre tão satisfatório de assistir? Como esperar para ter essas respostas?