Review: A origem do Mal em ‘Could it be… Satan?’, 4° episódio de ‘Apocalypse’

Todo protagonista precisa de uma história de origem. No caso dos heróis, há o chamado monomito, uma fórmula que se repete em inúmeros poemas épicos, romances e filmes. Segundo Joseph Campbell, alguns dos estágios iniciais da história típica mostram o personagem principal em seu mundo cotidiano. Então ele é chamado à aventura, consegue ajuda sobrenatural e faz a travessia do primeiro portal até um universo mágico. O mesmo pode ser válido para o vilão? Até mesmo para o Anticristo? O quarto episódio de “Apocalypse”, “Could it be… Satan?” (“Seria… Satã?”) uma trajetória parecida. Vimos parte do gênesis de Michael (Cody Fern).

Quando ele era um adolescente de seis anos de idade e aparência de 16, o mundo cotidiano se resumia à convivência com uma mãe adotiva satânica. Ao contrário do que muitos espectadores supuseram em um episódio anterior, a mulher mais especial da vida de Michael não era Constance (Jessica Lange), sua avó, como muitos espectadores supunham. Em algum momento de sua vida, ele passou a ser abrigado por Mead (Kathy Bates, que parece ter nascido para interpretar lindamente mulheres cruéis), uma adoradora do diabo incapaz de iniciar uma refeição sem sua prece para Lúcifer e sem citar o fato de que é uma assassina em série de maridos.

Essa realidade pacífica mostrada pelo Evangelho segundo Michael foi interrompida com uma manifestação pública do poder do adolescente: um açougueiro insultou Mead e terminou com múltiplas facas fincadas no seu corpo. Apesar de não ter tocado nas lâminas, Michael foi preso e durante uma interrogação violenta, ele também matou o guarda por meio da telecinese. Os incidentes chamaram atenção dos bruxos.

O espectador de American Horror Story desde a terceira temporada estava mais acostumado com uma população de bruxas mulheres. Até o momento, Quentin (Leslie Jordan), um membro do conselho, foi a exceção. A oitava temporada finalmente nos apresenta uma escola dos bruxos. Essa era a função original do Posto Avançado 3.

ALFA
Enquanto fora desse universo, a história ocidental a séculos decorreu em patriarcado, os homens com poderes mágicos estão em um degrau mais baixo na hierarquia em relação às mulheres. Aparentemente a testosterona impede o domínio total da magia. Nunca houve um Supremo, por exemplo. É lógico que a situação é desconfortável para os bruxos. Eles nutrem a esperança de liderar a comunidade mágica por meio de um mito chamado Alfa. Michael com a potência de suas habilidades parece se encaixar nessa lenda e nas conveniências das ambições dos bruxos.

Um detalhe interessante: No penúltimo episódio de Murder House, “Birth“, o médico residente da clínica psiquiátrica onde Vivien (Connie Britton) estava internada avisou o casal Harmon sobre o perigo que uma possível viagem traria para a gestação de Vivien: um dos gêmeos já estava pronto para nascer, mesmo sendo o sexto mês de gestação, enquanto o outro irmão estava mais fraco. O Dr. Marchesi (Steven Anderson) se referiu ao caso como “omofagia intrauterina”, na qual todos os nutrientes importantes estavam sendo consumidos somente pelo feto maior – que viria ser Michael, o qual, no caso, é chamado de Alfa.

Os bruxos Baldwin Pennypacker (BD Wong), Behold Chablis (Billy Porter) e Ariel Augustus (Jon Jon Briones) ficam impressionados com Michael. John Henry Moore (Cheyenne Jackson) desconfia de um caso de possessão demoníaca. Para não perder a chance de ver os homens alcançarem a supremacia, Ariel resolve libertar Michael e levá-lo para a escola. Os bruxos testam os poderes dele e, apesar de o garoto demonstrar ser perigoso, eles insistem em apresentá-lo ao conselho de bruxas.

Se o episódio anterior aguçou a nostalgia com o aparecimento de Cordelia (Sarah Paulson), Myrtle (Frances Conroy) e Madison (Emma Roberts), “Could it be… Satan?” transforma a temporada em uma espécie de Coven 2.0, com direito a estilo de reprise do estilo de filmagem e trilha sonora incidental da terceira temporada.

REVISITAR
Após o final de “Coven”, a Academia Miss Robichaux para Jovens Excepcionais continuou a receber e preparar bruxas de todo o país. Em algum momento, Myrtle voltou da morte na fogueira, o que ainda não foi esclarecido, e auxilia Cordelia a gerir a escola, que podemos perceber que recebeu uma leve repaginada em seu interior. Mas, cá entre nós, sabemos que o real motivo para essa “sutil” mudança no interior, é que não seria possível bancar filmagens em Los Angeles e Nova Orleans – local onde está o prédio usado para abrigar a Academia durante “Coven” –, sem mencionar ainda a dificuldade de mover o elenco entre as duas cidades.

A gente finge que redecoraram.

Entre as novas alunas, logo avistamos Mallory (Billie Lourd), que, como Zoe (Taissa Farmiga, bem mais expressiva que na participação original) nota, tem um poder extraordinário. A rotina da escola é interrompida pelo chamado dos bruxos.

Quando confrontadas pelo pedido de que Michael seja avaliado como um possível próximo Supremo, as bruxas debocham e se recusam. Há uma cisão entre os gêneros, que contraria a história da humanidade. De um lado, os homens buscam um poder maior no grupo. Do outro, as mulheres insistem na tradição e desconfiam da capacidade masculina de liderar. A guerra fria dos sexos entre bruxos e bruxas de certo modo foi antecipada em “Cult”, que em muitos momentos opôs homens e mulheres.

Apocalypse”, que finalmente assume a forma de crossover entre a primeira e a terceira temporada de American Horror Story, faz uma ligação direta com outra temporada. Para se defender da acusação de ser uma líder com favoritas, Cordelia conta que quando percebeu que Queenie (Gabourey Sibide) foi morta – cena mostrada em “Hotel” – ela foi pessoalmente até o Hotel Cortez para resgatá-la. Mais uma vez, a fotografia e trilha sonora são recursos utilizados para resgatar a atmosfera da quinta temporada.

Uma grata surpresa, o flashback também traz a presença de um vilão delicioso de se assistir: James March (Evan Peters), provavelmente o melhor papel do intérprete. Depois de ser assassinada e transformada em fantasma, Queenie ficou presa no Cortez, local que Cordelia descreve como uma boca para o Inferno. Apesar de todas as tentativas, nem o poder de uma Suprema foi capaz de libertar uma alma ligada ao hotel.

Na tentativa de chamar atenção e provar a própria capacidade, Michael vai até o Cortez para resgatar Queenie de volta à vida, sendo reconhecido como uma mescla interessante de vida e morte por March. Ele vai além. Michael também invade o inferno pessoal de Madison, que havia sido morta por Kyle (Evan Peters), também para trazê-la para o mundo dos vivos. Ao ver as duas garotas vivas e ter uma demonstração do poder de Michael, Cordelia não resiste e desmaia.

RITMO
No quarto episódio, “Apocalypse” já desenvolveu e se apoderou de um ritmo bem compassado. Depois de introduzir personagens e cenários novos, a temporada finalmente se torna o que prometia ser, uma sequência de “Murder House” (marcada pela presença do Anticristo) e, principalmente, de “Coven” – a primeira sequência da história do seriado.

Se nem sempre todos os fãs foram convencidos de que a ideia de romper o formato de antologia com histórias de teor e ambientes inéditos, a temporada vem provando que a execução do conceito é deliciosa. Rever personagens marcantes e presenciar um ótimo elenco reincorporá-los como se nunca tivessem rompido esse fluxo de interpretação é um prazer.

Frances, Emma e Gabourey estão perfeitas ao reproduzir suas antigas personagens, com suas atitudes bem peculiares, Myrtle continua excêntrica e eloquente, Madison ainda é desbocada e ácida, Queenie manteve a personalidade forte. Tanto Sarah quanto Taissa interpretam versões mais maduras e poderosas de Cordelia e Zoe, o que também é uma satisfação para os fãs. “Coven” pode ter sido uma temporada que em termos de narrativa deu algumas patinadas, mas é impossível negar que também teve qualidades como personagens icônicas, diversificadas e visualmente interessantes, uma bela fotografia e frases marcantes. É bom revisitar essas características.

A continuação de “Coven” traz melhorias também. Para começar, a terceira temporada demonstrava ambicionar – como era de se esperar de uma história sobre bruxas – celebrar o poder feminino. O clima de rivalidade contamina essa tentativa. Em “Apocalypse”, as bruxas (até o momento) não estão mais em luta entre si pelo poder. Há um Mal maior para ser combatido, o que intensifica a sororidade.

As manifestações dos poderes mágicos são mais interessantes, como é possível ver nas cenas em que rosas mudam de cor e se transformam em borboletas, ou em que a água presente na atmosfera é transformada em neve. Até o senso de humor da temporada parece funcionar melhor e ter um timing mais adequado. A sequência de “Coven” promete ser melhor do a original.

Se por um lado, é mais fácil torcer pelas bruxas – “Apocalypse”, aliás, é a primeira temporada de American Horror Story em anos em que não temos quase a totalidade dos personagens como pessoas desprezíveis a ponto de causar apatia no espectador. Por outro, Michael cada vez mais se mostra um vilão a quem é interessante acompanhar, seja na sua versão adolescente e em exploração dos próprios poderes, seja na versão madura. Cody Fern se prova uma ótima escolha para o papel, com sua aparência angelical combinada com uma capacidade de intimidar e parecer diabólico.

Para os fãs mais antigos (sobretudo, porém não exclusivamente, os que gostavam de “Coven”), “Apocalypse” apresenta o potencial para ser uma das melhores temporadas do seriado. Temos que reconhecer agora que o projeto está se concretizando, revisitar temporadas antigas era exatamente o que o seriado precisava para ser revitalizado. Agora só resta torcer para que a trama não derrape na etapa final.