REVIEW: A ruptura narrativa de ‘Chapter 6’ e o início da segunda metade de ‘Roanoke’

O programa “Meu pesadelo em Roanoke” termina após a exibição de seu quinto episódio. O sucesso resulta na elaboração de um novo projeto, “Retorno a Roanoke”, um reality show envolvendo os principais atores das reconstituições e os protagonistas do caso real retratado. Sabe quando uma sensação do entretenimento é espremida pelos responsáveis até as sequências ou novas temporadas gerarem novas moedas que ocupem vários dígitos? É com a criação de outro seriado dentro de seriado que começa a segunda metade de “Roanoke”.

Pela primeira vez em seis anos, “American Horror Story” teve uma divulgação sem revelar tema e se iniciou com uma narrativa estilizada para se distanciar do drama televisivo tradicional. Os cinco capítulos iniciais da trama funcionaram como uma imitação de documentário. No sexto, há uma outra ruptura no formato, possibilitando uma filmagem que se aproxima do no estilo found footage (filmes encontrados depois do registro em gravações tremidas pela falta do suporte do equipamento em tripés e cenas captadas por câmeras escondidas), em alguns momentos, e de atrações televisivas como Big Brother, em outros. Temos até o uso de confessionário e filmagens em locais inconvenientes.

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O conceito é interessante. Ele brinca com os verdadeiros horrores do exibicionismo e fim voluntário da privacidade produzido por esse tipo de sucesso de TV (Sim, estou sendo sarcástica e falando sério ao mesmo tempo). Há também a possibilidade de comentário social sobre a espetacularização da violência. A estadia dos Miller em Roanoke foi marcada por mortes como a de Cricket (Leslie Jordan) e Mason (Charles Malik Whitfield). Ainda assim, a experiência é explorada duas vezes pelo bem do lucro e da audiência. Essa intenção duvidosa é incorporada pelo produtor dos programas, Sidney (Cheyenne Jackson). Como não tem escrúpulos pela vida humana, ele está disposto a produzir um sucesso mesmo que tiver que ignorar uns cadáveres de sua equipe.

META

O “Retorno a Roanoke” permite o uso de metaficção ao mostrar propositalmente o funcionamento de uma produção televisiva e fazer citações a revista que normalmente abordam a programação da TV, incluindo “American Horror Story”, à apelação do próprio seriado para violência e como isso agrada seu telespectador sedento por sangue, e ao merchandising. A personagem de Kathy Bates possui até um boneco Funko Pop de sua Açougueira no estilo dos que são vendidos todo ano com a aparência dos protagonistas de AHS. Há ainda referências irônicas ao processo de interpretação (com parte do elenco defendendo demais o caráter de sua personagem e os outros atores defendendo de menos os seus).

O episódio causa a estranheza típica de um rompimento com um estilo que ficamos acostumados, mas não teria grandes problemas se não fosse a sua divulgação falha. Andávamos no escuro quando vimos “Chapter 1” (Capítulo 1), porque a campanha da temporada até então era cheia de segredos. Com “Chapter 6” (Capítulo 6), aconteceu algo diferente. Houve o maldito hype

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Em entrevistas, o co-produtor Ryan Murphy a veículos de entretenimento prometeu uma reviravolta surpreendente ao espectador. Como sempre, ele foi superlativo ao descrever o que poderia acontecer. Só que não houve uma surpresa proporcional à expectativa criada. Aliás, quando avisamos que haverá uma mudança que deveria ser surpresa essa diferença não causa espanto. Além disso, com os Miller escapando do casarão, boa parte dos fãs já supunha que atores e envolvidos reais regressasse ao local dos acontecimentos. A campanha antes da estréia de “Roanoke” funcionou bem por falar de menos. Ao contrário, a divulgação do sexto episódio esvaziou parte dos efeitos que ele poderia produzir.

Devíamos estar vacinados. Ryan é reincidente em reviravoltas previsíveis e várias vezes culpado em querer divulgar algo como maior do que era. A explicação para a motivação do Rubber Man foi forçada. A revelação sobre quem era a Suprema foi óbvia. Murphy prometeu que Twisty seria o pior vilão e o palhaço durou poucos episódios, após ter sua aura macabra foi demolida por uma história de origem redentora. Ele disse algo parecido sobre o Demônio do Vício e o monstro foi subutilizado. O co-criador de AHS também criou hype em cima do assassino dos 10 mandamentos e três em cada quatro dos fãs adivinharam quem ele era (ainda que sua construção tenha sido bem-feita, a revelação não foi bem-aceita). Sim, Ryan, guardamos rancor das vezes que fomos feitos de trouxas e temos uma listinha pronta para enumerá-las, intimidade é isso. Até agora a morte de Violet e a identidade do Bloody Face foram as reviravoltas mais eficientes e surpreendentes e, infelizmente, a de “Roanoke” não se une a elas.

EXECUÇÃO

A questão não anula os aspectos positivos, é claro, mas compromete a apreciação da parte informada da fandom. Contudo, a execução da ideia de trocar documentário por reality show é decente. Tivemos cinco episódios para desenvolver uma mitologia e tornar o público acostumado com parte dos rostos e nomes. Já estamos familiarizados com as versões reais de Shelby (Lily Rabe), Matt (André Holland) e Lee (Adina Porter).

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Agora somos introduzidos aos atores que os interpretavam. Shelby era vivida pela atriz inglesa Audrey Tindall (Sarah Paulson). Ela funciona como um alívio cômico com personalidade expansiva, sotaque combinado com expressões britânicas vistas como típicas pela audiência americana, e autoconsciente ao ponto da neurose em relação à visão de outros sobre seu envolvimento com um homem mais jovem, Rory Monahan (Evan Peters). Lee das encenações é a atriz Monet Tumusiime (Angela Bassett, responsável também pela direção do episódio, com boa estreia atrás das câmeras de AHS), que aparentemente desenvolveu alcoolismo com o papel encarnado durante o documentário. E o Matt fictício é Dominic Banks (Cuba Gooding Jr.), ator capaz de entrar o suficiente no personagem a ponto de ter um caso com a Shelby real. Todos topam participar do programa para aproveitar a popularidade de seus papéis, o que inclui a presença de Rory na bagagem de Audrey.

Há tensão entre os intérpretes e os personagens reais. Audrey acha que Shelby é idiota e a interpretou propositalmente como patética. Shelby demonstra inveja do relacionamento novo de Audrey que acontece paralelamente ao fim de seu casamento. Matt e Dominic se odeiam por motivos óbvios de rivalidade amorosa. Monet acredita que Lee é culpada pela morte do ex-marido e não se esforça para disfarçar a condenação. Reality shows são conhecidos por apelar para esse tipo de conflito, ou seja, temos um ingrediente para ataques verbais ou até físicos do jeito que o consumidor médio de TV ama. Isso combina também com o roteiro típico de “American Horror Story”, conhecido pelas frases fortes de alfinetadas de uma pessoa na outra que o fã típico da série ama.

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As alusões ao retrato irreal das personagens abre possibilidade para vermos Matt, Shelby e Lee como mais humanos do que na época do documentário. Eles vão agir de forma crua, não ensaiada e sem o filtro da visão de um elenco sobre quem eles eram. Há espaço para André, Lily e Adina brilharem mais do que durante entrevistas com enquadramento enfocado acima de seu tronco. A verdade é que eles parecem mais pessoas de carne e osso com emoções fortes, enquanto os atores que os interpretavam e que zombam deles parecem quase caricatos ainda.

Porém, há algo incômodo quando se pensa nos personagens. O segundo maior problema do episódio é que continuamos a ter que ignorar outra vez o quanto é implausível a permanência dos três naquela casa. Os atores vão até lá por interesse e por não acreditarem no aspecto sobrenatural da história, mas por que diabos os Miller voltariam para lá depois de viver um inferno naquela floresta e naquele casarão? A única resposta coerente é que (repito o que já disse em outras reviews) estamos diante de narradores pouco confiáveis, talvez menos confiáveis do que um certo produtor de seriados do mundo real em suas entrevistas.

MORTES

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Outro ponto que foi decepcionante é o novo personagem de Evan Peters. Em um episódio podemos nos apaixonar por Edward Mott. O ator conseguiu transmitir a complexidade do primeiro proprietário da casa. Ele era louco, histérico, mas também tinha seus tormentos e suas sensibilidades. Rory é apenas bobo em um grau ridículo – e Murphy havia comentado que o personagem foi a coisa favorita para ele que Peters já fez, o que é uma ofensa a March, Kit, Tate e ao próprio Edward. Vejam o hype atacando outra vez. Por isso, não deu para sentir tanto quando Rory foi morto pelas fantasmas reais das irmãs enfermeiras. A palavra “Murder” (Assassinato) pichada na parede, antes incompleta, ganhou seu “R” e isso tornou a morte do personagem um pouco mais interessante. Aliás, olá, Evan, tchau Evan!

Se na primeira metade da temporada tínhamos certeza da sobrevivência dos protagonistas, já que eles estavam ilesos o suficiente para dar entrevistas, ninguém mais é um spoiler ambulante sobre o próprio desfecho. A situação foi invertida com a utilização de um letreiro que avisa que todos os envolvidos morreram, com a exceção de um. Temos um novo mistério no estilo “Quem é a Suprema?” da terceira temporada. No caso atual não existe disputa de poder, há uma curiosidade em descobrir quem sobreviverá, o que remete às eliminações de reality shows e à tradição dos filmes de terror slasher em contar com uma “final girl”, uma única personagem a não ser morta.

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Os sustos continuam a afetar o telespectador. Exemplo disso, é como Piggy Man ainda é um monstro bem utilizado e Kathy Bates ainda é deliciosamente ameaçadora. Monet ão foi a única afetada pelas gravações. A intérprete da Açougueira que se chama Agnes enlouqueceu ao ponto de acreditar ser a personagem (ou esta possuída, o que não seria de se espantar em AHS). Ela é banida da produção por Sidney, depois de ele explorar sua imagem pela última vez ao exibir como a produção do documentário afetou seu estado mental. Isso não a impede de invadir o local de gravações, desequilibrada como bem gostamos.

VEREDITO

De forma geral, o episódio foi o mais fraco em uma temporada que teve cinco capítulos sólidos nas semanas anteriores. A decepção com a suposta plot twist é um dos motivos. A quebra no ritmo ascendente da trama e a substituição do tom sóbrio pelo cômico são as outras razões.

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Passadas as frustrações, “Roanoke” continua com potencial para perturbar e servir uma boa história. Agora ninguém está a salvo, podemos conhecer as verdades sobre o que os Miller contaram, há conflitos entre os participantes do programa, e as ameaças ganharam os acréscimos de uma atriz ensandecida e a ambição cega de um produtor. Com a possibilidade de qualquer um morrer e o mistério de quem viverá, temos uma promessa de intensificação do ar de suspense. Que ela se cumpra melhor do que os hypes de Ryan Murphy.