Review: a visita do Anticristo em ‘The Morning After’, 2° episódio de ‘Apocalypse’

Embora ela não seja nomeada por escrito, a mitologia cristã associa a serpente do pecado original a Satã. É ela quem seduz Eva e Adão a consumir o fruto proibido. Os roteiristas de American Horror Story desconhecem o significado da palavra sutileza, e “The Morning After” (“A Manhã Seguinte”), segundo episódio de “Apocalypse” é a prova disso.

A cena inicial já apela para a simbologia religiosa para destacar a presença demoníaca no Posto Avançado 3. Recapitulando: o episódio anterior foi encerrado com a chegada de Michael Langdon (Cody Fern), o Anticristo do universo da série. No início do episódio, ele se manifesta por meio de uma infestação de cobras, que ao serem mortas, picadas e cozidas, voltam à forma viva.

Talvez seja redundante falar disso em uma conversa de fã para fã, mas não custa reiterar: ver Michael Langdon em sua forma adulta é um antigo sonho de quem acompanha American Horror Story. Esse desejo é provocado desde metade de “Murder House”, inicialmente exibida em 2011, quando a enfermeira entrou em pânico ao ver cascos no feto de Vivien (Connie Britton).

A espera de quase oito anos valeu a pena. Michael é uma bela encarnação da divindade do Mal. Ele tenta humanos a pecar, explora suas fraquezas, atrai sexualmente, é cruel, espalha o caos. Cody Fern vende bem essas características de um Anticristo numa atuação confiante, dominadora e andrógina. Ele não é agradável para os outros personagens, já que se apresenta como uma espécie de juiz que pode conduzir a um Santuário ou condenar todos à morte, mas é sedutor e capaz de manipular. Michael não se diverte como uma criança com as infrações que provoca, como o Diabo de “Asylum“, porém é possível vê-lo se deliciar com a confissão de pecados e vergonhas. Ele até mesmo domina a cena durante monólogo sobre uma mãe com filhos afetados pela radiação, durante o qual aparenta se emocionar com o sofrimento da família, apenas para exibir um alto grau de indiferença em seguida, como se jogasse com os personagens e com o espectador. A cada interação ele produz dúvidas e conflitos. Você é capturado pelos movimentos frios de Michael, sabe que está diante do mal encarnado, sente a ameaça na pele, porém quando percebe já está atraído. É assim mesmo que deveria ser o efeito de estar em contato com Satã.

ADÃO E EVA
Michael tem em suas mãos três grupos de vítimas diretas. Não há nada de sutil no seriado, por isso não é de se surpreender que os primeiros sejam o Adão e a Eva de Posto Avançado 3, Timothy (Kyle Allen) e Emily (Ashley Santos). O casal de genética perfeita encontra as serpentes de Michael antes de todos.

No Gênesis, a serpente convence a Mulher e o Homem a contrariarem Deus comendo o fruto da árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Depois disso, eles são despertos para a malícia e notam que estão nus, uma metáfora bastante simples para a descoberta sexual.

Na série, Michael deixa uma isca no próprio quarto para Timothy e Emily: um notebook da Apple (“maçã” em inglês, fruta normalmente associada com o pecado original) que contém e-mails sobre as mentiras de Venable sobre as regras da Cooperativa em proibição de relações sexuais. Eles são logo convencidos a contrariarem a líder do Posto Avançado. Até então tiveram um romance casto, porém o Conhecimento do Bem e do Mal os deixa livres. Os paralelos não são óbvios?

Após o pecado, Adão e Eva são expulsos do Paraíso. Após o sexo, Timothy e Emily são levados para a execução.

FAMÍLIA
Os segundos alvos de Michael são Evie (Joan Collins) e Gallant (Evan Peters), avó e neto – e não é de se surpreender que o Diabo se entretivesse criando intrigas entre familiares. Após o anúncio de que todos os sobreviventes serão entrevistados para que aqueles que se mostrarem aptos possam se identificados e levados para o Santuário, um local onde estariam mais protegidos, Gallant é o primeiro a se candidatar.

Michael logo se mostra interessado em inflamar o ódio e as carências do entrevistado. O Anticristo é onisciente, como deixa claro, mas incentiva Gallant a confessar que detesta a avó, que se sente humilhado por ela ao se ver quase forçado a se adequar aos padrões de comportamento que Evie prefere. O episódio dá um pouco mais de profundidade ao cabeleireiro que até então havia sido mais um dos muitos alívios cômicos da temporada.

Gallant também se mostra excitado com a presença de Michael. O Anticristo o trata como uma presa sexual, o que é óbvio, não porque estamos falando do Diabo e da luxúria, mas porque estamos falando de American Horror Story e o do estilo psicossexual do seriado.

As interações entre Gallant e Michael oferecem uma abertura para a introdução (não estou usando trocadilhos) de um antigo elemento de “Murder House”: o Rubber Man. Na primeira temporada, o homem com a roupa preta de borracha nada mais era que Tate (Evan Peters), o pai de Michael. Em “Apocalypse”, ficamos na dúvida. A entidade sexual com roupagem sadomasoquista aparece no crédito como “Shadow” (ou seja, Sombra). Ele pode ser uma manifestação de Michael, pode ser um espírito controlado pelo Anticristo – e esse espírito pode ser de Tate, o que seria doentio. Será que assistimos a uma cena em que um personagem do Evan Peters transa com outro personagem de Evan Peters, controlado pelo próprio filho? American Horror Story dessa vez foi longe demais?

Gallant confunde o Rubber Man com Michael, que nega – “não foderia você nem que você fosse o último homem vivo”. Há mais camadas em Gallant. Ele poderia ser apenas mais um personagem conduzido pela própria libido, porém a carência dele não é por sexo, é um desespero por ser amado. É por isso que, sem saber, ele entrega o próprio corpo e a própria alma ao que imaginava ser o Anticristo. Michael sabe explorar também essa fraqueza, o humilhando-o.

Evie flagra o neto e aproveita a oportunidade para denunciá-lo. Em seu raciocínio, egoísta, se Gallant for executado, ele é um concorrente a menos a uma vaga ao Santuário. Michael revela a traição da avó ao neto, e depois usa de uma alucinação para que Gallant mate Evie. O Diabo é conhecido por mentir, Michael atua também com o uso de ilusões.

PODER
A outra vítima do Anticristo é Venable. Até então, ela foi a maior autoridade do Posto Avançado 3, a ponto de abusar do poder com sadismo. A dinâmica é interrompida com a chegada de Michael. Ao expor, as mentiras de Venable a Timothy e Emily, ele já começa a minar seu poder.

Michael vai além. Ele ataca a vulnerabilidade de Venable. Como uma clássica vilã ou anti-vilã de American Horror Story, a personagem de Sarah Paulson esconde um trauma: ela poderia até se comparar às personagens ambíguas de Jessica Lange. Constance parecia forte, porém sofria ao ter filhos com anomalias – físicas ou psicológicas. Jude era autoritária, porém sofria por ter atropelado uma criança. Fiona era quase uma Rainha Má, porém sofria com o envelhecimento e a consciência de ser substituída por alguém mais jovem. Elsa Mars liderava o circo com crueldade, porém sofria com a amputação das próprias pernas e a ideia de que jamais seria reconhecida por sua música.

Venable esconde uma característica que poderia humanizá-la. Ela possui uma protuberância nas costas, como uma espécie avançada de escoliose ou curvatura anormal na coluna. que a deixa corcunda. Michael a obriga a expor esse fato, quase a beija e a enfraquece.

O Anticristo sinaliza a intenção de executar Venable e Gallant. Ou talvez, a todos. A verdade é que Michael domina o episódio, ainda que a revelação do final não gire em torno dele. A punição de Timothy e Emily resulta em um tiroteio no qual Mead (Kathy Bates) é atingida. O ferimento revela que ela é um ciborgue ou robô. Alguém mais seria? Como a robótica se enquadra na temática da história?

The Morning After” alimenta novas perguntas. O episódio apresenta também uma evolução na trama em relação ao anterior. Há mais tensão, há um leve aprofundamento dos personagens, acabamos mais acostumados com o cenário e Michael é prazeroso de se assistir. Se Cody Fern é o destaque de episódio, Evan e Sarah brilham nas cenas mais dramáticas de seus personagens, principalmente quando eles se torna mais vulneráveis e menos caricatos.

POST SCRIPTUM
Não podemos deixar de comentar as músicas que tocam no episódio. É engraçado ver Evan Peters como foco em uma cena em que a trilha sonora é “Time in A Bottle” do Jim Croce. A canção toca na cena mais conhecida de Mercúrio em “X-Men: Days of Future Past”, personagem do ator na franquia.

Outra música de destaque no episódio é “Gold Dust Woman”. A canção é de Fleetwood Mac. O nome soa familiar? O trabalho da banda tocou muito em “Coven”, principalmente porque a vocalista Stevie Nicks era o ídolo de Misty Day (Lily Rabe), além de ser uma bruxa no universo da série. Será uma mensagem sobre a volta das bruxas?

Novos episódios de American Horror Story: Apocalypse estreiam no FX USA quartas-feiras, às 23h00. No Brasil, a série passa no dia seguinte no FX Brasil, às 16h00. Para receber novidades diárias sobre American Horror Story, siga-nos também no FacebookTwitter Instagram.