Review: As relações maternas em ‘Mommy’, terceiro episódio de ‘Hotel’

Maternidade é um tema central recorrente em histórias fictícias de terror, como você cinéfilo bem se recorda. O gênero é povoado por figuras maternas de instinto destruidor. As atitudes abusivas da mãe religiosa fanática Margaret White, de “Carrie, a Estranha” (1976) são sua característica mais memorável. A motivação homicida de Pamela Voorhees, de “Sexta-feira 13” (1980), é o tratamento cruel dispensado a seu filho Jason. Apesar de não aparecer em vida, a Sra. Bates de “Psicose” (1960) assombra o filme como uma entidade onipresente que influencia seu filho tomado por uma síndrome de Édipo, Norman. Em campo oposto, as mães mais benevolentes sofrem no universo do horror. Laura, de “O Orfanato” (2007), Wendy Torrance, de “O Iluminado” (1980) e Diane Freeling de “Poltergeist” (1982) atingem estado de desespero em apreensão quando seus filhos têm seu bem-estar ameaçado, pelo sobrenatural ou não.

O vínculo mãe-filho tem impacto bilateral na psicologia dos envolvidos e não por menos inspira teorias psicanalíticas há seculos. Por esse motivo e para manter a tradicional presença materna das tramas de terror, o terceiro episódio de “Hotel” explora os instintos maternais de suas personagens principais, como o título “Mommy” (“Mamãe”) já indica. Tanto Alex (Chloë Sevigny) quanto Iris (Kathy Bates) têm suas vidas definidas pelo seu histórico como mãe e as narrativas principais da terceira parte da temporada ressaltam isso.

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Nos dois episódios inicias, Alex foi uma mera coadjuvante. Nós a conhecíamos superficialmente. Tratava-se da esposa do detetive John Lowe (Wes Bentley), uma pediatra aparentemente workaholic  pouco tolerante com pais negligentes de seus pacientes e uma mãe com um filho desaparecido. Um monólogo nos introduziu à sua mentalidade. Em tom confessional, Alex se despe. Sua honestidade cria uma impressão de intimidade no telespectador. Ela revela um apego incondicional por seu primogênito, Holden (Lennon Henry), que sumiu durante um passeio familiar em parque de diversões cinco anos antes. Alex manifesta aspectos menos admiráveis de seu histórico, como a incapacidade de se conectar no mesmo nível com seu marido ou com a filha mais nova, Scarlett (Shree Crooks). O amor por Holden a consome, sem espaço – emocional e físico – ao seu lado reservado para John.

É agradável ver Chloë encarnar uma personagem tão diferente da ninfomaníaca Shelley, sua personagem em Asylum. Seu olhar e sua voz são carregados de raiva e tristeza. Alex é uma mãe contemporânea, dividida entre trabalho e família. É uma mulher forte, franca e inteligente o que é um outro alívio quando se pensa que poderíamos ter de conviver com uma reprodução da frágil e desorientada Wendy Torrance. Ela só se permite perder a sensatez em um flashback, quando a angústia pela perda de Holden a estimula a tentar suicídio.

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Alex não estava sozinha, por isso foi salva por seu marido no passado. Por sua vez, Iris convive com a extrema solidão. Ela se distanciou do pai de Donovan (Matt Bomer) por temer expor seu bebê a má influência. A atual gerente do Hotel Cortez não é uma pessoa simpática, não é acompanhada por grandes amigos. Assim como Alex, ela respira em função seu filho. Desistiu de uma vida normal para conviver com assassinatos, cadáveres, fantasmas, vampiros e seu maior horror, drogados. Tudo para poder olhar seu Donovan de vez em quando.

Sua retribuição é rejeição. O filho começou a se drogar para se distanciar dela, tentou uma overdose para se ver livre da mãe, e a trata com agressões verbais que a induzem a intenções suicidas. Iris não tem mais ninguém, então quando aceita a sugestão pede cumplicidade de sua maior inimiga, Sally (Sarah Paulson). Era uma vez há quase dois anos, Kathy Bates nos fez chorar enquanto interpretava uma escravocrata cruel em aparentes breves momentos de remorso. Sua atuação diante da hostilidade do filho é novamente capaz de comover, embora Iris tenha moral bem duvidosa. Ao final de sua trama do episódio, a dinâmica entre mãe e filho é renovada com uma simbiose invertida e curiosa.

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Além dos paralelos da história das duas mães, o episódio é marcado pela apresentação a Ramona Royale, tão esperado por fãs pelo fato de a personagem ser interpretada pela sempre fantástica Angela Bassett. Da mesma forma que o estilo de Sally indica que ela morreu nos anos 1990, o figurino e penteado de Ramona revelam que de alguma forma ela está paralisada na década de 1970. Na época ela foi uma rainha de um subgênero de filmes B, chamado blaxploitantion. Se você não está familiarizado com o nome, é assim que eram chamados os longas-metragens produzidos e interpretados por negros para o público negro. As trilhas sonoras de funk e soul, as tramas sobre crimes, ação com ares marciais e até terror conquistaram público ultrapassou qualquer limitação de público-alvo e influenciou diretores de outras décadas como Quentin Tarantino (pensou nele quando ouviu a sonoplastia da cena fictícia de Ramona como atriz, não foi?). Seu filme “Jackie Brown” (1997) é protagonizado pela verdadeira estrela do blaxploitation Pam Grier, conhecida por clássicos do subgênero como “Foxy Brown” (1974) e “Os Gritos de Blácula” (1972). Ela é uma possível inspiração para a personagem de Angela Bassett.

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Ramona não se limita carreira de atriz. A razão pela qual suas roupas e cabelos remetem aos anos 1970 é porque foi naquela época em que a Condessa (Lady Gaga) se tornou sua amante e a transformou em vampira. A relação entre as duas é interrompida quando a atriz se apaixona pelo rapper Prophet Moses (Jason Scott Jenkins), o torna vampiro. A resposta de Elizabeth é um tiro na cabeça do rival. Agora Ramona surge para se vingar, recrutando Donovan. E para atingir a Condessa ela mira seus filhos, o que toca novamente na temática de maternidade que ecoa pelo episódio. Até agora não vimos uma demonstração de afeto de Elizabeth pelas crianças, mas tudo indica que elas lhes são preciosas. Ela os raptou, adotou e os explora como filtro para sangue poluído. Se Alex encarna o arquétipo de mãe sofredora, Iris o de mãe obcecada e super protetora, a Condessa até agora se aproxima de uma espécie monstruosa das figuras maternas do terror.

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Coincidentemente ou não, o episódio que explora a temática da maternidade foi aquele que tornou evidente que em mais uma temporada as personagens femininas escritas por Ryan Murphy têm personalidades dominantes que os seus pares masculinos. Os dois amantes homens mais recentes de Elizabeth também são mais fracos que ela. Donovan é um perdedor, tanto que quando resolve atacar Ramona, ele se torna sua presa. Tristan (Finn Wittrock) é infantil, pouco inteligente e desiste de seus planos com o primeiro gesto de sua criadora. Ela parece influenciar e seduzir também o estilista gay Will Drake – ou estaria ele atuando? A verdade é que até agora o personagem de Cheyenne Jackson é o mais apagado da trama até agora.

No núcleo do casal Lowe, enquanto Alex é decidida e independente, John se mostra dependente e confuso, questionando a própria sanidade em diferentes momentos. Ele ainda é o mais submisso dos dois, aceitando inclusive que ela o coloque em segundo plano em relação a Holden. Alex parece ter domínio e conhecimento de como funciona a própria mentalidade, inclusive dos aspectos menos apreciáveis. John passa a impressão de ser menos autoconsciente, a ponto de dar abertura para criações de teorias sobre sua participação nos crimes dos Dez Mandamentos. É só quando ele descreve os assassinatos que presumivelmente não teria presenciado que sua voz é mais confiante. Ou ele é um bom profissional (empático com serial killers como o Will Graham da série “Hannibal”) ou não está consciente do fato de saber detalhes que só o autor dos homicídios poderia saber. Ryan pode nos surpreender e transformar o John na nova Lana. Mas outros fatos fortalecem a especulação: Iris o chama de “policial” quando o vê (talvez um sinal de que ele já esteve pelo hotel), Sally o provoca com o termo “Dez Mandamentos”, o assassino diz que estará no quarto 64 e a única pessoa presente nele agora é o próprio detetive. No próximo episódio, como a promo mostra, John será convidado para um banquete frequentado apenas pelos maiores matadores norte-americanos. Suspeito! Será uma vítima ou um colega? O roteiro lança dicas e pegadinhas para a alimentar a curiosidade do espectador, o que não acontecia há algumas temporadas.

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Talvez o menos agitado episódio até o momento, “Mommy” foi eficiente em avançar a trama, explicar pontos da mitologia como o fato de mortos voltem como fantasmas quando têm assuntos pendentes, introduzir a antagonista de Elizabeth (e, por extensão, de Alex e John, por ameaçar seu filho), preparar terreno para o promissor episódio de Halloween e exibir cenas sensuais – hetero e homossexuais – que certamente parecerão provocantes para o desagradável Conselho dos Pais para a Televisão (Curiosamente, a mais sexy entre elas é a com menor grau de consumação e nudez, protagonizada por Sally e John.)

  • Antônio Soares

    Não me surpreenderei, se o John for o assassino dos 10 Mandamentos, na verdade ficarei decepcionado, pois a série já mostrou essa proposta em outra temporada. Espero que essas dicas sejam para trazer dúvida nos mais despercebidos. Enfim, ótima review. : ) ^.^

  • Douglas Ibanez

    Também comecei a achar que ele é o assassino dos Dez Mandamentos. Podemos ver que há uma sede por controle por parte dele – ele nem é alcoólatra mas não bebe para manter o controle sobre suas ações. Há um vício em John que ainda não foi efetivamente revelado: pode ser o vício por controle, ou o vício por matar pessoas, caso ele seja mesmo o assassino. De qualquer forma, o Demônio do Vício aparecer em determinados momentos enquanto ele se deixava seduzir por Sally, como se ele estivesse vindo aos poucos, me faz concluir isso.

    Outro ponto interessante é sobre o próprio Demônio do Vício. Tenho a teoria que ele é parte da Sally. Ela era viciada em heroína por motivos X. Buscava nas drogas um meio de sentir algo! Quantos dependentes químicos não são iguais? Ao morrer, essa característica se manteve e ela voltou com o “vício” de sentir o que os outros sentem. Ela não pode mais se drogar, já que é uma alma penada, mas absorve os sentimentos dos outros. Mas a questão fica… e o vício de fato? Aquela parte obscura que mantém a pessoa no ciclo doentio, lhe tira a sanidade e consegue levar a pessoas para o mais podre? O vício de Sally também voltou, só que personificado no Demônio do Vício, que ataca as pessoas quando elas demonstram seus vícios, que não precisa ser, necessariamente, por drogas, mas como em matar, bebidas ou sexo.

  • Douglas Ibanez

    PS: espero ver mais de Liz Taylor. Ele pouco fala, mas só o pouco que diz ou faz já dá um brilho incrível! <3 Liz e Sally se tornando meus personagens favoritos dessa temporada. Iris é a personagem que mais gostei da Kathy Bates na série até agora. Ela tem profundidade e um desenvolvimento mais complexo do que as suas duas últimas. Só espero que o fato dela virar vampira não estrague isso. Em determinados momentos Iris me lembra o personagem da Kathy, Annie Wilkes, em "Misery". Há uma psicopatia resguardada nela. Porém, Iris é muito mais amargurada, mais velha e mais vivida. Além de ser mãe, o que dá o toque final em seu personagem. Gosto muito. É como se a qualquer momento Iris fosse despertar a Annie Wilkes que tem dentro dela, mas que ainda não conhecemos devido sua fachada de "mãe super protetora". Não levo as palavras de Donovan como apenas mágoas de filho que não entende sua mãe, acho que existe muito mais de algo mais doentio em Iris que ainda vamos conhecer.

  • Esse diretor é foda demais, e não sei como vocês conseguem perceber essas reviravoltas. Até então, antes de ler essa análise, taxava o John como um inocente e perdido e como vítima naquele banquete, porém, depois que fui ler essa análise, minha percepção mudou toda. E o engraçado é que tudo bate, e tudo pode fazer sentido. Grande teoria. [Julgo teoria pois não sei se isso é apenas um visão de sua opinião ou é certeza.]

    Depois dessa análise, vou passar a prestar atenção em John, pois não é a toa que ele fez parte desse banquete.

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