Review de ’11/9′, o quarto episódio de ‘Cult’

Susan Atkins era uma jovem californiana de 21 anos, em 1969. No verão daquele ano, ela participou de nove assassinatos. Os atos incluíram apunhalar uma grávida de oito meses. A motivação? Atiskin fazia parte de um grupo encabeçado por um homem conhecido como Charles Manson, que ela qcreditava ser uma espécie de messias. Assim como outros seguidores do mesmo líder, a jovem foi convencida a tentar criar uma revolução, uma guerra racial apocalíptica por meio dos crimes. Por que pessoas como Atkins se tornam parte de seitas? Por que elas matam em nome desses cultos? O quarto episódio de “Cult”, “11/9” (“9 de novembro”), busca dar uma pista que pode responder essas questões.

O título faz referência a uma noite crucial para a história recente dos Estados Unidos: a data da última eleição a presidentes. Os personagens principais da temporada preenchem cédulas para escolher um chefe de estado. Embora alguns poucos personagens procurassem uma terceira via (ou outros, como a Meadow de Leslie Grossman estivessem se lixando para a ideia de fazer qualquer escolha), aquela foi uma noite de polarização entre os apoiadores da candidata democrata, Hillary Clinton, e os eleitores do candidato republicano, Donald Trump. Ambos os lados eram movidos pela paixão, como a repórter televisiva Beverly Hope (Adina Porter) narra em uma gravação frustrada de chamada para o noticiário. A ficção reflete o clima da realidade naquela noite.

A sequência mostrada no seriado ganha tons mais insólitos quando um homem (Gary, interpretado por Chaz Bono) se aproxima das urnas com uma hemorragia. O sangramento não o impede de votar, tamanha é sua necessidade de demonstrar voz ativa. Depois de demonstrar apoio a Trump, ele exibe o punho recém-mutilado. Antes de mostrar como Gary foi convencido a decepar a própria mão, o episódio exibe a atração exercida pelo discurso de Kai (Evan Peters) a outras pessoas.

HUMILHADOS E OFENDIDOS
Ele tem um objetivo que deixa claro sempre possível – dominar o mundo. Para isso, Kai está disposto a começar com pequenos passos. Primeiro quer um assento no Conselho Municipal e em paralelo a constrói uma seita secreta. As falas de Kai nem sempre são coerentes. Na maior parte das vezes, o seu discurso motivacional se compara a uma versão assustadora de um livro de autoajuda. Contudo, as frases são estudadas antes de pronunciadas. As palavras se adaptam ao ouvinte, formam um conjunto de estímulos que eram exatamente o que os homens e mulheres com quem Kai dialoga queiram ouvir. Até a história de sua formação acadêmica é modificada conforme a conveniência. E a atuação de Evan Peters se encaixa ao personagem. Ele parece genuinamente gentil, então se torna intenso, vira obsceno, e se revela perturbador. Seu olhar transmite a loucura que move Kai.

Analisados por uma pessoa racional e distante do contexto das cenas, os monólogos de Kai soam vagos e até absurdos. Mais do que apresentar um conteúdo sensato, ele apela para a emoção. Nisso, a atuação dele se assemelha a líderes reais de cultos a personalidade.

Para citar um exemplo usado pelo próprio personagem no segundo episódio da temporada, foi assim que o povo germânico abraçou o nazismo algumas décadas depois de perder a Primeira Guerra Mundial. As ideias defendidas por Adolf Hitler na década de 1930 não traziam planos bem estruturados para solucionar os problemas de desemprego e a crise econômica que afetavam a Alemanha. Mas ele sabia despertar sentimentos com o tom de voz, com a gesticulação e principalmente, fazendo que pessoas de uma nação que estavam humilhadas por um tratado pós-guerra e afetadas pelo medo de uma revolução comunista passassem a se sentir fortalecidas com nacionalismo e com o apontamento de bodes expiatórios para todos os seus problemas.

Outro que atraía pessoas fragilizadas era Charles Manson. Susan Atkins dizia que era filha de um casal de alcoólatras. Ela perdeu a mãe na adolescência devido a um câncer, foi abandonada pelo pai logo depois, o que a obrigou a morar com parentes e a mudar de casas com frequência na juventude. Outra seguidora de Manson, Leslie Van Houten foi forçada a fazer um aborto contra a própria vontade pela mãe. As crises familiares a ajudaram a se envolver com drogas na adolescência. Outro membro da família Manson, Patricia Krenwinkel sofria bullying de colegas da escola e tinha baixa autoestima por ser atacada por características físicas, como o sobrepeso e o excesso de pelos no corpo. Assim como Kai, Manson convencia as outras pessoas a matarem pela revolução que ele propunha.

Kai também escolhe pessoas frustradas, que se identificam como oprimidas e provoca nelas a sensação de serem mais fortes ao seu lado. Ele é capaz de tudo por elas, para afastar seus temores. Kai sabe, como ele mesmo diz, que nada é mais perigoso do que um homem humilhado. O jovem escolhe a dedo as pessoas a quem motivar, porque ele sabe que elas são vulneráveis a suas manipulações e podem se tornar seus seguidores. Ao contrário do que poderíamos esperar pelos primeiros episódios, ele não procura simplesmente o eleitorado de Trump, Kai não discrimina seus escolhidos por tom de pele, orientação sexual ou preferência política. Ele optam por quem precisa se sentir especial.

RECRUTAMENTO
Harrison (Billy Eichner) é um desses alvos. Ele é oprimido por um chefe estúpido no trabalho como instrutor em uma academia. Fora do expediente, Harrison está preso a um casamento sem amor com uma mulher, embora seja gay. Apesar de ter força física o suficiente “para carregar um cadáver”, ele é uma presa fácil que precisa de alguém otimista e forte que o apoie. Kai o escolhe como treinador e se torna essa pessoa. Ao oferecer incentivos a Harrison em um momento de extrema fragilidade e medo de perder a própria casa, o personagem de Peters o convence a matar o próprio chefe. O crime os liga e os atrai. Kai é o demônio que sussurra no ombro de suas vítimas e o instrutor de academia aceita se tornar seu fiel.

Abocanhar Harrison e torná-lo dependente significa levar sua esposa, Meadow como brinde. Ela é a típica pessoa alienada politicamente, viciada em entretenimento, com autopiedade e frustração sexual, porém é capaz de tudo para estar ao lado do marido. Eichner e Grossman continuam a ser um dos pontos mais fortes da temporada com suas interpretações deliciosas, oscilando entre o trágico e o cômico.

Kai vira seus tentáculos também para a repórter televisiva Beverly Hope. Embora seja competente e lute em busca de credibilidade, ela é preterida por uma colega menos profissional e mais disposta a utilizar atributos físicos e a própria sexualidade para construir uma carreira. Por ser mulher e negra, Beverly tem um histórico de humilhações. A mais recente delas foi ser alvo de uma série de interrupções em transmissões ao vivo por homens que zombam de mulheres imitando o discurso misógino e relativizador de assédio sexual de Donald Trump. Beverly se descontrola e exibe toda a raiva acumulada atacando fisicamente um deles.

O ódio, a humilhação, a necessidade de apoio também a tornam um alvo apropriado para Kai. Ele se mostra alguém que diz a ela que acredita nela, a fala que a repórter mais precisava ouvir. Como pessoa da mídia, Beverly também pode divulgar a mensagem de Kai e espalhar medo para que ele se apresente como a solução contra a insegurança. Adina Porter rouba cena como fez em “Roanoke”. Ela mostra mais uma ver que é uma atriz que transmite todas as emoções da personagem com naturalidade.

O bloco protagonizado por Beverly traz outro rosto querido para fãs de American Horror Story: Emma Roberts, que dá vida à rival de Beverly, Serena. Porém, a participação é um agradinho aos espectadores mais pelo histórico em outras temporadas. Infelizmente, mais uma vez Ryan Murphy dá a ela um papel de jovem megera, superficial e desagradável, que ela assume competentemente, mas sem a possibilidade de versatilidade. Serena serve apenas para ser irritante e para ser o estopim para a união de Kai e Beverly. Ele utiliza a própria seita para matar o empecilho na vida da personagem de Adina Porter, recrutando-a para o grupo.

MAGNETISMO


Não é só Kai que possui um magnetismo. Sua irmã Winter (Billie Lourd) também é envolvente e se adapta às necessidades daqueles com quem interaem, Para quem está acompanhando “Cult”, a sequência de cenas da qual ela participa traz uma surpresa. Winter conhecia Ivy (Alison Pill) antes de ser contratada por ela como babá. As duas se encontraram pela primeira vez em uma manifestação de apoio a Hillary Clinton, um dia antes da eleição. Democrata, Ivy discute com o republicano, Gary, e é fisicamente assediada por ele. Winter a defende.

Ivy se sente frustrada dentro do casamento com Ally (Sarah Paulson). Ela se considera insuficientemente apreciada. Ivy sempre é mais forte e precisa ser o suporte da esposa frágil. Ser defendida por Winter em um momento de fraqueza é confortável. As duas se unem pela visão política, pelo apoio e pela cumplicidade em um ato inusitado. Ivy e Winter prendem Gary para que ele não possa votar.

O episódio também dá um vislumbre da dinâmica misteriosa entre Kai e a irmã. Ela mais uma vez parece temê-lo, porém os dois agem da mesma forma perturbadora e parece atuar de modo coordenado. Kai segue indicações de Winter até Gary e o convence a cortar a própria mão para votar.

Embora seja fiel ao tom satírico e psicológico da temporada, “11/9” se distingue dos outros episódios por deixar Ally em segundo plano, o que foi louvável. Finalmente vimos a seita em formação e atuação. Kai como coprotagonista continua a ser um ser humano detestável, porém é um personagem mais interessante de se assistir. Vê-lo começar a ser desenvolvido e ganhar camadas foi satisfatório. Ele tem um objetivo maior do que simplesmente ser um eleitor de Donald Trump. Começar a ser desenvolvido, porque ainda é possível ampliar seu arco de personagem e explorar melhor o poder do fascínio que ele exerce nas pessoas.

O episódio também humanizou – ainda que em situações extremas e repleta de situações macabras – outros personagens que entretêm quando em cena (Harrison, Meadow, Beverly e Ivy são coadjuvantes intrigantes). A temporada ainda passa a impressão de precisar de um toque a mais para absorver totalmente o espectador, como se faltasse uma peça para a história se tornar totalmente forte, porém a cada novo capítulo a trama fica mais envolvente e mostra o poder de um culto diante de pessoas vulneráveis, com medo e humilhadas.

  • Lucas Alves

    O que eu não entendi foi o fato do final ter se ligado ao início, isso me deixou confuso em relação a onde realmente começa e onde termina o relato dos fatos pois tudo pareceu um círculo sem ponta.