Review de ‘Drink the Kool-Aid’, 9° episódio de ‘Cult’

Em 1979, 909 pessoas morreram no assentamento situado no noroeste da Guiana, conhecido como Jonestown, por ingestão do suco Flavor Aid sabor uva misturado com Valium, Fenergan e cianeto. Todos eram integrantes da seita Templo do Povo e foram orientados – em alguns casos, coagidos – pelo líder Jim Jones a beber a mistura venenosa.

Em 1993, o FBI cercava a propriedade que servia como sede do culto conhecido como Ramo Davidiano, localizada na cidade texana de Waco, quando três focos de incêndio foram iniciados. Ao todo, 76 membros do grupo morreram sufocados pela fumaça, feridos pelos escombros ou baleados por companheiros. O número inclui o chefe do grupo, David Koresh. Embora os Davidianos sobreviventes – apenas nove escaparam – digam que o fogo tenha sido iniciado por acidente ou pelo ataque exterior, o governo norte-americano defendeu que o incêndio foi causado propositalmente pela seita.

Três anos mais tarde, em 1997, a polícia de San Diego encontrou os corpos de 39 integrantes do grupo religioso Heaven’s Gate. Eles cometeram suicídio em massa por acreditar que assim se libertariam em direção a uma espacionave que acompanharia o cometa Hale-Bopp, assim como dizia o líder da seita Marshall Applewhite.

Esses são três casos na história recente de seitas que terminaram em tragédia – por homicídio ou suicídio em massa, dependendo de como se interprete os relatos. Não é de se espantar que essas mortes influencie American Horror Story na temporada em que o seriado fala sobre uma seita macabra.

Kai Anderson (Evan Peters) não só se inspira em Jones, Koresh e Applewhite, ele deseja que seus próprios seguidores se espelhem nos integrantes de cultos, capazes de morrer por suas crenças. Na sua boca, as histórias reais se transformam em contos de fada que ele conta para seu exército antes de dormir. A moral da história é seja cegamente fiel.

LÍDERES

As sequências iniciais de “Drink the Kool-Aid” (Algo como “Beba o Ki-Suco”) reproduzem as tragédias das três seitas em simulações de filmagens baseadas em gravações reais. Todas, como foi prometido, protagonizadas por Evan Peters (e não é de se surpreender que Kai imagine seu rosto nos outros líderes). Ah, e ele também faz uma breve aparição como Jesus, mais como alívio cômico do que numa releitura de passagem bíblica.

A caracterização e atuação são certeiras nas breves aparições de Koresh e Applewhite – especialmente no olhar, o ator transmite tipos diferentes de insanidade com os olhos, – mas poderiam ser melhores com Jones. Peters acerta ao reproduzir a pronúncia e as expressões dos dois primeiros, mas tem menos sucesso em modificar a própria voz ao interpretar Jones. Quanto a Cristo, não temos gravações para comparar e a participação do personagem não foi séria.

O grupo que Kai lidera já passou pela fase de recrutamento, já matou para causar medo, já manipulou esse medo para eleger seu cabeça, já teve integrantes eliminados, já vivenciou traições. É a hora de testar até onde os membros restantes são capazes de se curvar às vontades do líder.

E ele tem motivos para a insegurança. Beverly (Adina Porter) foi acusada de tramar contra suas ordens. Ivy (Alison Pill) e Winter (Billie Lourd) estão visivelmente infelizes com a postura machista e perigosa adotada por Kai dentro do próprio grupo. A mais nova integrante mulher, Ally (Sarah Paulson) é uma incógnita para ele: qual a motivação real para ela se unir ao grupo? Insatisfeitas ou não, as quatro têm poucas alternativas. Kai ainda as controla.

É com copos de papel e suco em pó que Kai recebe todos os integrantes em uma reunião. Ele força todos a ingerir a bebida. Quem contrariar a ordem será baleado na hora. Quando todos bebem o suco, Kai – como o bom troll de internet que é – diz que era uma pegadinha para medir a fidelidade de todos e aproveita para anunciar que vai se candidatar ao senado. Todas as mulheres se sentem torturadas psicologicamente com a brincadeira, o que significa que o público que presenciou uma cena com potencial para elevar a liberação de cortisol e adrenalina por estresse nos espectadores recebe como consolação uma oportunidade para ver Adina Porter em uma perfeita simulação de ataque de pânico. Poucos segundos são o suficiente para ela roubar a atenção, como sempre.

PLANOS
Pelo menos superficialmente, Ally demonstra que sua prioridade é fugir com a família, após confrontar Ivy por ter se juntado à seita e ter utilizado o grupo para atormentá-la. Se esses são os planos dela, Kai se torna um obstáculo transformando Oz (Cooper Dodson) em uma espécie de refém.

Sabe que o filho está nas mãos de um maníaco é desesperador para Ally, mas o adiamento da fuga oferece uma oportunidade para ela concretizar seu verdadeiro objetivo: vingança. Foi a ideia de punir Ivy e os outros que fortaleceu Ally enquanto ela esteve internada. Ela pensou em suicídio até que a perspectiva de se vingar de Ivy se transformasse em cura para todas as fobias.

A interpretação de Sarah (e como é prazeroso ver ela encarnando alguém mais confiante) e até a maquiagem da personagem marcam a mudança de personalidade de Ally. Ela não é mais uma mulher acuada, que paralisa diante do medo, ela é forte e tem uma capacidade de manipulação que rivaliza Kai. Ally também tem uma arma, as pessoas a seu redor a subestimam.

Com o trauma com o falso envenenamento, as vítimas da pegadinha deveriam estremecer na mera visão de bebida e comida. Apesar disso, Ivy aceita comer uma refeição preparada por Ally e beber um vinho oferecido por ela. Ivy sabe que a esposa guarda rancor, mas ela a considera fraca, incapaz de uma reação, como se delicia a escancarar em frases ofensivas. O resultado do menosprezo é uma morte brutal e sofrida por envenenamento. Além de forte e vingativa, Ally se tornou sádica. Para os telespectadores que têm também uma tendência para o sadismo, e que se sentiam frustrados com a vitimização da heroína, o fim de Ivy é satisfatório.

É a segunda vez no seriado em que uma personagem da Sarah Paulson passa por um processo de fortalecimento. A primeira foi em “Asylum”, quando Lana se tornou a grande sobrevivente da temporada. É impossível esquecer a sequência em que a repórter escapa do hospício com uma fita que incrimina o serial killer que a torturou, bem debaixo do nariz dele.

É gostoso ver Ally e Lana ganharem fibra, executarem sua vingança, deixarem de ser “docinhos” para se tornarem “duronas”, parafraseando a protagonista de “Asylum”. Mas é inegável que o processo seria mais satisfatório se tivéssemos acompanhado a transição de Ally. Testemunhamos o sofrimento de Lana e sua mudança de atitude passo a passo. Com Ally foi diferente. Temos que nos contentar com um monólogo. Mas não vou reclamar tanto, porque a mudança de personalidade foi positiva. Era sufocante ter uma heroína tão passiva como a Ally da primeira parte da temporada.

PATERNIDADE
Quando a temporada começou, não foram poucos os fãs que criaram teorias sobre como Oz seria filho de Kai. Eles devem ter comemorado ao ver o líder da seita anunciar que doava esperma para a clínica onde foi feita a inseminação de Ally. É gostoso acertar uma teoria, não é? Eu, do outro lado, confesso que senti um gosto amargo. Era forçado. Se Kai acreditasse que era pai de Oz, ele teria feito do garoto e sua família seus alvos.

Não foi o que aconteceu. Ivy conheceu Winter por acidente e por isso entrou na seita. Ally se tornou vítima do grupo por causa da esposa e não de Oz. Era forçado. E, felizmente, Ally consegue descobrir que Kai estava blefando. Ele doava esperma para a clínica, mas não era pai de Oz. Ai, que alívio! Obrigada, roteiristas por não levarem essa ideia a sério. Não deve ter sido tão prazeroso ver a teoria se desfazer para quem acreditava nela, não é? Mas qualquer grão de coerência faz diferença em American Horror Story, vamos admitir.

Ally se apropria do blefe de Kai. Ela consegue comprar documentos falsos que indicam que o líder da seita era sim o pai de Oz. Kai queriam um messias. Kai é motivado pelo desejo de provar para os pais que é capaz. A crença de que Oz e ele são parte da mesma família, dá imunidade para Oz (mesmo que o garoto possa irritar o falso pai ao não acreditar em suas mentiras e ao consultar a internet para contestá-las) e dá a Ally acesso a Kai. É o que ela precisa para destruir o culto do interior.

Temos mais dois episódios para descobrir se seu plano vai dar certo. Temos também chances de que eles tornem um jogo que oponha as manipulações de Ally e Kai. Cada lado tem suas vantagens. E, sinceramente, qualquer desfecho me agrada. Ver a heroína sofrida ganhar a partida vai ser bom. Não há como torcer para ninguém mais do que Ally. Ela foi injustiçada desde o primeiro episódio. Quem não vai dar um sorrisinho ao vê-la derrubar o líder da seita e todos seus “kaiminions”? Embora seja algo batido, uma narrativa de vingança sempre é ótima. Porém, ver Kai sair vencedor e ganhar poder, por sua vez, combina com o contexto atual. A humanidade abraça líderes autoritários, despreparados, com discursos patronizadores de ódio e violência. Seria um final infeliz que espelha uma realidade assustadora. Ambas conclusões são interessantes, contanto que bem elaboradas.

Embora não seja perfeita, a temporada é forte em suas referências sociais, tem um humor negro bem dosado e tem uma história bem construída. Só podemos torcer para que os próximos episódios continuem assim.