Review de ‘Valerie Solanas Died For Your Sins: Scumbag’, 7° episódio de ‘Cult’

Desde o começo, o desenrolar da trama de “Cult” escancara como qualquer pessoa humilhada pode ser vulnerável ao poder de persuasão de líderes de seitas. A série mostra como a sensação de opressão é uma espécie de oxigênio para a combustão de violência. Mais uma vez essa noção funciona como o eixo de um episódio da temporada. Em “Valerie Solanas Died For Your Sins: Scumbag” (Valerie Solanas Morreu por Seus Pecados: Escória), o foco é a relação entre a frustração vivida por mulheres em uma sociedade machista e uma possível reação extrema.

Para tocar no tema, os roteiristas preferiram dividir a narrativa em duas histórias paralelas. Parte do episódio é uma versão fictícia para a vida de Valerie Solanas – uma escritora e feminista radical real, interpretada em American Horror Story pela atriz Lena Dunham. A outra metade acompanha as mulheres integrantes da seita de Kai Anderson (Evan Peters) e a insatisfação crescente que as afeta.

Quando a repórter Beverly Hope (Adina Porter) foi fisgada pelo líder do grupo, a isca que a atraiu foi a promessa de poderes igualitários. Antes disso, a jornalista havia sido transformada em piada depois de uma série de interrupções às suas reportagens ao vivo por homens jovens que repetiam uma piada misógina, desconcertando-a. Eles entravam no meio da filmagem e gritavam “Pegue-a pela buceta”, em referência a um comentário infame e machista de Donald Trump. A seriedade da informação que Beverly queria transmitir como profissional era dissolvida por uma piada machista. As brincadeiras levaram ela a atacar um dos rapazes. Como mulher e como uma mulher negra, Beverly conviveu por anos pela opressão e aquele foi o limite.

Em vez de poderes igualitários, Kai expõe Beverly a manifestações de uma preferência do líder do grupo por implantar uma supremacia masculina na seita. A alteração no comportamento surge depois de Kai ser eleito ao conselho municipal. Ele isola as integrantes mulheres do grupo e se cerca por homens. O tom do discurso de Kai muda e, com isso, a humilhação deixa Beverly mais uma vez vulnerável ao poder de influência de outra pessoa. Isso se concretiza quando ela conhece Bebe Babbitt (Frances Conroy, em um papel sinistro que prova mais uma vez como merece ser uma das atrizes favoritas dos fãs de American Horror Story).

A estranha mulher sabe tocar em pontos sensíveis para Beverly, a ponto de a convencer da necessidade de as mulheres da seita se rebelarem contra os homens. Bebe diz ter convivido com Valerie Solanas, conta ter sido amante da escritora.

EXTREMISMO
Em 1967, a verdadeira Valerie Solanas escreveu o chamado “SCUM Manifesto“. O texto defende que o grande problema do mundo são os homens e que isso as mulheres deveriam se unir para aniquilá-los. O manifesto divide a opinião de feministas – algumas o consideram satírico, outras que o texto apresenta críticas legítimas ao patriarcado e outras que Solanas é radical demais.

Além dele, o nome de Valerie é associado a um evento: a tentativa de assassinar o artista Andy Warhol, em 1968, depois de ter um roteiro desprezado por ele.

Esses são os pontos mais conhecidos na biografia real da escritora. American Horror Story faz alguns acréscimos. No relato de Bebe, Solanas teria chegado a unir mulheres marginalizadas, formado uma organização chamada S.C.U.M. (Society for Cutting Up Men, ou Sociedade para Cortar os Homens) e ido além da verbalização de um feminismo extremista.

Ela teria guiado o grupo a uma tentativa de começar uma revolução violenta no mundo. As mulheres da organização atacariam e matariam casais como forma de mandar uma mensagem para homens e para as mulheres que se relacionavam com homens.

As mortes foram atribuídas ao serial killer conhecido como Assassino do Zodíaco, um personagem real e nunca identificado pela polícia. Na vida real, o Zodíaco atuou entre os anos 1960 e 1970 na Califórnia, com cinco mortes confirmadas. Ele também enviava cartas à imprensa com criptogramas e dizia ter matado ao todo 37 pessoas.

Ainda na versão de Bebe, Valerie sofreu ao ver os atos que elaborou serem relacionados à autoria de um suposto homem. Ao descobrir que um dos integrantes de seu próprio grupo (um dos dois homens homossexuais que ela aceitava na seita por também terem sido vitimizados por outros humanos do sexo masculino) havia enviado as cartas para a imprensa, a escritora o eliminou. Solanas morreu com a sensação de humilhação, afetada pela esquizofrenia e amargando a noção de que seu feito mais conhecido foi tentar matar Andy Warhol.

A história é o suficiente para convencer Beverly, Ivy (Alison Pill) e Winter (Billie Lourd) a criarem uma armadilha para Harrison (Billy Eichner), matá-lo e despedaçá-lo. Porém, tudo é mais uma manipulação de Kai, que enviou Bebe até Beverly, como é revelado no final do episódio. Até mesmo no universo de American Horror Story fica bem claro que a história de quem as mulheres de S.C.U.M. eram o Zodíaco é mentira. Afinal, em “Hotel“, o assassino surgiu como um dos discípulos de James March (outro personagem de Evan Peters) e a Valerie retratada por Bebe nunca se inspiraria em um fantasma de um homem rico que morreu nos anos 1920, proprietário de uma empresa de hospedagem.

Com “Valerie Solanas Died For Your Sins: Scumbag” o andamento da trama decai, por uma série de motivos. A começar, em vez de desenrolar a história da seita de Kai ou desenvolver melhor Ally (Sarah Paulson, ausente o tempo todo), o episódio se dedica demais a Valerie Solanas, o que interrompe negativamente o ritmo da história – e o ritmo era uma das melhores qualidades da temporada. Era possível abordá-la em um ou dois flashbacks rápidos. O fato de o relato sobre ela ser uma mentira inventada por Bebe torna mais forte a sensação de desperdício.

Outro problema do episódio é a atuação de Lena. A voz dela incomoda, a atuação é forçada e a pronuncia das falas é desconfortável, como se o espectador estivesse assistindo a um ensaio. Outra atriz mais convincente teria feito a diferença ao encarnar uma personagem tão alucinada e ao mesmo tempo trágica. Em vez de chocar, assustar ou até entristecer, a Valerie do episódio irrita.

A escalação de Lena só se torna interessante por um ponto: Winter havia citado a atriz no primeiro episódio, o que pode significar que as cenas de Solanas eram imaginadas pela personagem de Billie Lourd. Por isso, Valerie era representada por uma atriz com discurso feminista radical e Andy Warhol era vivido por Evan Peters, ou seja, tinha o rosto de Kai.

Peters, aliás, é um dos únicos pontos fortes das cenas de Solanas (o outro é a narração de Frances e também a participação de Jamie Brewer como uma das seguidoras de Valerie). O intérprete assumiu com competência os gestos, expressões e entonação do artista, um papel bastante diferente de Kai.

A facilidade com que as mulheres da seita são convencidas por Bebe é outro aspecto negativo do sétimo episódio. O seriado quer passar a impressão de que a raiva, o medo e a sensação de opressão tornam qualquer pessoa influenciável. A ideia é interessante tanto quanto incômoda (por isso cai bem uma história de terror), porém a irracionalidade das três é tão extrema quanto o ódio a homens de Valerie.

A mentira sobre o Zodíaco é forçada demais e nem bate com o fato de que um dos rapazes atacados pelo assassino na vida real, sobreviveu (Bryan Hartnell, atacado em um lago, a única pessoa a ouvir a voz e ver o disfarce do serial killer sem morrer). Em poucas horas, Ivy deixa de ser uma mulher com repulsa a sangue e violência para se tornar uma sádica que sente prazer em destroçar um homem, o que exemplifica a incoerência da trama.

A parte mais intrigante do episódio são as interrogações que ele traz: qual a relação de Kai e Bebe? O que ele pretende ao manipular integrantes do grupo a se matarem? O líder da seita quer apenas chegar ao poder e usar os membros para se eliminarem como uma forma de queimar arquivos que o incriminem sem sujar as mãos? Todos os passos foram bem calculados por ele? Quais os impactos da morte de Harrison na dinâmico do grupo? Quem é o próximo alvo de Kai? O que aconteceu com Ally?

  • Anderson Paula

    Achei esse episódio bem descartável, tanto pelo o enredo como pela quebra no ritmo. o episódio anterior foi tão empolgante, em seguida vem esse que até tava com um pouco de fé que foi ficar bom no final, mas o fato de a Bebe ser um plano do Kai me deixou bastante frustado. talvez esse seja, para mim, o pior episódio da temporada. = /