Review: O epílogo de “Be Our Guest”, finale de ‘Hotel’

O telespectador que tenha algum apego por literatura está acostumado a virar a aparente última página de uma história e encontrar novas linhas, introduzidas por uma palavra: Epílogo. Ele sabe que neste momento o ápice da trama já passou. É possível até que o protagonista tenha morrido e ou já serviu seu propósito. Porém, agora resta saber o que aconteceu com os personagens e a ambientação depois do final.

Embora “Be Our Guest” (Seja nosso hóspede) carregue o título de finale de temporada, é possível dizer “Hotel” terminou uma semana antes, com “Battle Royale”. Os eixos da trama pararam ali. A Condessa (Lady Gaga) morreu como consequência de um ciclo iniciado no momento em que ela sequestrou Holden (Lennon Henry) para criar impactos psicológicos em seu pai. Para ela, o final foi uma eternidade vazia e infeliz, sem nenhum de seus grandes amores. De outro lado, John Lowe (Wes Bentley) terminou a obra-prima homicída de March (Evan Peters), condenando Elizabeth a ser sua última vítima por contrariar um dos principais mandamentos. Em troca disso, ele conseguiu voltar para casa com sua família. Iris (Kathy Bates) e Liz (Denis O’Hare) tiveram liberdade para assumir de facto a administração do Hotel.

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O último episódio da temporada é nada mais que um epílogo – isso não é ruim trata-se de um elemento necessário para amarrar todas as pontas de uma temporada povoada por uma multiplicidade de personagens. Nesse sentido, “Hotel” repete mais uma característica de “Murder House”, cuja finale teve a mesma utilidade. Dividido em duas partes, “Be Our Guest” cumpre pelo menos satisfatoriamente sua função de epílogo.

PRIMEIRA PARTE
Sua primeira metade é puro ouro, como todas as cenas tocadas em por Liz Taylor. Ao longo de toda a temporada, seu intérprete esteve impecável. Com ela, Denis teve seu melhor papel em todo o seriado e o único totalmente simpático. Inicialmente uma peça do segundo plano, a personagem se tornou a verdadeira heroína da história. Toda sua evolução foi bem executada – desde sua origem como vendedor infeliz como homem de família, passando descoberta de sua identidade como transgênero, a atuação como bartender do hotel, sua descoberta e perda do amor, a reconciliação do filho, culminando com sua tomada de coragem e conquista do Hotel.

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Nada mais justo que 50% da finale seja dedicada a seu fim. Ao contrário de Elizabeth que cavou para si uma morte forçada com alienação e vazio amoroso perpétuo, Liz Taylor se realizou em vida, escolheu o momento em que preferia finalizá-la para não ter de encarar os sofrimentos do câncer e encontrou paz. Numa temporada em que todos os principais personagens são monstros, a amoralidade de Liz diante dos crimes cometidos por seus superiores e seu humor temperado de acidez são pecados pequenos, perdoáveis graças à sua sensibilidade e inteligência. Sua tranquilidade incluiu até um perdão à sua criadora transformada em nêmese, que foi mais uma vez ferramenta para uma mudança existencial. A Condessa ajudou Liz a abraçar sua feminilidade e a conduziu à realidade como fantasma. Foi poético.

A personagem de Denis realiza de certa forma uma ideia abortada de Ryan Murphy em tratar da transexualidade de forma sensível em um seriado, tentada antes com “Pretty/Handsome” (de 2008), que não foi continuada pela FX além do piloto.

É sob a narração de Liz Taylor que é revelado o destino de todos os personagens, inclusive participações pequenas. Will Drake (Cheyenne Jackson) recobra sua explosão criativa fashion, Iris (Kathy Bates) faz as pazes com o espírito de Donovan (Matt Bomer), Tristan (Finn Wittrock) recupera seu amor, Evers (Mare Winningham) se livra de sua paixão obsessiva por March, as suecas iniciam relacionamento com uma vítima, os hipsters continuam a irritar e o Hotel Cortez – ele também um personagem, deixou de ser um matadouro de hóspedes.

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Todos os fantasmas se adotaram como pseudo-familiares revivendo uma situação dos mortos no final da primeira temporada. Deslocado dos 12 episódios anteriores, o epílogo de “Hotel” toma a liberdade de uma mudança brusca de tonalidade. Enquanto todos os outros capítulos da história trouxeram situações deprimentes, macabras, depravadas, sombrias, a finale foi… feliz. Na morte, os personagens violentos e imorais encontram novos objetivos de existência e se tornam simpáticos sob a influência de Liz. É o contrário do que as sanguinolentas etapas anteriores prometiam, o que pode desapontar alguns e garantir um conforto para outros.

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Embora não esteja em primeiro plano, a atormentada Sally (Sarah Paulson) é outro ponto alto do episódio, e está incluída entre os personagens com redenção moral. É uma pena que a atriz tenha se comprometido com gravações de dois seriados concomitantemente. Com o tempo dividido entre Sally e a Marcia Clark de “American Crime Story”, Paulson teve uma participação reduzida. Eu assistira mais sobre Sally – mas me satisfaço em me aprofundar em sua melancólica biografia.

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Uma depressiva compositora grunge com pavor a rejeição e viciada em aplicar entorpecentes em veias, ela intensificou seu inferno pessoal ao causar – ainda que não intencionalmente – a morte de dois amigos. Os efeitos de sua dependência de heroína conjugados com o ato macabro de costurar seu corpo ao de outras pessoas conjuraram o Demônio do Vício (sim, ao contrário do que os fãs com déficit de atenção falam, ele foi explicado por diálogos). Essa entidade personifica a aflição dos fisicamente obcecados por drogas, causando neles uma tortura monstruosa com estupro – uma analogia ao vício que só poderia ter saído da mente de Ryan Murphy. Desde então, Sally foi perseguida pela sombra desse demônio, comprometida a realizar tarefas para March, que por ser o primeiro fantasma de hotel ocupa o topo da pirâmide hierárquica entre as entidades do prédio, em troca de proteção.

Ao morrer no Hotel, ela tomou como própria finalidade a busca por sua alma gêmea. Isso a tornou uma fantasma homicida. Sally passou a praticar uma forma de pilhagem – não de espólio de guerras, mas das outras vítimas de seu demônio. Ela os chantageava durante a dor na sede por declarações desesperadas de amor, depois os costurava em colchões para obrigá-los a morrer no Hotel Cortez, com esperanças de que seus fantasmas a acompanhassem para sempre. Não foi por um deles que Sally se envolveu, mas por John Lowe. Possessiva, ela também tentava matá-lo para prendê-lo pela eternidade, o que lhe foi negado. Até que ela desistiu e resolveu voltar sua atenção para os hóspedes.

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Graças a uma sugestão de Iris, Sally encontra uma minimização de sua solidão: o contato humano por meio das redes sociais. Embora certos sociólogos como o polonês Zygmunt Bauman defendam que a sociabilidade por meio da tecnologia cause um isolamento triste do mundo físico, Sally se pacifica por meio delas. A questão é: estaria Ryan Murphy elogiado as possibilidades das redes sociais com o final da Sally? Talvez o final da personagem convirja com as teses de Bauman de que só nos sentimos seguros quando apelamos para conexões plataformas digitais, confortados por números artificiais de amigos e notificações. Há um quê de patético na paz de Sally, morta para o mundo exterior, obcecada por ser visualizada na internet, por comunicações com frágeis contatos.

SEGUNDA PARTE
A segunda fatia do episódio traz um escorregão em qualidade, provavelmente porque as parcelas mais impactantes do arco de seu protagonista, John Lowe, já foram exploradas anteriormente. Os banquetes de seria-killers na Noite do Demônio já não possuem mais força de sua primeira vez, há vários episódios John já se conciliou com sua natureza assassina e suas tentativas de se conectar com sua família infeliz, já não comovem.

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O melhor aspecto desta seção do episódio é a bem-humorada aparição da médium de televisão Billie Dean Howard, também interpretada por Sarah Paulson. Personagem secundária de “Murder House”, ela traz uma conexão com temporadas anteriores mais coerente do que a participação frustrante de Queenie no penúltimo episódio. O único problema é que desta vez American Horror Story apela em grau maior para nossa suspensão de descrença. Podemos ignorar o fato de uma personagem de outro ano contracenar com alguém idêntico a seus velhos conhecidos, enganando nosso cérebro pela ausência desses velhos conhecidos. Podemos entender que Tristan e Valentino precisavam ser vividos pelo mesmo ator, pois sua semelhança física foi o que cativou a Condessa. Mas é um pouco mais forçado pensar que Sally e Billi transitaram numa mesma área de metros quadrados não tão afastados.

Foi satisfatório também perceber que o purgatório da Condessa permanece. Ela continua a procurando homens com mesmo tipo físico, para reviver seu Valentino (talvez com uma mistura de Donovan, agora que ela aprendeu a valorizar melhor seu “beautiful boy”), tentativas que podem garantir excitantes encontros sexuais, mas são essencialmente insatisfatórias. Elizabeth se recusa a compreender (como nós, espectadores percebemos) que é impossível recriar pessoas e sua infelicidade eterna continua, apesar de maquiada com muito glamour.

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TEMPORADA
No todo, “Hotel” foi uma boa temporada, com alguns picos de excelência. Só não podemos respirar tão aliviados, porque a temporada poderia se sustentar ininterruptamente como excepcional, e não o fez. Vimos um pontapé excelente, episódios fortes, cenas que podem se tornar clássicos (a transformação de Liz, a primeira Noite do Demônio, a orgia sangrenta, o primeiro ataque do demônio), boas atuações (o que incluiu as interpretações a cada episódio melhores de Lady Gaga, mas que escala para um grau sublime com Denis, Sarah, Mare, Evan e Kathy), alguns ótimos personagens (Liz, Sally, Iris, Condessa, March), cenário requintado, o retorno do horror, trilha sonora belíssima, as bizarrices que depois de cinco anos já acariciam os gostos dos fãs. Entretanto, a temporada se enfraqueceu nos últimos três ou quatro episódios. Não atingiu o fundo do poço com essa queda, mas a qualidade destoou um pouco na etapa final em comparação com seu início e meio. “Hotel” trouxe uma elevação quando comparada às duas (bem mais) decepcionantes temporadas anteriores, porém não superou as duas primeiras.

A temporada se beneficiaria se Ryan finalmente tivesse aprendido a desenvolver conclusões melhores para todas subtramas (Lembram-se das crianças vampiras?), resistisse à tentação de criar personagens só pela necessidade de prender seus atores favoritos (Vide a redundante Ramona, de Angela Bassett), parasse de criar hype para monstros que irá deixar de lado (Demônio do Vício), construísse ritmos melhores para quando desdobrar todos os pontos da história, além de aproveitasse o potencial até de suas melhores criações.

Sim, a temporada foi um passeio divertido por sofisticados e sombrios corredores labirínticos de um hotel. Mais do que em outras ocasiões, boa parte das histórias dão sinais de ter sido elaboradas não a rumo, mas com antecedência. Até o oitavo episódio, senti-me extasiada com ela o suficiente para criar um vínculo não diferente dos viciados, para usar um tema recorrente da temporada. Mas na última fração, a sensação foi de identificação com usuários de droga mais experientes que se picam desejando mesmo alto torpor prazeroso de antes e não encontram na mesma medida.