REVIEW: O preço da popularidade em ‘Chapter 9’, penúltimo episódio de ‘Roanoke’

Se “American Horror Story” tiver quatro ingredientes principais eles seriam o macabro, a sexualidade, o cinema e o comentário social. O primeiro e o último são bem misturados, já que há uma justiça kármica nos desfechos brutais de personagens, se você reparar bem.

A temática moral da segunda metade foi o preço da autoexposição em troco da fama por meio da mídia tradicional. Por se tratar de uma trama do terceiro milênio, reality shows e o espetáculo televisivo são formatos que precisam ser abordados. Mas a obsessão por ser popular na internet não poderia ser deixada de lado quando se fala da nossa era.

GERAÇÕES Y E Z
E é claro que se vamos mostrar excessos cometidos em nome de transformar um vídeo em viral a prática precisa ser representada por integrantes das gerações Y e Z. O que os mais narcisistas de nós não fazem por alguns dígitos de curtidas, não é? Talvez fosse compreensível. Nos anos 1970 quem não queria ser um deus dourado do rock? Ter talento, viver num ambiente de sexo e drogas, ser mundialmente conhecido, destruir instrumentos e objetos de hoteis como demonstração de rebeldia. Hoje a aspiração de quem quer fazer sucesso é ser um “digital influencer”. Os formadores de opinião dos adolescentes atuais são os Youtubers.

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Como se trata de “American Horror Story”, os personagens loucos por se tornar alvo de admiração on-line não filmam o próprio rosto enquanto discursam sobre coisas normais da vida como dietas falhas, ou fazem piadas mal embasadas sobre a sociedade, descrevem novo treino na academia ou viagens ao exterior. Esqueçam seus canais favoritos no Youtube. Conheçam Sophie (Taissa Farmiga, de volta pela primeira vez desde “Coven” e com uma interpretação mais natural do que naquela temporada), Todd (Jacob Artist) e Milo (Jon Bass), fãs de “Meu pesadelo em Roanoke” que querem gravar vídeos no local onde o seriado foi gravado.

O trio é mais ou menos como uma versão de nós, espectadores de “American Horror Story”, se fôssemos estúpidos o suficiente para ir a uma área sobrenatural justamente na data do ano em que a chance de morrer ali é maior e insistir em continuar lá mesmo depois de descobrir que os fantasmas existem. E se nosso sonho de ter um vídeo viralizado fosse grande ao ponto de nós incentivar a utilizar a popularidade da série para alavancar nossa repercussão em meio digital (Socorro, se eu ficar feliz com os comentários na review, isso significa que eu sou como eles? Metalinguagem pode ser assustadora, como os produtores conseguiram lidar com isso este ano?).

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Em “Roanoke” a tendência a tomar más decisões é uma constante. É claro que os três tiveram mortes horríveis. Dois deles foram empalados. O método de tortura é tão horrível que um anúncio avisou o espectador que as cenas seriam de extrema violência e que eu até esqueci que eles foram queimados depois. Você viu mesmo o que acha que viu. As vítimas tiveram o corpo atravessado por uma estaca introduzida pela ânus, enquanto o ato foi transmitido pela internet.

Sophie e Milo conseguiram a visibilidade na rede que queria – imagine quantas vezes a gravação não foi compartilhada por sádicos de mau gosto? – ainda que provavelmente não com o conteúdo que desejavam. O mal estar é maior quando vemos quem conduz a morte dos dois jovens. Vamos recapitular o que aconteceu com nossos protagonistas até essa cena.

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SOBREVIVENTES
No episódio anterior, o número de sobreviventes se afunilou para três. Parecia que a população nascida para ser vítima do gore na temporada estava entrando em extinção e que faltavam apenas três ou duas pessoas para a espécie desaparecer. Não era bem o caso. Além do surgimento dos três jovens equipados com câmeras GoPro, tivemos um novo participante do reality show: Dylan (Wes Bentley).

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Não, não é Dylan de Dylan McDermott de outras temporadas, e só o nome do ator que interpretou o filho da Açougueira no seriado dentro de seriado. Sim, ele só apareceu para aumentar a contagem de corpos, acompanhar Lee (Adina Porter) e Audrey (Sarah Paulson) de volta à casa dos Polk, dar uma oportunidade à produção de mostrar o Wes Bentley sem camisa e proporcionar aos fãs uma nova aparição do motorista de Uber, Rhett Snow (Billy Snow).

Dylan tinha boas intenções movidas por seu espírito de ex-militar, Lee e Audrey só desejavam destruir provas audiovisuais que as incriminavam. Ninguém conseguiu o que desejava, porém ao menos Audrey conseguiu resgatar Monet (Angela Bassett).

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Uma tela com explicações textuais do sexto episódio deixava claro que apenas um dos indivíduos envolvidos na filmagem não morreu durante as gravações. O mistério da segunda parte da temporada era quem seria o sobrevivente. Foi como torcer para um participante ser o vencedor de um reality show, porém em um projeto em que os outros são massacrados em vez de mandados de volta pra casa. E o desfecho foi sim satisfatório para uma história de terror.

“Roanoke” é a temporada mais sombria de “American Horror Story” em anos. Seria estranho que o reality show terminasse com uma heroína como a clássica final girl, a mulher pura que escapa das monstruosidades por ser a mais inocente envolvida na história. Estamos em uma era em que filmes mostram boas cristãs em espiral de decadência familiar cuja única chance de sobrevivência é fazer um pacto com o Mal. É mais ou menos o que vimos em “Chapter 9” (Capítulo 9).

Lee se apresentou a nós como uma mãe, esposa, irmã e profissional com problemas de abuso de álcool e drogas, porém de personalidade forte e caráter. Ela defende que não se tornou viciada porque quis, e sim devido a uma fatalidade na rotina de policial. Como todos os personagens de “Roanoke” Lee assume ter tomado decisões irracionais, porém sempre perdoáveis. Ela também se autointitulou injustiçada, acusada de matar o ex-marido.

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Depois Lee confessa que foi sim a responsável por esse homicídio. Fez o que fez por desespero. E então, quando está perto da morte no meio da floresta Lee como Tomasyn (Kathy Bates ou Susan Berger ou a personagem de um certo filme) faz seu pacto com o Mal para sobreviver. A bruxa da floresta Scáthach oferece um coração para ela em troca de sacrifícios durante a Lua de Sangue.

Então, Lee mata Todd, Monet, Milo, Sophie e tenta tirar a vida de Audrey (os típicos policiais incompetentes de “American Horror Story” e a impulsividade da atriz fazem o resto do trabalho). Enquanto comete atos de violência murmura frases dignas da Açougueira. Sua forma de agir sob possessão nos faz questionar a natureza de Tomasyn White após o encontro com a bruxa. Ela também foi escravizada em transe? O que ela pronunciava traduzia suas obsessões ou as obsessões da Scáthach? E qual o verdadeiro caráter de Lee? Ela se mostrou em pânico como se tivesse recuperado o controle do próprio corpo depois da Lua de Sangue. Estava atuando ou era verdade?

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NARRADORES NÃO CONFIÁVEIS
Quando assistimos superficialmente, “Roanoke” é a temporada onde transparece uma preocupação primária em contar a história sobre violência, sem explorar tanto a psicologia dos personagens ou os males da sociedade. Se não pensarmos muito, corremos o risco de terminar a temporada achando que sua única pretensão foi ser uma clássica história de horror e nada mais: mortes grotescas, sustos, personagens que existem para morrer, experimentos com formas diferentes de filmagens para aumentar a imersão do espectador.

Os roteiristas e diretores se esforçaram para confeccionar um legítimo produto de entretenimento nos moldes do gênero. No entanto, não é tudo tão raso assim. Em uma segunda análise, temos a metaficção, a crítica à mídia, ao público e às celebridades/subcelebridades da televisão e internet e esse aspecto também não é tão difícil de percebem pelo formato da trama este ano.

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Por fim, temos uma reflexão sobre como são feitas e absorvidas as narrativas. Nós consumimos notícias, relatos verbais, assuntos de aulas e livros históricos, dramas sobre casos reais sem pensar. Geralmente, aceitamos tudo como verdade. Porém, existe uma coisa chamada narrador não confiável. São manipuladores de primeira e estão presentes em obras bem diversificadas como “Lolita”, “Clube da Luta”, “Rashomon”, “Mr. Robot”. Nós temos uma relação de amor e ódio com eles, porque eles nos desafiam e nos tapeiam. Nós só esquecemos que eles não são apenas uma ferramenta de livros, filmes e seriados. Eles existem na realidade, nas reportagens e nos documentários.

“Roanoke” nos chama atenção para esse fato a mostrar um seriado que simula ser baseado em histórias reais e confronta esses fatos com uma realidade diferente. O tempo todo vemos pessoas contaram suas versões de histórias. Lee se apresenta ser uma pessoa bem-intencionada que não é capaz de matar, Shelby (Lily Rabe) não demonstra ter descontrole e tendências a violência, Matt (André Holland) oculta que permaneceu hipnotizado por Scáthach, os fantasmas têm aparências diferentes.

DESFECHO
O desfecho da segunda fase me agradou muito pessoalmente. Essa etapa de “Roanoke” como um todo intensificou a atmosfera de terror, não foi nem apressada e nem arrastada demais, não teve medo de ser perturbadora, entreteve sem abusar da comicidade, complementou a mitologia da temporada, apresentou boas novas versões de vilões.

 

Se tiver que apontar pontos baixos continua sendo a insistência no artifício de terror em que os personagens fazerem coisas arriscadas, sabendo que são arriscadas, no que parece ignorar a lógica para colocá-los em uma situação de morte. Pelo medo, fazemos besteiras. Protagonistas em filmes de terror fazem mais besteira ainda. Mas será que TODOS os personagens tinham que ser tão irresponsáveis assim?chap9-11

Talvez por isso, talvez pelo fato de que a maioria deles era antipático, “Roanoke” teve poucos personagens pelos quais era gostoso torcer. A Lee era quem mais facilmente despertava simpatia por sua força e é gratificante que ela seja a sobrevivente, principalmente nas circunstâncias inesperadas. Se esse fosse um simples drama de sobrevivência, a corrupção dela seria frustrante. Mas é uma história de terror, aqui não se aplica finais doces ou mesmo agridoces. Fins desoladores se encaixam melhor.

E o que é mais desolador do que uma suposta heroína ser dominada pelo Mal e vê-la sair pelo mundo mantendo esse vínculo ou pagando caro por ele. A narrativa exclusiva do formato found footagem acabou. Agora só nos resta descobrir no último capítulo como a Lee foi tratada pela mídia depois de tantos assassinatos (e se ela continua a ser uma narradora não confiável).