REVIEW: Os medos adultos de ‘Chapter 3’, terceiro episódio de ‘Roanoke’

O desaparecimento de um filho é um dos principais medos dos adultos. Esse temor é acompanhado pelo desconhecimento em relação à espécie de lugar onde a criança possa estar ou com qual tipo de ser humano. Se estiver sozinha, ela pode ficar exposta fome, frio, se for acompanhada de alguém mal intencionado, pode ser submetida a violência. Apenas três resultados se delineiam na mente do pai e da mãe: o reencontro, a convivência eterna com a procura e a morte. As três possibilidades assombram o adulto a cada pista – uma dá esperanças muitas vezes falsas, as outras desesperam.

American Horror Story” é melhor quando mistura o terror sobrenatural com horrores plausíveis. É o que acontece em “Chapter 3” (“Capítulo 3”), o terceiro episódio de “Roanoke”. O gatilho para os acontecimentos mostrados nos 40 minutos é a busca por Flora (Saniyya Sidney), filha de Lee (Adina Porter e Angela Bassett). Como uma mãe, ela sente a expectativa de localizar a garota. Por ser ex-policial, Lee reconhece a diminuição de a melhor hipótese se concretizar a cada hora que ela passa longe filha. O mal estar dela se agrava quando os únicos vestígios da criança são partes de um leitão e da boneca da menina despedaçados e ensanguentados.

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ATMOSFERA
O roteiro e a direção do seriado continuam a orquestrar momentos de suspense, porém o ritmo da trama se acelera. Ainda que a temporada permaneça comedida no sentido de não ter cenas inundadas de protagonistas e subtramas, a atmosfera de “American Horror Story” com suas bizarrices começa a infiltrar a trama com mais volume. Para dizer a verdade, este foi o episódio de “Meu Pesadelo Roanoke” que mais transpirou aos produtores Ryan Murphy e Brad Falchuk que conhecemos, ainda que a uma versão mais madura dos dois.

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A estranheza típica da série inicia seu desfile diante do espectador quando dois garotos selvagens e sujos são mostrados sugando leite de uma porca. Não é o primeiro aleitamento de “American Horror Story”, o seriado tem antecedentes desconfortáveis como quando apresentou adultos maníacos amamentados por vítimas mulheres em “Asylum”, mas o efeito dos meninos mamando em uma suína também é desagradável. Vemos ainda um coração de porco palpitante ser oferecido a uma mulher com capacete de tortura do século 16 na cabeça e o tradicional momento de sexo incômodo – e o que seria de “American Horror Story” sem o terror psicossexual?

Somos expostos à cópula de uma mulher suja com ar de bruxa e um homem inconsciente de estar praticando a penetração. Não somos os únicos culpados (não intencionais, podemos dizer, em nossa defesa) de um ato de voyeurismo. O casal é observado por dois caipiras e se masturbam em ritmo acelerado. Ah, e os dois principais envolvidos na cena são vividos por Lady Gaga e Cuba Gooding Jr (o intérprete do bem-comportado Matt nas reconstituições do documentário). Lembra-se de quando você pensou que o seriado havia esgotado seu repertório de bizarrices sexuais?

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EXCENTRICIDADE
No terceiro episódio, a excentricidade de “American Horror Story” se manifesta mais uma vez com a introdução de um personagem coadjuvante. Com a combinação de sotaque carregado, mediunidade, roupas formais, corte de cabelo Chanel extravagante, e bengala, Cricket (Leslie Jordan) oferece um contraste quando comparado com o estilo simples e comum do trio de protagonistas formado por Lee, Shelby (Lily Rabe e Sarah Paulson) e Matt (Gooding Jr. e André Holland). Até seu vocabulário e entonação se diferencia do deles, trazendo um toque leve de alívio cômico que dá um respiro à temporada, sem comprometer a qualidade muito positiva do conteúdo sério.

Cricket até traz uma sensação de lembrança de um ponto forte de “Coven”, por ser um personagem excêntrico e delicioso no estilo Myrtle (Frances Conroy). Inclusive, o ator Leslie Jordan participou daquela temporada como um bruxo do Conselho. Para continuar a lista de elementos em comum com o terceiro ano, ele vem de Nova Orleãs e tem poderes especiais, a ponto de o espectador se perguntar se ele não seria um dos herdeiros do clã de Salem que se instalou na cidade sulista. Cricket é capaz de falar com os mortos e encontrar crianças perdidas.

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Contudo, o médium utiliza o dom gratuitamente só na forma de aperitivo. O psíquico exige um cachê de U$ 25 mil dólares para fazer o trabalho de localizar a garota perdida. Matt o considera um farsante, mas sua irmã está disposta a pagar. Em partes, porque ela se depara com sinais de que Cricket realmente tem talento para descobrir fatos ocultos, como o desaparecimento de sua primeira filha Emily e a existência da amiga imaginária de Flora, Priscilla. O médium também parece conhecer a palavra-chave para afastar os espíritos que atormentam os moradores da casa: “Croatoan”.

Ele também proporciona aos Miller uma sessão espírita com a participação de um dos fantasmas que se manifestam na casa de campo. No entanto, o motivo principal de Lee fazer o pagamento é seu desespero. Ela é torturada pela perda de Flora e é obrigada a testemunhar o encontro do corpo carbonizado de seu ex-marido, Mason (Charles Malik Whitfield).

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A aflição de Lee é uma oportunidade de apreciação da interpretação das duas atrizes que a encarnam. Sobretudo Adina faz um trabalho impressionante de transmitir a angústia e vulnerabilidade da mãe que foi separada de duas filhas e em situações pelas quais ela pode ser julgada como responsável pelas perdas.

COLÔNIA
O episódio tem ainda uma segunda grande interpretação quando a trama se aprofunda na mitologia da temporada. O sumiço de mais de uma centena colonos de Roanoke no século 16 é uma lenda conhecida na Carolina do Norte, onde a sexta história da série é ambientada. No mundo real, o paradeiro dessas pessoas permanece um mistério. No seriado, recebemos indicações de que ele está ligado a Thomasin White (Kathy Bates).

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Como Cricket revela, ela era esposa do governador John White (um personagem real da História norte-americana). Depois de ser deixada por ele no comando da colônia e sofrer uma traição de compatriotas, Thomasin foi largada algemada e com uma máscara pontiaguda no meio da floresta. Mais fraco que a mãe, o filho dos White, Ambrose (Wes Bentley), foi incapaz de defendê-la.

Ela é resgatada por uma figura feminina com ar etéreo e demoníaco vivida por Lady Gaga, o que lhe deu força para se vingar dos colonos amotinados e levar o resto dos membros do povoado mais para o interior da terra. Os sotaques coloniais, os figurinos, a mulher assustadora mas sedutora e o cenário florestal desse flashback lembram o longametragem de terror histórico “A Bruxa” (2015).

Foi durante o movimento para o interior que Thomasin chegou, há muitos séculos, ao terreno onde está construída a casa comprada pelos Miller na década de 2010. O espírito dela (ou seja qual for o substantivo correto para descrever Thomasin) é tão apegado à área que ela está disposta a matar todos que enxergar como posseiros. A forma como a mulher manuseia um cutelo lhe deu o apelido de Açougueira. Com ela, Kathy executa uma atuação que ameaça e causa tensão a cada piscada, uma de suas especialidades como quem gosta de cinema já viu em “Louca Obsessão” (1990) e os fãs de “American Horror Story” já perceberam pela Lalaurie de “Coven”.

“TRAIÇÃO”
Para acalmar Thomasin e tentar recuperar Flora, Matt e Lee prometem queimar a casa como método de evitar o surgimento de qualquer outra família sobre aquele solo. Shelby não gosta de não ter sido consultada sobre a destruição do patrimônio. Para piorar, ela encontra seu marido no que parece ser uma relação sexual com uma estranha no meio da floresta. O espectador sabe que Matt está em transe. Alguém racional poderia associar a cena a todas as manifestações sobrenaturais às quais a família está exposta há dias. Shelby não é racional (como já vimos em outros episódios), não sabe o que o espectador já viu e a situação extrema a distância ainda mais da racionalidade. Vamos admitir: a traição é outro dos principais medos plausíveis dos adultos.

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A incredulidade da esposa com o marido em relação ao elemento sobrenatural como causador de uma suposta traição remete novamente à primeira temporada, com uma pequena inversão. Ben Harmon (Dylan McDermott) também tinha motivos lógicos para crer que Vivien (Connie Britton) tinha um amante e realmente acreditou. Vivien e Matt foram vítimas, sofreram uma forma de estupro: ela foi enganada por um fantasma a praticar o ato sexual, ele se movimentou como que hipnotizado. Mas seus cônjuges se negam a aceitar a afirmação de inocência.

Ben se vinga internando a esposa, Shelby paga a “traição” do marido com uma denúncia contra cunhada, apontada por ela como possível autora da morte de Mason. A atitude da personagem de Sarah Paulson ajuda a explicar a animosidade entre ela e Lee expressa nos depoimentos.

COMPASSO
Quando o episódio termina, a tensão foi tão bem tecida e o compasso de andamento da trama tão bem medido que a impressão que temos é de que vimos tudo em uma só tomada de fôlego. Quem está acostumado a assistir “American Horror Story” e já viu temporadas desandarem no último terço da história sabe que ainda é cedo para elogiar muito. No entanto, “Roanoke” transmite a sensação de que o ritmo da narrativa este ano foi bem calculado. A equipe do seriado parece estar tão confortável com a segurança de que o espectador foi tão absorvido pela temporada no “Capítulo 3” que ousam começar a quebrar o formato.

Pela primeira vez, ouvimos um produtor entrevistar os Miller (a voz se não é de Cheyenne Jackson, lembra muito a entonação dele) e temos um vislumbre dos bastidores. Não estamos mais simplesmente assistindo ao documentário, invadimos sua gravação. Estamos intrigados por dúvidas sobre as intenções reais da produção, o caráter dos entrevistados e as possibilidades de narrativa que podem ser utilizadas na temporada. Felizmente, enquanto essas questões não são desvendadas, tivemos a oportunidade de apreciar o capítulo mais forte do sexto ano (até o momento, pelo menos).

  • Evan Psicótico

    Realmente esse episódio foi o mais forte até o momento,é incrível como as sequências dos fatos e acontecimentos não perdem o fôlego,os elementos se “conversam”,realm

    • Rafaela Tavares

      Obrigada pelo comentário. Se houver consistência da qualidade em toda temporada e realmente tudo tenha sido bem calculado, a temporada vai tem tudo para ser uma das melhores.

      • Evan Psicótico

        Verdade Rafaela,se os episódios continuarem com esse ritmo e as coerências alienadas aos acontecimentos dos excelentes episódios,tem tudo para ser uma das melhores temporadas.

  • Gustavo Fernandes

    Se eu não me engano, Thomasin também era o nome da garota mais velha no filme “A Bruxa” (2015)!!

    • Rafaela Tavares

      Era esse mesmo o nome da protagonista do filme!

  • Bruno

    Eu particularmente não tô gostando da Shelby. Não pelas atuações da Sarah e da Lily, mas pela teimosia dela. Sabe que tem algo errado com a casa mas não quer sair. Entendo que pelo bem da narrativa eles não devem sair de lá tão fácil, mas parece que tem algo a atraindo para a casa.

    E outra coisa, provavelmente essa história não está bem contada e espero que revelem isso na virada prometida entre o quinto e o sexto episódio.

    Muito boa a review. Gosto dela assim, sem exageros nas piadas e referências moderninhas da internet.

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