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O apressado conflito de espécies em “Future Perfect”, season finale de ‘AHS: Double Feature’

Talvez tenha sido mais fácil para temporadas passadas de American Horror Story se reservarem a um subgênero do horror e nos oferecer uma visão aprofundada do mesmo, mas se tornou mais frequente que a série engaje em temas mais abrangentes nos últimos anos, e Double Feature marca isto perfeitamente. O roteiro das duas histórias nos trouxe temas a respeito do sofrimento e satisfação que podem vir da criação de algo, esteja falando de um roteiro de filme ou da geração de uma nova raça. Na segunda parte, com uma proporção obviamente maior, existem acordos e compromissos que são essenciais para a sobrevivência da humanidade, e com isso, Death Valley nos traz questões sobre confiança e moral. Todos estes tópicos são vias para chegar em temas interessantes que poderiam se conectar bem com os flashbacks sci-fi bem estilizados, e também serem relevantes para os problemas contemporâneos que segmentam nossa sociedade. Os episódios iniciais desta segunda metade talvez tenham brevemente engajado nestes comentários, porém, a season finale, “Future Perfect“, parte em outra direção, rumando a teorias da conspiração que não possuíam mais espaço para serem inclusas na trama, e apenas frustraram quem acompanhou o resultado disto.

Death Valley encontra sua maior força na capacidade de emular subgêneros clássicos do horror sci-fi, e um detalhe a ser elogiado é o quanto cada episódio, em seus momentos de flashback, realmente pareciam-se com filmes B sci-fi dos anos 50. Todos os aspectos, como o uso da cinematografia preto e branco com um ótimo balanço de contraste, os diálogos extravagantes, a trilha sonora com o uso contínuo de teremim, e claro, algumas performances do elenco também contribuíram para essa energia gerada. Porém, mesmo com aspectos técnicos executados com maestria, não há como negar que a narrativa da história ficou rasa.

Não estaríamos falando de American Horror Story sem uma reviravolta de último minuto que faça sentido ou não, e Death Valley manteve a tradição com uma finale carregada de momentos absurdos e chocantes, porém, insuficientes para finalizar o enredo. Acompanhando a série por 10 anos, algumas finales funcionaram para mim em diferentes graus de satisfação, e Death Valley possui uma onde as falhas das ideias apresentadas pela equipe criativa de Ryan Murphy ficam mais claras. Finais ambíguos ou abertos (cliffhangers) são bons para séries que manterão suas tramas nas temporadas adiantes, mas a não ser que tenhamos um futuro onde veremos vampiros e alienígenas em conflito, tivemos aqui um final insatisfatório, para dizer o mínimo.

Mamie Eisenhower (Sarah Paulson) foi uma Primeira Dama que gerou um grande impacto cultural no Estados Unidos, e Death Valley deixou isso bem claro. Mesmo tendo sido ofuscada por Jackie Kennedy, Mamie foi em várias maneiras mais influente, se as histórias da mesma a respeito de aniversários, Halloween, e festa de ação de graças são tão confiáveis assim. Mas já que estamos num universo de Ryan Murphy, ela fez mais do que o público sequer imagina. Para entrar em termos específicos, ela é informante chamada Garganta Profunda, peça chave para o Caso Watergate, que levou a presidência de Nixon ao fim. E para Mamie participar disto, tudo o que precisou foi ter seu ingresso garantido para viver eternamente num galpão da Área 51, e o roteiro faz o possível para não fazer de Mamie uma pessoa má por se virar contra a humanidade. Claro, ela é arrogante e superficial, mas não chega a possuir um caráter inescrupuloso como o de Nixon. Ela está assustada e tem medo de ser esquecida, ofuscada e morrer lentamente num hospital igual ao seu marido. Não faz tanto sentido assim, mas ao menos tivemos Sarah Paulson guiando a personagem com sua atuação precisa.

Na trama, os últimos 60 anos da história dos Estados Unidos se resumem num conjunto de distrações elaboradas para que a população se distraísse dos avanços do projeto para gerar um híbrido perfeito humano-alienígena. Este plano nos é apresentado na reta final, e por mais interessante e conveniente que seja, a natureza espalhafatosa que esses flashbacks começam a adquirir acabam por sufocar mais ainda a história. É como se quase todas as cenas do passado funcionassem como críticas sarcásticas para os americanos da época, onde você poderia esperar um dos personagens quebrar a quarta barreira e perguntar para a audiência “Você entendeu?”.

Em “Future Perfect“, os momentos finais constroem um clímax que faz a audiência acreditar que uma aliança sincera entre humanos e alienígenas talvez seja a única chance de salvação. E ironicamente, o fim da humanidade parte da incapacidade das duas espécies de conviverem juntas. Os extraterrestres providenciaram para os humanos alternativas tecnológicas, mas a própria natureza humana considera estes “presentes” inválidos, e assim, a humanidade termina por ser o motivo de seu próprio fim, e os visitantes de outro mundo não são os verdadeiros inimigos. Death Valley teria obviamente se beneficiado com a adição de mais um episódio para que essa realização e todo o avanço temporal de 60 anos de experimentos pudesse ter espaço para se desenvolver de forma apropriada… Red Tide, com um pouco mais de tempo, apesar do final inconsistente, foi mais coesa. O ideal, para Double Feature, teria sido dividir cinco episódios para cada história ao invés de fazer Death Valley se espremer dentro de apressados quatro episódios.

É desapontante o que recebemos de Death Valley, agora que foi finalizada? Sim… Mas ao menos foram apenas quatro episódios; foi uma minissérie dentro uma antologia, e talvez isto venha de minha parte tentando compreender a equipe criativa, mas em meio ao número de dificuldades que eles podem ter enfrentado durante pandemia sem fim, não é uma surpresa que tivemos uma segunda parte um tanto desorganizada e frenética após uma primeira metade bem sólida como Red Tide. É um final que insatisfaz, mas seria tão insatisfatório quanto vampiros em fúria nas ruas de Los Angeles ou o espírito da Condessa buscando por homens com um maxilar perfeito? É certamente bem mais abrupto do que outros finais, e mesmo que o roteiro faça o possível para fazer o correto no fim da trama, nem sempre é o suficiente para amarrar tantos nós. Não sabemos se American Horror Story irá aprender algo dessa estrutura de narrativa dividida para o futuro, mas ao menos é uma prova de que a antologia ainda pode nos providenciar algo novo.

Os falhos experimentos de ‘Blue Moon’, penúltimo episódio de ‘AHS: Double Feature’

Diferente de Red Tide, que foi mais coesa em termos narrativos, Death Valley foi claramente dividida entre seções do passado e do presente. Assim, existe uma diferença de qualidade dentre as seções, com maior foco, até então, nas conspirações de 1950 e menor foco nos jovens sequestrados pelos extraterrestres. Pela maior parte, apesar de alguns tropeços, os flashbacks tem sido a parte mais efetiva de Death Valley. A audiência não necessariamente precisa dos jovens do presente, pois estão mais interessados em como os extraterrestres fincaram raízes nos Estados Unidos ao invés dos problemas de homens grávidos. Mas essa é nada além de uma nota tardia, pois já estamos na reta final.

Com o passar dos anos, os esforços para gerar híbridos de humanos e alienígenas pelos misteriosos extraterrestres de 1950 parecem estar chegando perto de algo familiar para os terráqueos. Vimos as primeiras tentativas com o bebê-monstro que Amelia Earhart (Lily Rabe) gerou, mas estão se aproximando, observando que a aparência de Theta (Angelica Ross) parece metade humana. Entretanto, eles possuem centenas de experimentos falhos dentro de jarros de vidro como um museu de anomalias que vimos em Freak Show, e todos estes experimentos vieram de algum lugar.

Aparentemente a equipe criativa não pretende deixar nenhuma teoria da conspiração do governo americano deste período de tempo intacta. Marilyn Monroe (Alisha Copper) e John Kennedy (Mike Vogel) foram mortos por saber demais e não conseguirem guardar segredo, as abduções drasticamente aumentando em escala, Valiant Thor (Cody Fern) aparece e o país está prestes a ter um grande crescimento tecnológico, e por esta razão, uma história precisa ser criada para encobrir estes acontecimentos. A história, claro, é a ida à lua, que American Horror Story faz questão de falar com todas as letras que foi um evento falso dirigido por Stanley Kubrick e filmado num estúdio na Área 51. Aparentemente, os humanos poderiam ter ido à lua, porém não seria valeria a pena todo o esforço pois nenhum avanço científico seria obtido dali já que Valiant Thor possui coisas melhores em sua maleta de metal. Infelizmente, estes presentes vindos de outro mundo possuem um preço caro, pois eles partem de cooperação voluntária do governo americano ou através da força.

A seção preto e branco do episódio contém momentos visuais marcantes para a série em termos de horror. Toda a cena de Eisenhower caminhando através do labirinto subterrâneo da Casa Branca enquanto é guiado por gritos é o suficiente para causar arrepios, e há um interessante enquadramento dos três presidentes vidrados na sala de observação lotada de experimentos falhos, com uma ótima atuação de Karl Makinen e Neal McDonough. Voltando ao presente, as cenas dos nascimentos foram horripilantes e interessantes de acompanhar. A forma como o bebê híbrido de Troy (Isaac Cole Powell) é morto chega a ser bem chocante e o ator consegue ser bem presente na triste situação.

american horror story de Love, The Phantoms

Ao contrário dos momentos com extraterrestres em Asylum, aqui a história recebe mais atenção e não parece ser algo pensado de última hora, por mais que a execução seja… Estranha e extremamente apressada. Não é ótimo, mas quem gosta de teorias das conspiração com extraterrestres pode se divertir enquanto assiste. Death Valley, como um todo, não tem engajado tanto quanto Red Tide. Entretanto, este episódio começa a finalmente amarrar as tramas e nos prepara para a season finale desta temporada.

As teorias da conspiração alienígenas em “Inside”, oitavo episódio de ‘AHS: Double Feature’

Ao fazer uma review, é mais fácil falar sobre algo que você gosta do que algo que você não gosta. Talvez seja por fazer parte desse portal por mais de 8 anos ou por outro motivo que eu tendo a ser mais positivo com American Horror Story do que alguns colegas que também assistem a série e também são fãs. Os momentos que não gosto não me impedem de apreciar os momentos que eu realmente gosto. E sendo assim, para algumas coisas eu passo panos quentes, mas episódios como “Inside” me fazem não conseguir ignorar erros.

O episódio, escrito por Manny Coto, Kristen Reidel, e Brad Falchuk, brincam de forma inteligente com teorias da conspiração que surgiram a respeito de alienígenas visitando o planeta Terra. E no meio disto, Nixon (Craig Sheffer) se infiltra e participa de tudo através dos incentivos de Mamie Eisenhower (Sarah Paulson), que não é a simples primeira dama e dona de casa que aparenta ser. Nixon aqui vem para ser a contraparte de Eisenhower (Neal McDonough), que é forçado por seu vice a tomar decisões difíceis cujas ele não aprecia por estarem bem além de seu controle.

Não é notável que American Horror Story tenha algum interesse em representar Nixon da forma mais precisa possível. A figura corcunda com rosto inchado que surge do nada enquanto o Eisenhower joga golfe mal parece ser algo palpável para nossa realidade, é mais uma caricatura de alguém paranoico, racista, sedento por poder enfiado em um terno apertado. Quando um personagem desse jeito surge na narrativa de forma abrupta termina sendo bastante distrativo e incômodo de acompanhar no começo, para dizer o mínimo. Ao menos no final da primeira parte do episódio é esperado que a audiência já tenha acostumado-se com a interpretação de Craig Sheffer, que o interpreta como o homem obcecado por assumir a presidência que a história conhece.

Eisenhower e Nixon possuem interações diferentes com John Kennedy (Mike Vogel), o primeiro, busca ser o mais decente possível, e o segundo, não busca esconder seu egoísmo latente e tendências manipulativas para continuar o acordo com os alienígenas. Mike Vogel entrega uma performance mais contida, tanto em palavras quanto em ações, e Marilyn Monroe, interpretada por Alisha Soper, possui uma interação breve, porém efetiva, com John Kennedy a respeito de seus próprios conhecimentos sobre a vida alienígena. Conhecimento esse que provavelmente será desenvolvido nos próximos episódios para a sua morte, assim como aconteceu com John Kennedy.

Toda a construção das conspirações vindas da primeira parte do episódio ganha mais corpo na segunda parte, onde acompanhamos os universitários grávidos, que conhecemos no episódio anterior. Aqui, estes são raptados por homens em ternos pretos e levados para um quarto inteiramente branco, com mobília branca e pessoas usando roupas também brancas, onde devem se alimentar de barras nutritivas dentro de gelatinas. Até então, a audiência fica tão confusa quanto os personagens que acabam de chegar ali, e enfim conhecemos Calico (Leslie Grossman), que está ali para manter os novatos calmos e complacentes para seus superiores alienígenas.

Porém, ela não alcança seu objetivo. O episódio faz um ótimo uso do estranho ambiente construído pelos visitantes de outro mundo, e a ideia de perigo está sempre presente, particularmente quando Troy (Isaac Cole Powell) começa a entrar em pânico com a ideia de dar à luz sem ter a anatomia necessária para isso. O personagem parece ser o único a ter uma reação genuína para a personagem de Angelica Ross antes mesmo que ela removesse sua máscara, que revelou ser uma híbrida entre um ser humano e alienígena. Angelica está claramente divertindo-se no papel, e é notável que há uma certa química entre ela e Kaia Gerber enquanto dividiram uma cena.

Mesmo com a distrativa introdução de Nixon, a história contada nas partes em preto e branco ainda funcionam melhor, caso fossemos colocar numa balança estas e as cenas contemporâneas. Eventualmente somos levado a algo mais sólido, e mesmo que a segunda parte seja claramente inferior, existem bons momentos que ainda a mantem no mínimo interessante, particularmente após os protagonistas serem levados ao ambiente que ainda é desconhecido para nós. Existem boas ideias sendo apresentadas, e ainda temos espaço para ver mais teorias da conspiração falsas, porém divertidas, aparecerem nos próximos dois episódios.

Os arquétipos da mitologia alienígena em ‘Take Me To Your Leader’, sétimo episódio de ‘AHS: Double Feature’

O começo do primeiro episódio de Death Valley entrega para a audiência exatamente o que ela espera de uma história relacionada a OVNIs. Uma trilha sonora com teremim, luzes fortes e vibrantes, coisas estranhas acontecendo com objetos eletrônicos, e, claro, cabeças explodindo. Tivemos breves analogias à essas alegorias clássicas do horror envolvendo vida extraterrestre em Asylum, mas agora esta trama esta no ponto central da história, e nossos visitantes de outro mundo não são tão benevolentes quanto aqueles que curaram a mente da Irmã Jude (Jessica Lange). Estes alienígenas, ao menos com o que já vimos, possuem fortes motivações para a sua invasão. Mais importante, eles causam uma primeiro impressão imediatamente assustadora. A cabeça do marido sendo explodida com um efeito sonoro similar ao estouro de um balão nos traz o exagero do sci-fi vindo diretamente do cinema dos anos 50. Sim, foi uma cena brutal e um tanto assustadora, mas um pouco divertida, provavelmente porque não aconteceu conosco.

Toda a premissa desse episódio caminha sob a linha tênue do exagerado e do horror, vindo de recursos cinematográficos com todas as possibilidades de iluminação e toques sonoros voltados para nos levar à era de ouro do sci-fi preto e branco, misturado com toques de realidade, como o Presidente Eisenhower (Neal McDonough) mentindo sobre sua saúde enquanto fuma sem parar, e a incrível Sarah Paulson como Mamie. A cena da autópsia do extraterrestre foi algo feito excelente maestria e nos mostra exatamente esta linha tênue, talvez esta tome inspiração de momentos do filme Alien e do anime Elfen Lied, mas continuam a ser muito bem executados. Existe um senso palpável de perigo e carnificina já presente desde os primeiros minutos do episódio, o que nos traz uma grande mudança de clima enquanto estamos recém-saídos de uma temporada onde os perigos aos poucos foram surgindo para a audiência. Se pudéssemos pensar como extraterrestres agiriam ao chegar na Terra, seria algo como o roteiro deste episódio, onde nos jogaram vários elementos e nos deixaram montar um quebra-cabeças sem instrução alguma.

O enredo de Death Valley se restringe narrativamente numa forma corajosa ao introduzir Amelia Earhart interpretada por Lily Rabe, que nos traz a figura da vida real ainda em estado de choque após ser encontrada nua, no meio do deserto. A pilota, que estava desparecida há décadas, tem seu desaparecimento atribuído a abudção alienígena em American Horror Story. Esta história traz o maior potencial dentre as outras subtramas iniciadas em Death Valley, com detalhes únicos e ainda não-explicados como as cicatrizes circulares nas costas de Amelia, que também funcionam perfeitamente como exemplos de narrativa visual. Infelizmente, a audiência é abduzida desta parte da história e levada até na direção oposta, introduzindo jovens super privilegiados que não conseguem tirar sexo dos seus tópicos de conversa. Num piscar de olhos, o horror clássico do sci-fi dos anos 50 é substituído por apelo sexual e cultura de influencers de rede social. Essa guerra constrangedora de temas termina por dividir o espaço de 40 minutos na première desta segunda parte.

É difícil não sentir um impacto quando a segunda metade de “Take Me To Your Leader” nos leva ao presente e nos introduz um grupo de caricaturas que só a equipe de Ryan Murphy poderia escrever. Todos estes novos personagens são introduzidos com um dossiê estilizado que bombardeia a audiência com detalhes a respeito de cada um, para assim o mesmos terem tempo suficiente para falar de sua vida sexual e seus fetiches. Cá entre nós, não há absolutamente nada de errado com personagens que falam sobre sexo ou são bem sexuais, ou até pessoas que se definem desta forma. Simplesmente parece ser algo extremamente brando da parte da equipe criativa de Ryan Murphy nesta altura do campeonato, e é difícil simpatizar-se com personagens quando os mesmos parecem paródias. Entretanto, mesmo que estes personagens jovens sejam frustrantes de se acompanhar, os mesmos tomam decisões inteligentes no decorrer do episódio. Eles imediatamente buscam fugir de local onde estavam acampando após reconhecerem que estariam em perigo se permanecerem.

É fácil não dar tanta atenção a momentos que nos fazem franzir a testa para a última metade de “Take Me To Your Leader“, já que o episódio anda tão rápido que ao final do mesmo os protagonistas já estão grávidos dos extraterrestres e os créditos finais começam a rolar. Uma típica temporada da série talvez levaria mais dois episódios para que algo nesse nível acontecesse. Contar a história de uma temporada nessa velocidade nem sempre é uma receita que se finaliza num bom resultado, mas contribui para episódios com bastante eventos. Será interessante ver como essa linha do tempo se conectará com a linha do tempo dos anos 50 e não será uma surpresa se cada um dos quatro episódios de Death Valley siga a estrutura de dividir o episódio entre essas duas cronologias.

Sempre que este seriado se aproxima de um sub-gênero do horror que ainda não havia sido bem explorado, a tendência do roteiro é jogar para a audiência todo o tipo de ideia — apropriada ou não — e ver qual possui mais apelo. O episódio de abertura de Death Valley faz isso com uma variada quantidade de alegorias populares em abdução de alienígenas, mas ainda assim nos levam para momentos que continuam a serem perturbadores e até mesmo novos. American Horror Story já chegou a um ponto onde é impossível prever a trajetória ou o nível de qualidade de roteiro que teremos ao final de qualquer temporada. Nesse sentido, talvez seja um tanto ingênuo dizer que “Take Me To Your Leader” é um começo promissor que deixa espaço para que a história ganhe boas reviravoltas nos próximos episódios. Red Tide teve um ótimo desempenho até o fatídico final, mas quem sabe Death Valley nos prove que quatro capítulos seja a quantidade necessária para se contar boa uma história.

Entrevista do American Horror Story Brasil com V Nixie de ‘AHS: Double Feature’

V Nixie é conhecida por suas transformações corporais para interpretar papéis monstruosos em filmes e seriados. Ela já passou por American Horror Story em ‘Apocalypse’ como uma boneca robô e em ‘1984’ como o corpo em decomposição de Bobby (irmão de Mr. Jingles). Neste ano, ela recebeu mais tempo de tela como um dos Pálidos que conhecemos em Red Tide, a primeira metade de ‘Double Feature‘, e como uma das Alienígenas nos pôsteres e teasers da série. Ela também participou do sexto episódio de American Horror Stories, spin-off de AHS. Na última semana, entramos em contato com ela para uma entrevista exclusiva e ela carinhosamente aceitou. Vem ver tudo o que ela nos contou sobre os bastidores:

ATENÇÃO: Spoiler do sexto episódio de American Horror Story: Double Feature.

AHSBR: Você participou de “Apocalypse” e “1984” em papéis menores, mas esteve no set com Evan Peters, Frances Conroy, John Carroll Lynch e mais. Nós gostaríamos de saber como foi o processo para estar nessas temporadas e se o mesmo aconteceu com “Double Feature”.

V NIXIE: O processo de entrar para o elenco foi completamente diferente para cada temporada para mim. Esta em particular foi única porque eu fiz o teste antes do COVID-19 aparecer e então tudo ficou em espera por um ano. Acho que eles fizeram um excelente trabalho de casting para esta série. Cada ator com quem tive o prazer de trabalhar em AHS foi fenomenal e uma alegria.

V Nixie nos bastidores de ‘Apocalypse’ e ‘1984’.

AHSBR: Sabemos que Sarah Paulson não filmou suas cenas em Provincetown. Você precisou gravar algumas cenas em lugares diferentes? Se sim, como é filmar a mesma cena em locais diferentes?

V NIXIE: Tivemos que regravar algumas cenas, o que não é incomum em outros programas de TV ou filmes. Você consegue o máximo que pode no local e às vezes até mesmo com isso você precisa fazer uma refilmagem em um estúdio ou outro local. Para isso, nos mostraram algumas edições de vídeo do que já havíamos filmado para nos lembrar do que havíamos feito anteriormente. Felizmente, também não demorou muito entre as filmagens.

AHSBR: Esta é a primeira vez que você participa da campanha de marketing de American Horror Story como um dos alienígenas nos pôsteres e teasers da série. Como foi estar nisso tudo? Conte-nos uma curiosidade dos bastidores.

V NIXIE: Bem, quando recebi a ligação e tudo o que eles disseram foi “aliens“, eu sabia que estava dentro. Não me lembro exatamente, mas acho que tinha entre 20-30 pequenas peças protéticas no meu corpo para compor todo o look de alienígena. Aliás, estou contando cada dedo como um peça. Os olhos alienígenas podiam ser removidos para que eu pudesse andar e ver enquanto caminhava pelo set, no entanto, uma vez que eles eram colocados, eu só conseguia ver pequenas mudanças de sombras na luz e no escuro, então foi muito difícil memorizar a distância que as coisas estavam. As cenas que você vê nos teasers e nas fotos são todos sets detalhados e lindamente construídos, eles eram absolutamente maravilhosos e pareciam como se estivéssemos em um lugar real!

AHSBR: De acordo com sua página do IMDb, seu primeiro projeto foi “Tales of Halloween”, de 2015. Quando você se interessou pela atuação e percebeu que tinha talento para ser uma atriz dublê?

V NIXIE: Na verdade, meu primeiro projeto foi “Amityville: The Awakening” em 2014. O IMDb lista apenas quando os projetos são lançados, e demorou muito para eles lançarem aquele filme depois que o fizemos. Comecei a atuar ainda criança como Gretel na produção de “Sound of Music” da minha cidade, e também como cão de trenó em um show turístico. Continuei atuando até ir para a faculdade de atuação. Eu sempre quis ser atriz. Eu ainda não me considero uma “atriz dublê”, embora eu tenha trabalhado bastante com cenas de ação. Sou uma grande fã de dizer “Sim, vou tentar fazer isso”, e se for ensinado a fazer com segurança, então posso descobrir novos talentos ocultos ao longo do caminho. Sempre fui atraída pelo estranho, então interpretar personagens estranhos sempre foi mais divertido para mim! Embora eu não tenha imaginado que poderia interpretar monstros e criaturas. Minhas escolhas estranhas trouxeram essas oportunidades à minha porta várias vezes, até que eu disse: “Acho que devo tentar seguir este caminho!”.

AHSBR: Você também participou de American Horror Stories, como um dos selvagens que ataca Cody Fern. Aquela cena foi incrível! Como foi ser chamada para o spin-off de AHS e gravar algo tão horripilante quanto canibalismo?

V NIXIE: Eu estava super animada para trabalhar em ambas as séries e na divulgação promocional deste ano, sempre estou disponível para qualquer produção de Ryan Murphy! Honestamente, não foi a primeira vez que comi um humano em um programa de TV e provavelmente não será a última. Várias das personagens que eu interpretei têm muito sangue ou fluidos corporais atingindo-as ou saindo delas e, felizmente, nunca tive problemas com essas coisas. Para a mentalidade da minha personagem, tendo a escolher um animal para ser, ou uma combinação de animais, então para mim o personagem de Cody Fern era apenas uma presa natural. Eu era uma daquelas crianças estranhas crescendo que achava que coisas mortas e sangue são fascinantes, então nunca fui afetada pelo que eles me pediram para fazer.

AHSBR: Nós precisamos saber se você assiste suas próprias cenas e principalmente se você assistiu todas as temporadas de American Horror Story. Se sim, qual é a sua temporada favorita até agora?

V NIXIE: É difícil assistir a mim mesma nas coisas que fiz, mas faço isso para poder aprender e me ajustar para os próximos papéis. Tenho assistido aos episódios de “Double Feature” deste ano enquanto vão ao ar! Assisti a maior parte da série, exceto Roanoke, Cult e não terminei 1984. Pretendo assistir tudo! Eu preciso dizer que sou parcial entre esta temporada e Apocalypse, porque eu as gravei. Favoritos são muito difíceis para mim, então não tenho certeza se posso escolher!

AHSBR: Você pode compartilhar conosco uma foto dos bastidores de qualquer temporada em que você participou e nos dar o contexto do que havia acabado de acontecer?

V NIXIE: Não quero revelar nada ainda para aqueles que ainda não assistiram a este último episódio, então direi apenas: essa foto foi tirada depois que Laurie e eu terminamos de gravar nossa cena com Frances Conroy na casa. Ela nos chamou de “Amigos Pálidos” (“Pale Pals”). Nem preciso dizer que Frances foi um tesouro absoluto de se trabalhar. Ter a chance de vê-la passar pelo seu processo de personagem foi realmente inspirador.

Laurie Déziel, Frances Conroy e V Nixie nos bastidores de ‘Red Tide‘.

AHSBR: Muito obrigado pelo seu tempo conosco nesta entrevista! Estamos muito felizes com isso. Por último, mas não menos importante: qual é o seu conselho para os jovens que gostariam de entrar na indústria do cinema e da televisão?

V NIXIE: Muitos conselhos! Chegue cedo, se você chegar na hora, você está atrasado! Continue aprendendo coisas novas em seu ofício. Tente ser gentil com todos no set, não importa quem sejam e qual seja o seu trabalho. Agradeça a sua equipe por tudo o que eles fazem! Agradeça cada oportunidade. Assuma riscos. Cuide de sua saúde mental e física, pois é uma profissão difícil de escolher. Fale com pessoas que estão fazendo o que você deseja fazer e veja se elas irão te orientar. Por último, converse com as pessoas sobre os sonhos delas e os seus, muitas vezes você pode encontrar maneiras de apoiar uns aos outros com eles.

A pálida conclusão de ‘Red Tide’ em ‘Winter Kills’, 6º episódio de ‘AHS: Double Feature’

Após anos acompanhando esta série, sabemos que American Horror Story não possui problema em criar eventos que são catastróficos em larga escala. Talvez o anúncio de que bruxas e magia existem de verdade, um culto que constrói uma base política, um apocalipse nuclear (que foi desfeito), ou talvez a destruição da cidade responsável por boa parte da indústria do cinema ocidental que hoje conhecemos, apenas por causa da ganância de uma única pessoa. De todo modo, quando há a escolha entre grandes ou pequenas proporções, American Horror Story vai escolher o lado maior. Isso ficou mais claro do que nunca com a series finale de Red Tide.

A situação em Provincetown se complica cada vez mais; a polícia do estado já está investigando todo os assassinatos sem explicação, e o conselho da cidade fica à cargo de por uma pausa no grande número de mortes que estão acontecendo nos arredores locais. Holden (Denis O’Hare) resume a situação de forma bem simples ao dizer que os invernos possuem acontecimentos estranhos, mas todos estão acordados a passar panos quentes a estas situações para se certificarem que no verão os turistas continuem a vir e façam o comercio local circular de forma eficiente, e nenhum investigador do estado vai impedir isso.

Isso nos leva de volta ao clímax da história da família Gardner, que tem sua conclusão no meio do episódio. Existem conspirações por cima de conspirações, com Belle (Frances Conroy) e Austin (Evan Peters) de um lado, e Harry (Finn Wittrock) e Alma (Ryan Kiera Armstrong) do outro, com os dois lados em conflito por motivos diferentes. Belle e Austin querem os Gardners mortos, para impedir a influência de Hollywood em Provincetown, poder preservar seu estilo de vida — que se encaixa no mesmo argumento de Holden — e impedir que quaisquer empecilhos que possam lhe prejudicar. Harry apenas quer que sua família saia ilesa da cidade e reinicie sua vida em outro lugar, vivendo apenas dos lucros que irá conseguir com o seu estoque de roteiros e poder se dedicar inteiramente à carreira de violinista de Alma, livre do uso das pílulas pretas. Entretanto, reformulando a frase de Ursula (Leslie Grossman), algumas portas jamais podem ser fechadas uma vez abertas. Conseguir isso jamais seria fácil para Harry, uma vez que conseguiu saber como é ser um gênio, ter um código moral que já foi arruinado uma vez é algo que fica apenas no conceito e jamais será recuperado.

E talvez seja este o objetivo deste episódio, ao final do mesmo, Ursula está palestrando para um grupo de escritores aspirantes em um seminário, e traz à tona um argumento sincero. Escrever não envolve tanto talento quanto envolve ser capaz de ignorar o tédio e rejeição e se dedicar bastante no duro trabalho de escrever roteiros, livros, músicas ou qualquer que seja o tipo de arte. A Musa é um atalho para liberar todo o potencial criativo, mas o que separa as pessoas talentosas das não-talentosas é o discernimento do que pode continuar a impulsioná-los a serem cada vez melhores, mesmo que saibam o quanto a pílula irá mudar suas vidas.

Todo o monólogo agressivo de Belle e o discurso incisivo de Ursula falam muito bem a respeito disso. No universo de American Horror Story, em particular, Hollywood é um lugar cheio de pessoas egoístas que estão dispostas a tudo para permanecer no topo. Pessoas como Harry, que aparentemente tem uma mudança de espírito e tentam se corrigir após conseguir garantir sua fortuna são raras. Outras pessoas, como Alma, não se importam com o novo estilo de vida. Ela é a melhor no que faz e sabe disso, e não existe nada que irá a impedir de se superar e rasgar gargantas até chegar ao topo e além.

E quando falamos que nada irá ficar no seu caminho, até seu próprio pai está incluso. As intenções de Alma jamais foram postas de maneira dúbia para a audiência, ela está sempre planejando algo. Entretanto, quando seu plano é executado, ainda é chocante, mesmo para os padrões de American Horror Story. E assim, temos uma sequência divertida e muito bem editada, com doses de gore e jump scares, particularmente quando os pálidos quebram as janelas da casa de Belle. Chega a ser um momento um tanto surpreendente (para quem não assistiu os trailers promocionais), pois a cena no cemitério é filmada de forma ambígua o suficiente que lhe faz ficar incerto se a família Gardner terá ajuda externa ou não. Entretanto, a decisão de culpar todos os assassinatos de Provincetown em Harry parece muito rasa, e é algo que poderia ter saído do roteiro de alguém que se tornou numa criatura pálida após tomar a pílula Musa.

Finn Wittrock, especialmente nestes episódios finais, entregou uma performance cheia de camadas. Sua exaustão enquanto ele tenta manter sua família unida, controlar Alma, e genuinamente acreditar que ele pode se redimir e recuperar sua honra após todas as vidas que consumiu para poder criar suas obras-primas. Claro, Ryan Kiera Armstrong continua como um grande destaque na temporada, especialmente quando divide tela com Lily Rabe ou Finn. Leslie Grossman continua a vender bem a caricata Ursula, que termina sendo encaixada como a nova mãe nessa estranha família e basicamente ganha um foco de personagem principal na reta final de Winter Kills.

O segundo ato de “Winter Kills” talvez teria funcionado melhor se o mesmo fosse o começo do episódio, e talvez assim a história não teria saído um pouco dos trilhos caso já tivesse começado em Hollywood e deixasse a audiência preencher as dúvidas com flashbacks ao longo do episódio. São tomadas uma série de escolhas fáceis, e um caminho simples é seguido, o que não é necessariamente ruim, mas tudo parece muito repentino. Uma finale que nos levasse a um flashfoward com uma cidade cheia de pessoas consumindo as pílulas pretas, ou um momento onde Alma é uma pessoa adulta e podemos ver o que uma vida inteira de consumo da pílula faria com um ser humano talvez não fosse uma melhor alternativa, mas provavelmente teria sido mais interessante do que recebemos. Tudo o que acontece na segunda parte de “Winters Kills” é mais uma conclusão rasa do que um preparo para algo mais rico. O uso das pílulas para se livrar de policiais ruins e fazer justiça social é algo que não havia sido abordado na temporada e parece um tanto deslocado, e tudo isso se desmorona num caos gerado por Ursula que pode levar a uma catástrofe maior. E nós, enquanto audiência, já vimos isso na série.

Red Tide possuir uma estrutura de seis episódios parece ter tido um benefício para American Horror Story em termos de novidade e resolução de problemas narrativos, por mais que mantenham esta estrutura ou não. Esta temporada poderia ter mantido seu caráter sucinto que tivemos no começo, mas a temporada possui mais acertos que erros e nos traz uma história com um começo, meio e fim claros. “O talento existe, mas não é nada sem habilidade” é uma frase dita nos momentos finais, mas termina sendo algo vazio com uma finale cujo segundo ato é rico em visuais grotescos e traições chocantes, mas conflitante quando falamos de conteúdo. É compreensível que exista um desapontamento que esta primeira parte termine sem o mesmo capricho que tivemos no episódio anterior, mas o mesmo não remove todos os pontos altos que Red Tide teve.