As conspirações e inspirações em ‘BA’AL’, 5º episódio de ‘AHStories’

Filmes de horror com gravidez no ponto central fazem parte de um terreno bem explorado ao longo de décadas e ainda é efetivo quando bem executado. Existem poucas coisas menos tensas de acompanhar do que uma pessoa no ápice de sua vulnerabilidade, tornando-se alvo de uma sequência de atos que coloquem em risco sua vida e a da criança que está carregando. “BA’AL” parece ser uma sondagem moderna dessa temática e dos medos que existem ao seu redor que outros filmes já exploraram, como Bebê de Rosemary, Perigo na Escuridão e Os Filhos do Medo, porém não há muito acontecendo nesse episódio que justifique a entrada de American Horror Stories neste território.

Boa parte desse episódio foca apenas em Liv (Billie Lourd) num conflito interno a respeito do estresse de ser uma mãe estar causando alucinações nela, ou se realmente há algo sombrio acontecendo em sua casa. Esse é um ponto de vista comum a ser abordado em filmes de horror com essa temática, e assim, essa escolha de estruturar a trama desta forma parece familiar às produções que são superiores em termos de qualidade. Entretanto, “BA’AL” ainda possui momentos que são efetivos. O totem de fertilidade ser o pontapé inicial parece dar um pouco de originalidade a esta história, apesar de o objeto ter sido introduzido de uma maneira um tanto constrangedora e apressada. Existe tensão suficiente e bem estruturada na primeira metade de “BA’AL”. As referências a Atividade Paranormal com as câmeras e babá eletrônica são bem utilizadas, assim como o uso da distorção nas músicas de ninar e o som de estática durante as cenas mais tensas.

No passar dos últimos anos, acompanhamos o crescimento de Billie Lourd como atriz e a vimos em ótimos momentos em Cult e 1984, e assim havia um sentimento de animação ao vê-la protagonizando este episódio, mas sua personagem está boa parte do tempo exausta, fazendo beicinho ou enfurecida, e isto termina sendo difícil de acompanhar ao longo de 40 minutos. Os momentos onde vemos a personagem divertindo-se com seu filho são bonitos e nos traz um lado de Billie que ainda não havíamos visto, especialmente nas produções de Ryan Murphy. Porém, todos os personagens ao redor de Liv são desprovidos de qualquer coisa que lembre traços de personalidade, o que termina dando a atriz um destaque indireto.

Existe uma estranha tendência para que histórias de horror com gravidez gerada por rituais terminem num ponto onde todos os personagens estiveram conspirando contra a personagem principal. “BA’AL” segue esta tendência, mas é questionável a motivação por trás da escolha. Todos os colegas de faculdade de Matt utilizaram de seus conhecimentos adquiridos na indústria de filmes para enganar Liv com efeitos especiais e maquiagem, e é inquestionável que é uma forma simples e fácil de justificar o que vimos. Mas não é suficiente. Não parece plausível que um grupo de amigos casualmente concordaria em entrar num esquema desse tipo para destruir o psicológico de uma pessoa inocente. Porém, certamente deixa mais fácil para a audiência apreciar o momento em que todos são mortos brutalmente por um demônio.

A problemática que existe em fazer um episódio como “BA’AL” é que o mesmo precisa que, no mínimo, seja mais interessante do que outros programas de horror atuais que possuem demônios, gravidez e crianças em suas tramas. Talvez seja notável que houve pouca motivação para escrever uma review sobre esse episódio, pois não há muito a se dizer a respeito do mesmo. Infelizmente, boa parte do desenrolar da trama parece preguiçoso, e é como se existisse uma lista de momentos comuns nesse tipo de trama para serem feitas neste episódio. Se a história, conforme progredisse, utilizasse mais do humor mórbido e histérico que é apresentado nas cenas finais, talvez a mesma tivesse funcionado mais, ao invés de deixar boa parte da audiência com um grande ponto de interrogação na cabeça. Para compreender o quão irrelevante é o papel do demônio Baal aqui, o mesmo poderia ser facilmente substituído por outra entidade e a trama se desenrolaria da mesma forma. Infelizmente, todo o enredo do episódio não é somente previsível, mas também não parece ter criatividade alguma além de ser uma tentativa de remake contemporâneo de o Bebê de Rosemary.

Por Gabriel Fernandes em 20 de August de 2021

"Tu fui, ego eris". Arquiteto e urbanista, ilustrador independente, colecionador de mangás e grande apreciador do gênero terror em filmes, séries e jogos.