As decisões inconsequentes em ‘Thirst’, terceiro episódio de ‘AHS: Double Feature’

Uma das coisas favoritas que tenho em relação a American Horror Story é o fato de que se algum enredo ou personagem já parece não estar funcionando muito, torna-se óbvio que em poucos episódios o personagem ou enredo irá chegar ao seu fim. E assim funciona a natureza de uma antologia, caso não esteja funcionando para você, se você não acompanhar a série por uma temporada, no ano seguinte poderá acompanhar algo completamente diferente em tonalidade, ambientação e conteúdo, mesmo que tenha alguma referência à bruxas ou cultos de histórias passadas. Ao escolher dois temas para unir em uma temporada de tamanho menor, Ryan Murphy e Brad Falchuk estão utilizando o ideal de uma antologia da forma mais lógica possível. Teremos um pouco de vampiros, um pouco de alienígenas e Ryan Murphy não irá parar até que cheguemos ao fim desta viagem.

De certo modo, é uma forma interessante de trazer tramas para o enredo que normalmente se estenderiam de forma cansativa numa temporada normal com 10 episódios. Comparando a uma história em quadrinhos: às vezes, volumes de revistas em quadrinhos não possuem história suficiente para preencher a quantidade necessária de páginas, e então uma história extra é adicionada. Assim é o caso de Double Feature, pois é notável que a história está correndo a passos cada vez mais apressados em Red Tide. E eu não poderia estar mais satisfeito com isso.

No episódio passado, Alma (Ryan Kiera Armstrong) tomou a sua primeira dose da Musa e tocou violino com uma perfeição jamais alcançada antes por ela, e agora possui, literalmente, um pacto de sangue com seu próprio pai. Harry (Finn Wittrock) agora é responsável por conseguir sangue para os dois, pois o mesmo com todas as suas falhas, é um pai dedicado que está disposto a pensar em novas maneiras de sanar a sede de sua filha que cresce cada vez mais. Fica bastante claro a partir do momento em que Harry pega as pílulas do lixo de volta apenas para ser pego no ato por sua filha, que toda a situação já está fora de controle. E tudo isso chega a um ponto de onde não há mais retorno no final deste episódio com o assassinato inconsequente da Chefe de Polícia Burleson, encerrando de forma abrupta a participação de Adina Porter na história.  

A aparição de Ursula (Leslie Grossman) torna-se uma complicação ao ser um problema adicional dentro de tudo o que está acontecendo na vida de Harry, que agora precisa esconder tanto o seu vício quanto o de sua filha. A personagem chega em Provincetown ofendendo pessoas perigosas como Belle Noir (Frances Conroy) e Austin Sommers (Evan Peters), e ainda consegue fisgar a confiança de Mickey (Macaulay Culkin) através de manipulação para conhecer a misteriosa Química (Angelica Ross). Ursula é, aqui, um catalisador para que a história continue a correr no ritmo certo.

Em resumo, “Thirst” é um preparatório para bastante drama, com todos os personagens se entreamando cada vez mais e levando a história a patamares mais altos e perigosos. Brad Falchuk nos entregou mais um episódio de qualidade, com várias falas ácidas para Ursula que Leslie Grossman entrega com maestria, e também textos igualmente incríveis de escutar vindos da Belle de Frances Conroy. A introdução oficial de Ursula na trama muda os rumos da história, e sua presença mexe com os nervos de todos os personagens que vimos até agora, com o roteiro deixando claro que sua personalidade abrasiva e incisiva trará consequências que respaldarão para todos ao seu redor.  

O elenco recebe uma atenção mais dividida neste episódio, e pudemos ver mais de personagens que não estão no núcleo principal, com exceção de Lark (Billie Lourd) e TB Karen (Sarah Paulson). Mas boa parte do desenrolar da história fica bem marcado com os visuais que Loni Peristere conseguiu desenvolver através de espaços vazios. Todos os enquadramentos de cenários parecem preenchidos com espaços vazios, como algumas cenas do bar que enfatizavam a falta de clientes, e também a cena da praia com Mickey, onde pudemos perceber o quão vazio e desolado o local estava a ponto do personagem cometer um assassinato e sair impune. A série quer deixar claro através dos visuais que não há muitas pessoas na cidade além de uma polícia incompetente, moradores de caráter duvidoso e viciados em sangue que parecem possuir parentesco direto com o vampiro Nosferatu.

Lembrando que Red Tide consistirá em seis episódios e agora chegamos ao meio da primeira parte, “Thirst” é um episódio consistente e que mantém o progresso da história, voltando a atenção uma reclamação notável de parte da audiência, que querem ver mais dos personagens coadjuvantes. O próximo episódio, “Blood Buffett” nos trará um momento para respirar ao nos trazer mais do passado dos já residentes de Provincetown, talvez assim, sanando a reclamação mencionada. Em “Thirst”, fica claro que a dinâmica perigosa entre os residentes e os forasteiros tornou-se o coração da temporada e logo veremos o quão catastróficos podem ser os resultados da convivência entre estes.

Por Gabriel Fernandes em 08 de September de 2021

"Tu fui, ego eris". Arquiteto e urbanista, ilustrador independente, colecionador de mangás e grande apreciador do gênero terror em filmes, séries e jogos.