As despedidas e desfechos em “Final Girl”, season finale de “1984”

Houve bastante especulação no episódio anterior a respeito de quem seria a final girl. Brooke (Emma Roberts) foi a protagonista desta temporada desde o início, e Donna (Angelica Ross), aos poucos, tornou-se sua “parceira de crime” na reta final. Mesmo com todo o esforço das duas para acabar com o mal no acampamento Redwood (a.k.a. Margaret Booth), “Final Girl“, nos serve como um lembrete de que a família Richter é o que solidifica a temporada. Enquanto esta história de época nos trás ao presente, três gerações desta família devem confrontar, de uma vez por todas, toda a dor e tragédia que o acampamento Redwood lhes trouxe.

Uma das particularidades mais fortes desta temporada foi como utilizaram o que parecia ser uma subtrama simples e comum em filmes do gênero slasher em histórias de fundo efetivas para os personagens: o trauma generalizado. Algumas histórias foram realmente trabalhadas e interessantes, e outras, um tanto forçadas e esquecidas no meio do caminho. Isto fica claro ao se traçar um comparativo entre o que foi feito com a história do passado de Benjamin (John Carroll Lynch), e o rumo que levou a de Xavier (Cody Fern). O período de tempo da temporada foi obviamente anunciado com o subtítulo da mesma, 1984, mas foi interessante ver que a história se estendeu e também retrocedeu à outros períodos, algo que podemos sempre esperar em American Horror Story. O massacre que acontece em 1984 é apenas uma das diversas tragédias que decaíram no acampamento, até chegarmos em 2019, onde um novo capítulo é incorporado à esta história. No contexto da direção que a história tomou nos últimos episódios, “Final Girl” faz certo sentido como season finale de narrativa bifurcada, indo e voltando de 2019 para os eventos do massacre planejado no festival musical de halloween no acampamento Redwood em 1989.

Por certo tempo, “Final Girl” força sua narrativa na direção de Donna, buscando estabelecer uma relação da personagem com o título, mas logo percebemos que este não é o caso. Brooke não somente sobreviveu sua última visita ao acampamento em 1989, mas também tem providenciado dinheiro para Bobby Richter (Finn Wittrock) por décadas, fazendo o possível para que ele tenha uma vida digna. Apesar de compartilharem o título de “final girl”, tanto a aparição de Brooke quanto Donna são breves e serviram como uma forma de realçar que é possível seguir em frente e viver normalmente após experienciar momentos traumáticos.

Muitas tramas foram finalizadas neste episódio, algumas de maneira questionável e, para ser sincero, preguiçosa. Mas finalizar arcos de maneira satisfatória não foi o foco nesta season finale, a direção seguida foi algo bem mais simples. A mensagem presente nas aparições de Brooke e Donna termina ficando proeminente também com o arco de Bobby, que é possível viver confortavelmente após passar por situações traumáticas. Deixar esta mensagem em evidência foi o verdadeiro foco de “Final Girl”. Esta ideia é também percebida em franquias famosas do gênero slasher, como Halloween (2018) e a série Scream, pois é um ideal palpável e significativo. Em boa parte do episódio vemos mais personagens apenas conversando entre si do que épicos confrontos. Há bastante matança, claro, mas é um encerramento de trama onde os abraços carregam mais peso para a história do que um esquartejamento.

Ao todo, esta temporada de American Horror Story nunca demonstrou pretensão alguma de ser algo grandioso ou profundo, e assim, acertou na sua proposta como uma obra de terror slasher. Todos os membros do elenco tiveram seus momentos de destaque e receberam episódios com situações individuais onde puderam mostrar seu talento, em certa capacidade. Emma Roberts como Brooke foi o centro da temporada e funcionou bem no seu papel inicial de “mocinha insegura”, entregando-nos uma performance satisfatória ao decorrer da temporada, enquanto sua personagem mudava até tornar-se a mulher destemida que vimos no último episódio. Entretanto, a verdadeira estrela da temporada foi John Carroll Lynch, que além de nos entregar cenas carregadas de suspense, também mostrou ser um excelente ator nas cenas dramáticas e emotivas. Billie Lourd e Angelica Ross também demonstraram ótimas atuações em 1984, com seus personagens igualmente interessantes, gostaria muito de ver Angelica participando de mais projetos de Ryan Murphy. E por menor que tenham sido as participações de Dylan McDermott e Lily Rabe, os dois também não desapontaram e nos lembraram do quão maravilhoso é o elenco veterano.

E como nem tudo são flores, existem momentos preguiçosos no roteiro desta finale. Um deles já foi comentado e notado por todos os fãs que assistiram as temporadas anteriores, e até que a equipe criativa surja com uma boa explicação (cof, cof, desculpa), vai ficar como um erro de roteiro bem feio. Richard Ramirez (Zach Villa) é um personagem que não é estranho ao universo de American Horror Story, já que em Hotel, o espírito do assassino após ter morrido aos 53 anos de idade (aqui interpretado por Anthony Ruivivar) participa anualmente do jantar de halloween de James Patrick March (Evan Peters). Mas segundo 1984, o serial killer fugiu da prisão e está num loop de morte e ressurreição no acampamento Redwood de 1989 até os dias atuais. Isto ficou extremamento confuso e poderia facilmente ter sido evitado ao criar um personagem que não fosse uma figura da vida real já usada anteriormente. Além deste problema, todo o alvoroço gerado em cima do plano de Margaret para causar um massacre no festival de música foi simplesmente lidado com um ônibus atravessado na estrada. Isto deixa um cheirinho de trapaça por parte da equipe criativa, que precisavam de hype suficiente para a audiência acompanhar a season finale.

Assim, “Final Girl” é uma conclusão bem expositória, com o episódio finalizando o máximo de arcos possíveis enquanto lida com um novo, e chega a lembrar a conclusão de Asylum, com sua narrativa bifurcada em duas linhas de tempo. 1984 é uma temporada que abraçou o gênero slasher e todos os seus clichês, e a audiência que se satisfez com o ritmo e não esperou muito além disto, também se satisfez com a finalização da história do acampamento Redwood. American Horror Story continua sendo uma série que por vezes nos demonstra falhas, mas ainda assim, a simplicidade da trama de 1984 indica que a série poderia sim continuar por mais alguns anos.

Por Gabriel Fernandes em 25 de November de 2019

"Tu fui, ego eris". Arquiteto e urbanista, ilustrador independente, colecionador de mangás e grande apreciador do gênero terror em filmes, séries e jogos.