Os lobos em pele de cordeiro em “True Killers”, 4º episódio de “1984”

As vezes é fácil identificar quais são os assassinos numa obra de horror — o homem mascarado ou então a pessoa carregando uma grande faca de cozinha. Em outras circunstâncias destas obras, não fazemos ideia. ‘1984’ se encaixa nisso, ao menos inicialmente. Tudo apontava para para Sr. Jingles (John Caroll Lynch) ou Richard Ramirez (Zach Villa) como os vilões da temporada, mas em “True Killers”, os vilões chegam disfarçados como uma uma professora de aeróbica, cientista e diretora de acampamento.

Após a revelação sobre Montana e Richard estarem juntos, o episódio tenta explicar a relação nada convencional do casal. Este breve vislumbre no passado dos dois também nos revela que Montana possuía uma pré-existente relação com Brooke (Emma Roberts). O padrinho de casamento que foi morto pelo noivo de Brooke era irmão de Montana. E apesar de parecer complicado a culpa cair diretamente na noiva, é interessante descobrir que a professora de aeróbica possui um forte motivo para acabar com a vida de Brooke, ao invés de ser apenas um ódio cego motivado por sua relação com o Night Stalker.

A cozinheira do Acampamento Redwood, Chefe Bertie (Tara Karsian), também ganha bastante tempo de tela nesta semana enquanto tenta ajudar tutores e reencontra um ex-colega de trabalho. É genuinamente tenso e surpreendente quando Benjamin Richter casualmente come um sanduíche preparado por Bertie, ao som de Stevie Nicks, e momentos depois volta à sua fúria. Ao assistir a cena, parece bem conveniente a cozinheira ser instantaneamente esfaqueada enquanto Xavier (Cody Fern) é somente nocauteado. Mas, a tentativa de assassinato de Xavier termina sendo uma das cenas mais agonizantes até agora na temporada.

Os créditos da direção da cena vão para Jennifer Lynch, regular na equipe de American Horror Story desde Roanoke. A diretora parece ter um talento particular para o macabro, e dá o seu melhor para criar jump-scares efetivos. Pode-se perceber vários momentos no episódio onde Jennifer cria elementos visuais bem impressionantes, além de sua habilidade de guiar os atores a criar a tensão necessária para cenas com muito diálogo, como o encontro de Jingles e Margaret e o flashback com Montana e Richard.

Mesmo que terminando de forma sangrenta, a cena da cozinha explorou mais uma vez o lado humano de Jingles, mostrando uma ligação quase de mãe e filho entre ele e Bertie. E o episódio ainda avança nesta região quando mostra a ligação entre Benjamin e Margaret (Leslie Grossman) antes do massacre de 1970. Estes vislumbres do passado que são entregues através de flashbacks são bem mais convincentes que os de Montana e Richard. Toda a relação entre “Benji” e Margaret torna-se o coração do episódio, até que a diretora do acampamento arranca este coração do peito e o destrói.

John Carroll Lynch prova que é o ator certo para interpretar assassinos gigantes, pois a trágica e verdadeira história de Jingles é como um grande soco no estômago, que resume a reação do personagem quando finalmente percebe que Margaret o traiu. Benjamin foi repetidamente uma vítima de circunstâncias, e “True Killers” nos mostra isso num grau que não era tão esperado. Não somente ela é a única sobrevivente do massacre de 1970, mas é também a responsável pelo mesmo e Benjamin não teve escolha a não ser aceitar que era um assassino.

É uma reviravolta executada de forma rápida, sem tempo para rodeios, e é finalizada com Margaret atirando em Jingles e relembrando a sensação de esfaquear alguém ao executar Trevor (Matthew Morrison) de forma impiedosa. A traição da ex-tutora do Acampamento Redwood não chega a ser uma surpresa para a audiência, mas é um momento bastante convincente com a atuação de Lynch e com o próprio roteiro do episódio, com Margaret estando perfeitamente feliz com suas escolhas e justificando tudo através do olhar de Deus, que queria que ela retornasse ao acampamento para buscar alguma redenção.

Esta vontade de buscar redenção, ou moldar as ações de alguém almejando o futuro por não ter controle do que houve no passado se percebe em Bertie. Quase todos os personagens que acompanhamos causaram a morte de alguém direta ou indiretamente por resultado de suas ações, e para a alguns deles, os traumas do passado continuam a definir o seu presente. Para outros, é possível que estes traumas possam ser transformados em algo novo, que funcionem como incentivo para atitudes positivas. Bertie não voltou ao acampamento sem motivos, e sim por querer ajudar Margaret a superar sua dor.

E caso todas as revelações não fossem o suficiente, o final do episódio nos traz um lembrete amigável que também estamos lidando com fatores sobrenaturais na temporada. Começamos com o fantasma de Jonas que morreu repetidas vezes, e agora temos Satanás, num universo onde o anjo caído já provou ter um papel ativo em ajudar outros diretamente, intercedendo por Richard Ramirez, dando-lhe uma segunda chance para continuar com sua violência sem fim. De toda forma, mesmo que a audiência já estivesse atenta aos segredos do Acampamento Redwood desde o começo, American Horror Story raramente utilizou de sutileza para tratar de temas importantes para a trama, e várias reviravoltas deste episódio já foram pressagiadas nos episódios anteriores. O fato de ‘1984’ não estar tentando estender certas tramas, pode significar que a equipe criativa está confiante em deixar a longa noite de assassinatos ser finalizada em breve, e partir para algo novo na outra metade da temporada.

Por Gabriel Fernandes em 15 de October de 2019

"Tu fui, ego eris". Arquiteto e urbanista, ilustrador independente, colecionador de mangás e grande apreciador do gênero terror em filmes, séries e jogos.