Os ritmos sortunos em “Cape Fear” e “Pale”, estreia de ‘AHS: Double Feature’

Chegamos ao décimo ano de American Horror Story, com Double Feature, e neste ponto, o tema de horror para cada temporada é o aspecto mais animador da série, juntamente de seu elenco. A antologia nos leva a uma nova investida por parte da equipe criativa que promete nos entregar dose dupla de conteúdo, e também nos mostra que Ryan Murphy e Brad Falchuck compreendem seus pontos fortes e fraquezas ao entregar-nos duas histórias que serão menores que o comum. Um dos maiores problemas que a série vem enfrentando nos últimos anos é a falta de poder narrativo para sustentar uma temporada por 10 ou 12 episódios sem perder seu ritmo, ou perder-se com excesso de tramas, e por fim não concluir todas de forma satisfatória.

Dividida em duas partes – “Red Tide (Maré Vermelha)”, com um arco de seis episódios e “Death Valley (Vale da Morte)”, finalizando com mais quatro capítulos – a décima temporada de American Horror Story iniciou sua jornada com uma première dupla, “Cape Fear” e “Pale”. É um começo lento, soturno e sem saturação em seu primeiro episódio, com um ritmo que caminha a passos rápidos ao chegar no episódio seguinte, nos entregando uma verdadeira releitura contemporânea de vampiros num estilo familiar, que lembra as obras de Stephen King.

Red Tide desenrola sua história nos introduzindo a vários rostos conhecidos na família de AHS, com Evan Peters, Sarah Paulson e Frances Conroy retornando em intrigantes papéis coadjuvantes, e Finn Wittrock e Lily Rabe tomando o foco da história com o casal Harry e Doris Gardner. Finn e Lily são dois atores excelentes e boas escolhas para estes papeis, os dois possuem a versatilidade necessária para mudar de forma convincente entre os momentos doces e de tensão, especialmente Finn, que ocupa o papel de protagonista. A história inicia com o casal mudando-se para a cidade de Provincetown para conseguir inspiração para ambas as suas carreiras, cidade esta que está mais vazia que o comum devido ao clima frio de inverno, com suas ruas densas por uma neblina incessante sendo atormentadas por criaturas pálidas e sombrias, que segundo a personagem de Adina Porter, Comandante Berlison, são apenas viciados inofensivos.

O início de Red Tide é bastante produtivo em termos de balancear entre a introdução da família Gardner e o resto dos moradores locais de Provincetown. TB Karen talvez seja o papel menos glamoroso de Sarah Paulson, que entrega 100% de si numa atuação impecável e bastante confiante. Sua personagem possui ligações intrigantes a outros moradores, como o garoto de programa Mickey, interpretado aqui por Macaulay Culkin. O seu grande amor por filmes é um dos elementos interessantes que o afastam de ser genérico e caricato, mas logo torna-se visível que ele funcionará como uma peça chave para o desenvolvimento de TB Karen. Contrastando à natureza em que estes dois vivem suas vidas, conhecemos também os opulentes escritores Austin Sommers (Evan Peters) e Belle Noir (Frances Conroy), que entregam um ar de sofisticação a todas as cenas que estão presentes. Frances e Evan parecem estarem divertindo-se e bem confortáveis com as personalidades sarcásticas e soturnas, e certamente estas personalidades são derivadas de performances passadas dos dois atores dentro do universo da série.

A sabedoria popular a respeito de vampiros é algo bem conhecido, mesmo sendo fictício. Tentar inovar além do necessário e sair das regras conhecidas do mundo dos vampiros pode resultar em escolhas que desagradem a audiência-alvo, mas “Red Tide” toma escolhas que são divertidas, entregando-nos um grupo de pessoas pálidas e esquisitas que, aparentemente, foram aspirantes a serem bem-sucedidos através de sua criatividade e brilhantismo. A pílula misteriosa aparentemente só floresce a criatividade daqueles que já possuem talento. Se você estiver apenas buscando um caminho fácil e não possuir talento algum, irá tornar-se numa criatura não-pensante que assombra as ruas de Provincetown. Até mesmo as presas chegam a ser opcionais, fica a seu critério modificar seus dentes ou não para facilitar sua nova alimentação. Todas estas novas regras não diminuem o caráter da história.

Inesperadamente, o episódio desenvolve uma alegoria a respeito de processo criativo e o preço da arte. O vampirismo é, aqui, uma metáfora sombria para a necessidade que um artista possui de sugar as vidas de suas fontes de inspiração. Sucesso é algo que se torna viciante para um artista, assim como sangue fresco é para os vampiros. Ryan Murphy provavelmente é o único que transformaria algo que é eterno e imaculado como vampiros num paralelo deste tipo; artistas realmente podem ser sanguessugas de egos inflados.

A atmosfera densa em “Cape Fear”, junto de sua premissa, gera um ritmo soturno que cresce conforme conhecemos o caráter de Provincetown e seus moradores sombrios. Visuais perturbadores de corpos na praia, animais mortos nas estradas e criaturas pálidas demonstram-se assustadores e efetivos, mesmo sendo em momentos simples. Em “Pale”, há uma mudança para um ritmo mais genérico e rápido, em destaque para a grande descida de Harry no universo daqueles que consomem as pílulas, quando menos esperamos o escritor já está cerrando seus dentes com a Dra. Feldman (Billie Lourd) e ficando bem à vontade com a caça por sangue fresco. Porém, apesar de parecer apressado, o segundo episódio ainda permanece cativante com a quantidade de acontecimentos sombrios que continuam surgindo.

A primeira parte de Double Feature toma forma a partir de uma trama regular que implode numa história diabólica, brincando com uma interpretação única de vampiros que carrega bastante potencial. Histórias com famílias que permanecem em lugares assombrados ou perigosos sempre contam com pessoas tomando péssimas decisões para que a trama possa continuar a desenrolar-se, mas Red Tide nos dá motivos suficientes para que os Gardeners não saiam da cidade. No momento atual, o segundo episódio, “Pale,” conseguiu ampliar os patamares da história e aumentar a curiosidade da audiência. American Horror Story talvez tenha resolvido alguns de seus problemas ao dividir uma temporada em duas jornadas, mas só teremos certeza se a ideia será um sucesso quando Red Tide chegar ao seu ponto final, dentro de algumas semanas.

Por Gabriel Fernandes em 29 de August de 2021

"Tu fui, ego eris". Arquiteto e urbanista, ilustrador independente, colecionador de mangás e grande apreciador do gênero terror em filmes, séries e jogos.