Review: A véspera do fim em ‘Fire and Reign’, penúltimo episódio de ‘Apocalypse’

1776. É véspera da Noite de Santa Valburga, uma festa com raízes do paganismo transformada em tradição cristã. Jovens alemães fazem uma pequena reunião em meio à floresta próxima à Ingolstadt, cidade da Baviera. Eles fundam a uma sociedade secreta chamada Ordem dos Illuminati. Seu propósito é colocar fim às maquinações dos perpetradores da injustiça, controlá-los, sem dominá-los. O grupo é alvo de proibição em 1784 pelo príncipe eleitor da Baviera Carlos Teodoro. Teorias (da conspiração) afirmam que a sociedade secreta ganhou ramificações e atualmente controla as decisões do mundo nos bastidores. Ah, sim, Ryan Murphy – ou algum roteirista de American Horror Story – achou interessante incluir os Illuminati nas maquinações de “Apocalypse”. A Cooperativa nada mais é do que seu novo nome. Mudança por questão de marketing, sabe?

Putin, Clinton (Bill, não Hillary), Kim, são seus integrantes após vender a alma para o Diabo, Michael (Cody Fern) descobre em “Fire and Reign” (Fogo e Reino), penúltimo episódio da oitava temporada. Ele recebe colheradas de informações e manipulações de Mutt (Billy Eichner) e Jeff (Evan Peters), que tentam convencê-lo de executar o fim do mundo. Michael está confuso sobre o próprio papel. Emocionalmente, tudo que ele quer é eliminar as bruxas por vingança. Ele recorre a conselhos da versão androide de Mead (Kathy Bates), na verdade um fantoche dos dois nerds. E ao roteiro de filmes sobre o Anticristo, como “A Profecia 3”. Quase metalinguagem, já que American Horror Story se alimenta também de referências cinematográficas.

REINO
O primeiro pensamento do espectador (e confesso, o meu) é que é anticlimático ver um Anticristo tão perdido. Queríamos um ser onipotente e onisciente. Sim, é frustrante e diferente da execução que compramos após também nos nutrirmos da cultura pop sobre o descendente do demônio na terra. Mas Michael não é o Pai ou o Espírito Profano, ele é o Filho. Temos de admitir que há uma coerência no direcionamento para o personagem, por mais que fosse interessante vê-lo todo poderoso na reta final da história. Talvez o grande problema aqui não seja o conteúdo e sim o ritmo. Esses dilemas talvez funcionassem melhor em outra etapa da história, o que não significa que não façam sentido.

Michael tem apenas oito anos, apesar da aparência. As reações infantis e a falta de rumo são compatíveis com uma criança que cresceu rápido e com poderes demais. Mas vê-lo como um destruidor do mundo desorientado, apoiado por milionários egocêntricos e raivosos da área tecnológica, tem uma lógica principalmente por outro motivo. É um eco da geopolítica atual.

Estamos em um mundo em que homens imaturos com grande poder são eleitos para cargos onde podem detonar um arsenal de bombas atômicas ou assinar outros tipos de decisões destrutivas. Alguns deles foram catapultados para suas posições de liderança com a ajuda de nerds misóginos e egoístas. Desde 2016, os Estados Unidos vive a era Trump. O 4chan, um site ocupado nerds cheios de raiva, tornou-se a vanguarda de uma nova extrema direita que ajuda popularizar políticos como ele. Trump se elege com auxílio de roubo de dados de usuários da internet e manipulação de internautas, ou seja, com o trabalho de nerds egoístas.

Cult” já mostrou as preocupações dos produtores de American Horror Story e como elas refletem a realidade do país. O horror atual norte-americano está ligado a um líder despreparado com alto poder destrutivo. Conscientemente ou não, “Apocalypse” é um tributo à política atual (e nós, brasileiros, também podemos nos identificar com isso).

Michael é apresentado à Cooperativa e cobra a dívida de seus membros com o Diabo, seu pai. Ele quer acesso às armas que podem destruir o mundo e promete salvar a humanidade por meio de adaptação de construções que possam ser transformadas em santuários. Ou Postos Avançados, como descobriríamos. Sem que Michael saiba, Jeff e Mutt dão plenos poderes para sua assistente, Venable (Sarah Paulson) criar regras para um dos santuários, como ela fez no início da temporada.

FOGO
Antes disso, ele começa seu objetivo principal: destruir as bruxas. O próprio apocalipse é um meio para esse fim. Assim como Cordelia (Sarah Paulson), ele procura magia vodu. Dinah (Adina Porter) vende a vida das bruxas em troca da aprovação de 13 episódios para seu talk-show. Ela usa os próprios poderes para eliminar o feitiço de proteção da Academia Miss Robichaux.

O clã tem múltiplas baixas, Zoe (Taissa Farmiga), Bubbles (Joan Collins) e Queenie (Gabourey Sidibe), desperdiçadas, entre elas. Enquanto as bruxas morrem, resta a Cordelia fugir com as sobreviventes e, sobretudo, proteger Mallory (Billie Lourd), a próxima Suprema em potencial.

Há limitações para a atual e para a futura líderes das bruxas. Cordelia tenta reviver suas discípulas, mas descobre que a alma delas foi destruída por Michael, como Madison (Emma Roberts) esqueceu de alertar — à propósito, o tapa que Madison levou por sua pequena falha, foi tão desnecessário quanto o tapa que Fiona (Jessica Lange) deu em Cordelia quando descobriu que o marido de sua filha era um caçador de bruxas, em “Coven”. Apesar de ser um momento rápido, Emma Roberts emulou bem, com o olhar e a expressão, a emoção pela inexistência das bruxas e o reconhecimento do que havia acontecido com os espíritos de suas colegas. A humanização da Madison é um dos pontos fortes no desenvolvimento da personagem, que continua sendo uma “stone cold bitch“, mas com coração mole.

Mallory não tem o completo domínio dos próprios poderes, em partes porque a atual Suprema ainda está viva. Cordelia até cogita um autossacrifício, opção descartada por Myrtle (Frances Conroy). Contudo, existem esperanças. As bruxas desvendam a natureza do talento de Mallory. Quando Myrtle a observou, ela não só ressuscitou um veado, ela reverteu o tempo até rejuvenescê-lo. Mallory é capaz de viajar no tempo. Ela é exposta a um experimento. Retornar em 1918, para salvar a princesa russa Anastasia de ser morta durante a Revolução Russa. No universo de American Horror Story, ela era uma bruxa.

Quais os prováveis motivos para optarem por esse ato? Minha suposição: Anastasia é uma lenda, porque durante muito tempo ninguém soube se ela foi executada com os pais e irmãs ou se conseguiu escapar. Seu corpo não foi identificado até recentemente. Salvá-la significaria evitar a morte de uma bruxa e, ao mesmo tempo, de alguém em volta de um mistério, que pode ter sobrevivido ou não. A mudança teria um impacto menor na história, então o teste talvez não trouxesse grandes desastres. Mallory não consegue salvar Anastácia, mas é capaz de voltar no tempo. Como disse, há esperanças. Porém, ainda não realizadas. As bruxas estão isoladas, e perderam seus aliados bruxos, também mortos por Michael, entre eles Behold (Billy Porter) e John Henry (Cheyenne Jackson), também desperdiçados em mortes realizadas fora da cena.

O BOM E O RUIM
Fire and Reign” é um bom episódio, principalmente em comparação ao anterior, um tanto fraco (péssimo, para falar a verdade). Continua sendo curto (novamente 38 minutos), apresenta frustrações (Michael confuso e manipulado pelos dois nerds é compreensível, como vimos, porém frustrante) e algumas conveniências de roteiro (Myrtle de repente acha respostas sobre Mallory em um livro na casa da Misty, Michael no final ganha subitamente confiança). Apesar disso, traz respostas sobre a Cooperativa, sobre Venable, sobre os poderes de Mallory. São poucas? Talvez. Temos apenas um episódio e muito a se desenvolver.

Há boas cenas, como o encantamento Vodu de Dinah, bom de se ver, e a tentativa de Mallory salvar Anastacia. Aliás, a conclusão dessa sequência, com Mallory em desespero, é uma prova de que Billie Lourd é capaz de boas atuações, só não teve um material forte o suficiente no roteiro para desenvolver bem sua personagem. Há cenas incômodas. Os personagens de Billy Eichner e Evan Peters são tão forçados que é irritante assistí-los. A cena da morte das bruxas é tão rápida, que embora a cinematografia seja bonita, tem um impacto raso.

A execução de feiticeiras vodus figurantes pelos caçadores em “Coven” foi mais marcante, trazia ecos sociais sobre a perseguição racial, uma trilha sonora emocionante. Aqui tivemos uma oportunidade perdida, já que personagens queridas foram mortas e a direção poderia retomar outra questão social que parecia se refletir na temporada: as mulheres em busca de empoderamento e união contra uma opressão patriarcal. Michael matá-las, poderia doer como uma derrota nesse sentido. Mas não foi assim. Talvez as mortes de Zoe e Queenie foram tão corridas, porque ainda podem ser desfeitas com a viagem no tempo de Mallory. Ainda assim, poderiam ter sido mais tristes e brutais.

Nesse ponto da história, apesar de o final estar próximo, tudo parece incerto para Cordelia. Ela sente dúvidas como Michael. Também pensa em sua genitora. Cordelia acredita que Fiona teria mais força como Suprema em tempos de guerra. Myrtle diz que não. Porém, ainda não é possível saber como Cordelia pode agir para o salvar o mundo.

Do mesmo modo, o espectador ainda não sabe como o último episódio pode salvar uma temporada que em sua maior parte foi boa, de um final mal construído. É possível? É. Porém, temos ainda de entender como Cordelia ocultou a identidade de Coco (Leslie Grossman), Dinah e Mallory, ver as maquinações das explosões (o que pode ou não ser mostrado), entender o papel dos novos Adão e Eva, ver os poderes de Mallory se desenvolverem, assistir ao grande embate entre bruxas e Anticristo, ver sua conclusão, presenciar as consequências de um desfecho feliz ou infeliz.

Não é uma questão de carência de respostas, intolerância com elementos abertos a interpretação. Sequer passar a maior parte da temporada com flashbacks é um defeito, necessariamente. Há boas narrativas mostradas com cronologia não-linear. O próprio Murphyverse tem um bom exemplo com a segunda temporada de “American Crime Story”. O problema é que com o penúltimo episódio finalizada, já conseguimos sentir que alguns potenciais da temporada foram mal explorados (a própria Mallory, as personagens de Coven), que há rebarbas decepcionantes (a robô de Mead, os dois nerds, a Cooperativa em certo ponto) e muitas construções da trama já foram apressadas. Ter um final preguiçoso ou corrido seria ruim. Vai ser assim? Não sabemos. Assim como Myrtle, o que nos resta é nos apegar à esperança de que o pior não vai acontecer.

Post-Scriptum: A robô de Mead mata as bruxas revelando que tem uma arma escondida no braço. Bobo, sim. Contudo, compatível com a origem dela. Ela foi criada por dois imaturos, não podemos esquecer.

Post-Scriptum 2: A atriz que fez o papel de Anastasia, Emilia Ares, não é estranha ao mundo de American Horror Story. Apesar de ser a primeira vez que a vemos atuando dentro da série, o rosto dela — mesmo que quase irreconhecível — está no pôster principal de “Hotel”.

 

Por Rafaela Tavares em 08 de November de 2018