Review: Réquiem para uma traição em ‘Traitor’, 7° episódio de ‘Apocalypse’

Do Gênesis aos Evangelhos, a Bíblia reserva destaque para narrativas de traição. A mitologia judaico-cristã se inicia com Adão e Eva quebrando uma proibição com Deus – ainda que se possa argumentar que o tratado de não comer o fruto do conhecimento tenha sido unilateral, mais uma imposição que um acordo. Na geração seguinte, Caim trai o próprio irmão, matando-o por ciúmes. Os martírios de Cristo na mão dos romanos dependem de uma traição: Judas o vendeu em troca de moedas. Esses gesto têm tanta força no imaginário ocidental que o nono e mais profundo círculo do Inferno, descrito por Dante, é reservado aos traidores.

As bruxas do universo de American Horror Story têm também um código para traição, com direito uma penalidade especial: aqueles que traírem os semelhantes são punidos com fogueira. O sétimo episódio de “Apocalypse”, “Traitor” (Traidor) culmina em uma dessas execuções. A trama mostra uma escalada de eventos que (quase todos) fluem para o mesmo ápice, um sinal da boa construção narrativa desse episódio.

MAGIA VODU
Cordelia (Sarah Paulson) resolve tomar medidas desesperadas depois de descobrir que Michael (Cody Fern, ausente durante todo o episódio) não é um bruxo comum, e sim o Anticristo. Ela recorre à magia vodu. É importante lembrar que em “Coven”, sua experiência com essa modalidade de bruxaria não foi bem-sucedida. O encontro prévio da mãe de Cordelia, Fiona (Jessica Lange) com Marie Laveau (Angela Bassett) arruinou a possibilidade de Cordelia participar de um ritual para fertilidade. Desta vez, é Dinah Stevens quem ela procura e, finalmente, vemos a personagem de Adina Porter em sua personalidade original.

Nos eventos de “Coven”, Marie Laveau era a rainha vodu, uma posição equivalente à de Suprema. Ela era imortal por uma acordo com Papa Legba (Lance Reddick), porteiro do Mundo Espiritual, que fica incapacitada de cumprir ao ser desmembrada por sua inimiga, Delphine Lalaurie (Kathy Bates). O resultado dessa traição do tratado é que Dinah é a nova rainha vodu. Os atos de Marie Laveau tinham ecos políticos. Ela viveu a escravidão e a segregação racial, por isso buscava proteger e vingar a comunidade negra. Dinah usa o próprio poder por dinheiro e egocentrismo, o que explica suas ações centradas na sobrevivência e apáticas na linha do tempo pós-apocalíptica.

Cordelia, com seu poder como Suprema, não precisa da magia de Dinah, o que ela quer é que a nova rainha vodu invoque Papa Legba, para um acordo em troca de prender Michael no Inferno. O preço exibido por ele é a alma de todas as bruxas. Fiona havia oferecido a alma de Nan (Jamie Brewer), uma das alunas da Academia Robichaux. Legba transformou Nan em seu braço direito, o que a corrompeu por completo, como o episódio revela. Cordelia recusa a proposta e segundo Dinah, quebra qualquer possibilidade de tratar com Papa Legba.

De todas as sequências do episódio, essa é a menos encaixada. Aparentemente, serve apenas para revelar a personalidade real de Dinah (o que não é ruim, sempre é bom ver Adina Porter interpretar mulheres mais enérgicas), mostrar que Cordelia está desesperada mas não o suficiente para se tornar uma traidora de seu clã, e fanservice. O público talvez desejasse um aperitivo com Papa Legba, seu gestual, seu sotaque, todos tão bem construídos por Reddick e todos se perguntavam por Nan. Apesar disso, as cenas não têm impacto nos acontecimentos posteriores. (A não ser, é claro, que as reais consequências desse encontro não tenham ainda sido mostradas, mas isso é material para teorias, não análises.)

TELEPATIA
Paralelamente, Madison (Emma Roberts) e Myrtle (Frances Conroy) têm uma missão: entrar em contato com outra bruxa, uma atriz de filmes B chamada Bubbles McGee (a nova personagem de Joan Collins, muito mais divertida de se assistir do que Evie). Ela é introduzida nos bastidores de um curta de Natal Macabro, no qual assassina o marido e é perseguida por um Papai Noel homicida. É uma dupla homenagem. Mais diretamente, a cena reproduz “And All Through The House”, a participação de Joan Collins no filme de histórias de terror “Tales from the Crypt” (1972). O Papai Noel assassino também faz o fã de American Horror Story se lembrar de Leigh Emerson, o personagem de Ian McShane em Asylum.

Em pouco tempos sabemos que Bubbles é amiga de Myrtle, excêntrica e capaz de ler mentes. Essas habilidades são utilizadas para arrancar informações do clã dos bruxos. Em cena com a medida certa de tensão e humor, Bubbles descobre que Augustus (Jon Jon Briones) e Pennypacker (BD Wong) desejam dizimar o clã feminino para garantir o poder do masculino, por meio de Michael. Ela também consegue informação sobre como os dois contribuíram para o assassinato de John Henry (Cheyenne Jackson).

Quem também tem poderes semelhantes à Clarividência é Coco (Leslie Grossman, muito mais adorável na versão real da personagem). Além de detectar glúten, agora seus poderes se ampliam para revelar a caloria de alimentos. Ela se diverte ao exibi-lo até quase morrer engasgada com um doce e receber uma traqueotomia mágica de Mallory (Billie Lourd), que cada vez é mostrada como alguém mais poderosa, candidata forte ao posto de Suprema, mas sem ter a personalidade tão bem desenvolvida como as outras personagens. Até agora, a melhor cena dela foi o confronto com Michael no terceiro episódio. Contudo, ela continua demonstrar compaixão e poder que são a antítese dos do Anticristo.

DO PÓ À CARNE
Cordelia acredita que os poderes de Coco não se resumem a alimentos e a encarrega de detectar a localização da cúmplice de Michael, Mead (Kathy Bates). E a Mallory cabe ressuscitar John Henry, que, vamos fazer uma pausa para apreciação, é o personagem de Cheyenne Jackson com melhor presença de cena durante toda série. Zoe reúne as cinzas dele e Mallory restaura seu corpo, numa sequência onde a bruxa, aparentemente, cumpre com destreza o teste das Sete Maravilhas. Ao final da cena, que emula novamente o cinema mudo, assim como o teste de Michael, uma frase: “Celebrem! Nossa nova Suprema surgiu!”. Mas seria mesmo uma Suprema?

Cordelia já fez algo parecido com o que Mallory fez, no passado. O episódio traz uma resposta sobre como Myrtle voltou à vida. Logo após sua execução por ter matado membros do conselho dos bruxos, ela foi restaurada do pó à carne por Cordelia, que sentia sua falta. Apesar de ter sofrido com a fogueira de Myrtle, Cordelia está disposta a ver não uma, mas três outras acesas. As bruxas capturam Mead, Augustus e Pennypacker e John Henry tem o prazer de incendiá-los como punição por suas traições ao clã. É estranho que a personagem de Kathy Bates receba uma penalidade reservada para bruxos, mas provavelmente o que Cordelia quer é desestabilizar Michael. É assustador ver Kathy Bates sorrir de modo sinistro em meio a chamas – uma das cenas mais perturbadoras da temporada, provavelmente.

O sétimo episódio de “Apocalypse” continuou a trazer alguns fanservices, mas também foi bem amarrado, com cenas que progrediram a trama e algumas revelações. A única preocupação que podemos ter (ou que antes de vermos a conclusão, parece justa) é de que a temporada está se apoiando demais em cenas do passado. Haverá tempo o suficiente para mostrar o Apocalipse e uma resolução bem desenvolvida para o conflito entre elas e o Michael? Será o passado tão essencial nesse desfecho?

Post-Scriptum: Myrtle provavelmente é a única pessoa a continuar glamourosa fumando um cigarro eletrônico. Será que as duas mortes na fogueira a deixam pouco disposta a ter contato direito no fogo?

Por Rafaela Tavares em 03 de November de 2018