O verdadeiro protagonista em “The Lady in White”, 7º episódio de “1984”

1984 tem sido uma temporada onde todos os personagens têm recebido histórias elaboradas a respeito de seus respectivos passados. Entretanto, desde o começo já ficou claro que Brooke (Emma Roberts) é a protagonista da trama e inevitável final girl, mesmo que Margaret (Leslie Grossman) tenha usurpado a posição no clímax do último arco. E mesmo que saibamos que eventualmente ela irá recuperar o que é seu, este episódio nos mostra que Benjamin Richter (John Carroll Lynch) tem um igual potencial de ser protagonista. De vilão passou a ser um anti-herói, e a audiência começou também a torcer pelo personagem que inicialmente era visto com olhares bem diferentes.

Às vezes, assassinos em série surgem a partir da dor e amargura, mas algo simples como ter uma responsabilidade errônea ligada à si também pode resultar num destino igual. Culpabilidade é normalmente um componente crucial no gênero slasher, e não é diferente em 1984, já que temos personagens sendo forçados a admitir a autoria de assassinatos que não cometeram diretamente, e “The Lady in White” nos trás esta temática sob um novo ponto de vista.

Benjamin é o personagem mais manipulado por terceiros em toda a temporada, mas percebemos o quão suscetível ele é a manipulações quando vemos um flashback de sua pré-adolescência. Mesmo que Margaret seja a assassina do massacre de 1970, Benjamin, de fato, carrega certa culpa no ocorrido. Em 1948 ele perdeu seu irmão, Bobby, num acidente com uma canoa a motor em circunstâncias bem parecidas com as do filme Sexta-Feira 13. A tragédia faz com que sua mãe, Lavinia (Lily Rabe), se afunde em amargura, criando uma lacuna maior ainda entre mãe e filho. O resultado disto foi o primeiro massacre a ocorrer no local, na época chamado Acampamento Golden Star, que tornou o terreno um local aberto à atividades sobrenaturais.

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Por não ter saída, o jovem Benjamin precisou matar sua própria mãe para sobreviver, e ironicamente ajudou a começar o ciclo de massacres no acampamento. Lavinia culpava-o pela morte de Bobby, e todo esse desgosto foi combustível suficiente para motivá-la a matar e, também, manipular outros a fazerem o mesmo. A personagem revela que ela deu o empurrão necessário para que Margaret cometesse o massacre de 1970 como uma maneira de planejar uma punição para Benjamin, uma retribuição pela morte de Bobby. A revelação é devastadora e tanto Lynch quanto Rabe são incríveis no decorrer desta cena intensa. Seja uma cena de flashback ou no momento atual da trama, Lily mantém o mesmo nível impecável de atuação.

Com Brooke e Donna à caminho do acampamento, ocupadas com suas distrações, Benjamin é o único que pode pôr um fim neste ciclo de horrores. Seu destino cai como uma luva, pois lhe permite confrontar sua mãe e questionar toda a toxidade da relação dos dois que apenas cresceu com o passar do tempo. E no meio disto, os dois terminam se compreendendo, de certo modo, e parece que finalmente podem botar um ponto final nesta desavença. Agora que Lavinia está fora de seu caminho, tudo o que resta é um Benjamin renovado, pronto para fazer tudo o que estiver a seu alcance para manter seu filho à salvo das mãos de Ramirez, até mesmo abrir mão de sua vida.

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Enquanto isto, Brooke e Donna (Angelica Ross) debatem se o acampamento Redwood deve ser algo a ser esquecido, ou se fará parte de seus futuros. A relação entre as duas reinicia de um ponto com muita mágoa e ódio, compreensivelmente, claro, mas com o passar do tempo as duas terminam se apaziguando. As cenas em que vemos Brooke trancada num quarto de hotel em dias intermináveis de melancolia são bem justapostas com a animação que a personagem recebe de volta ao sair daquele ambiente e se divertir enquanto patinava com Donna.

Observando este tempo em que mostraram a reconciliação de Brooke e Donna, talvez até pareça que seja uma técnica para diminuir a velocidade de uma trama que tem sido veloz desde o início, mas tudo culmina em um arco que trouxe bastante suspense e ação para o episódio. Bruce (Dylan McDermott) torna-se um interessante obstáculo no caminho das duas, é um homem charmoso e assustador, um completo enigma que permite Brooke e Donna trabalharem em equipe e fortalecerem ainda mais sua relação.

Dylan desempenha um ótimo trabalho no papel do mochileiro assassino Bruce, e consegue se destacar mais do que um ator aleatório conseguiria com o mesmo papel. O personagem estabelece algum tipo de conexão com Donna, mas ela e Brooke estão mais preocupadas em escapar e sobreviver do que compreender Bruce. Assim, as duas conseguem livrar-se do assassino de forma criativa e um tanto brutal, mas algo me diz que ainda veremos mais do personagem.

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Caso alguém ainda se importe com Richard Ramirez, ele está ocupado matando artistas que estão se preparando para o festival musical que acontecerá no acampamento Redwood, apenas para manter a quantidade de mortos no local em dia. Com tudo isto acontecendo, e personagens principais retornando ao acampamento, chega a ser cômico ver o roteiro fazer Ramirez ignorar tudo isto e se divertir com suas matanças. Mesmo que seja compreensível o fato da equipe criativa querer manter uma ameça em potencial para os personagens que o público aprendeu a gostar, o personagem não possuir um motivo maior para fazer o que faz, o torna um tanto supérfluo.

“The Lady in White” é um episódio satisfatório da reta final de 1984, temos apenas mais dois episódios para que esta trama seja encerrada e este prepara bastante terreno para o clímax, continuando também a nos entregar divertidas aparições de membros veteranos do elenco, com ótimas atuações de Lily Rabe e Dylan McDermott. Este capítulo estabiliza um pouco a velocidade da história, sem fazer com que a mesma torne-se monótona. A temporada continua a brincar com as transformações nas vidas dos personagens e com a definição de o que é uma vítima. Finalmente todos estão de volta ao acampamento e 1984 está pronta para um final sanguinário.

POST-SCRIPTUM 1: Toda a relação de mãe e filho, assim como acidente no lago é uma inspiração mais do que óbvia do universo de Sexta-Feira 13.

POST-SCRIPTUM 2: O nome da personagem de Lily Rabe, Lavinia Richter, parece ser uma referência direta à Lavinia Fisher, conhecida por ser a primeira assassina em série nos Estados Unidos. Assim como Richter usou seu vestido de noiva para assassinar os jovens no acampamento Golden Star, Fisher foi executada pela corte judicial americana usando o seu vestido de noiva.

Por Gabriel Fernandes em 07 de November de 2019

"Tu fui, ego eris". Arquiteto e urbanista, ilustrador independente, colecionador de mangás e grande apreciador do gênero terror em filmes, séries e jogos.